Antes da embriaguez, que é o "hábito", se
tornar em alcoolismo, que é "doença", ninguém tinha pena dos
vagabundos. Então o alcoolismo começou a ser compreendido e os alcoólicos
passaram a ser lastimados em vez de desprezados. Até muito recentemente, o
método de aproximação usual consistia em perdoar os caprichos dos alcoólicos,
confortá-los nas suas más disposições, cortar-lhes o acesso às bebidas e
esperar que se sentissem tão mal que, por si sós, se decidissem a recuperar-se.
Então, os peritos começaram a aperceber-se que o
alcoólico só se recupera depois de chegar ao "fundo" - quando se sentem
tão repugnantes e cheios de asco. Só então, estão disponíveis para aceitar a
realidade de que já não têm controle na bebida mas sim que a bebida passou a
controlá-las e isso está a arruinar as suas vidas.
Algumas alcoólicas atingem o "fundo"
ainda a tempo de se recomporem. Outras só lá chegam quando já todos os seus
parentes e amigos lavaram as mãos do seu caso e sozinhas deixam-se embrenhar
tão profundamente no álcool que ficam num estupor alcoólico e quase morrem de
má-nutrição.
Noutros casos ainda, só chegam ao fundo para
morrer, devido ao consumo simultâneo de álcool e comprimidos para dormir (uma
complicação comum, especialmente entre as mulheres) elas morrem por um efeito
combinado de bebidas e drogas, como foi o caso da morte de Marilyn Monroe. Infelizmente,
as mulheres alcoólicas são muito mais frequentemente impedidas de chegarem ao
fundo que os homens.
Os parentes protegem-nas das consequências das suas
ações, os amigos e os patrões encobrem-nas e até mesmo a polícia quando se
depara com uma mulher embriagada, faz de conta que não vê.
Mas, Ruth Maxwell, no seu livro "A Batalha
das Bebidas: Uma aproximação que funciona, baseada no senso comum", sugere
que retiremos a nossa proteção e que ainda, forcemos a alcoólica a ir ao
"fundo", só então veremos que ela vai pedir socorro antes que ela
torne o dano irreparável.
Ruth disse-me "se pararmos de proteger a
alcoólica das consequências do seu vício, se permitirmos que ela veja o mal que
está fazendo a ela própria e aos que a rodeiam, podemos forçá-la a ver a
realidade da sua situação." “NÃO esconda as bebidas, diz-nos Ruth; a
alcoólica acaba por descobri-la e ainda arranja mais”. NÃO evite ocasiões
sociais onde ela possa ficar embriagada, não lhe peça para prometer que não
volta a beber, não a recompense nem a ameace por causa da bebida.
Tudo isso é inútil. Chame-lhe ALCOOLISMO. Deixe-a
beber porque de qualquer maneira, ela não é capaz de parar e deixe-a passar por
todas as situações dolorosas e humilhantes: a ameaça de perder o emprego, os
efeitos da bebida em si e nela própria. A dor e humilhação fornecem frequentemente
a primeira motivação para que a alcoólica procure alcançar ajuda e deixar de
beber.
Parar de beber é a única resposta para a alcoólica.
Isso foi provado e confirmado durante um estudo de cinco anos levado a cabo na
Universidade da Carolina do Norte pelo psiquiatra John Ewing. Usando terapia de
aversão e técnicas de apoio, o Dr. Ewing tentou ajudar alcoólicos a controlarem
o consumo de álcool e falhou, não conseguindo que um só alcoólico bebesse
apenas uma ou duas bebidas e parasse.
Mas, para deixar de beber, a alcoólica necessita de
ajuda e não é qualquer tipo de ajuda que vai resultar. Muitas mulheres tentam a
psicanálise, a qual se tem mostrado totalmente ineficaz. De fato, muitos dos
bons psicanalistas recusam-se a trabalhar com alcoólicos. Muitas mulheres
consultam os seus médicos, a maior parte das vezes não para se curarem mas
apenas buscando alívio dos sintomas - ansiedade, insônia e depressão.
Incapazes de, na maior parte das vezes, reconhecer
estes sintomas, o médico prescreve comprimidos. Sendo particularmente
susceptível a vícios secundários, a alcoólica cai frequentemente na fase
"bebida e comprimidos". O Dr. Donald Douglas salienta, num artigo
publicado, que “o tratamento numa luxuosa clínica de desintoxicação por
fisioterapia, ou uma estadia num hospital discreto, sob um diagnóstico falso,
ou o uso comum de sedativos e tranquilizantes”... tudo não passa de simples
métodos de proteger a continuação do vício...
As chamadas "melhoras", ou curas, atingem
apenas um quarto, ou quando muito, um terço, da população alcoólica que
consegue manter-se abstinente, por vezes por períodos prolongados. E conclui,
"A libertação do vício não termina na abstinência; ela começa com
abstinência."
Existem três formas através das quais o alcoólico
pode ser ajudado a abandonar a bebida – e a recusar a próxima que lhe venha a
ser oferecida.
A primeira e mais antiga é através dos Alcoólicos
Anônimos. Os AA têm sido bem sucedidos desde o seu começo; três quartos dos
seus membros foram bem sucedidos na sua libertação duma doença que, até ao
aparecimento dos AA era quase totalmente incurável. O Dr. Douglas explicou como
funcionam os Alcoólicos Anônimos:
"Depois de ouvir os testemunhos verídicos de
outros alcoólicos, a doente sente uma dificuldade crescente em negar o seu
alcoolismo, e isso lhe tira a vontade de beber ... um inabalável reconhecimento
é imprimido pelo muito esforço para negá-lo: o aumento progressivo do consumo,
a imprevisível perda de controlo depois da primeira bebida, as típicas
negações…" O Dr. Douglas faz notar que muitas das reuniões AA são abertas
a toda a gente e sugere que muitas das alcoólicas levadas contra vontade a uma
essas reuniões podem vir a ser ajudadas pela experiência de perceberem que ali
é o seu lugar.
Um recente desdobramento dos AA foram os programas
de recuperação de alcoólicos levados a cabo pelas grandes empresas. Uma
pesquisa feita pelo Instituto Nacional do Abuso do Álcool, demonstrou que das
149 grandes empresas sediadas em Nova Iorque, 51 desenvolveram programas de
tratamento para os seus empregados.
A maioria utiliza recursos exteriores tais como os
AA, mas o seu próprio pessoal é treinado para detectar pessoas suspeitas, por
causa do seu absentismo ou outros indícios típicos do alcoolismo. Os
pesquisadores descobriram que, quando uma mulher é ameaçada de perder o emprego
se não se tratar, isso é muitas vezes a motivação de que ela necessita.
Muitas mulheres necessitam apenas do apoio dum
grupo do tipo AA. Mas outras há que já vão tão avançadas no seu vício que já
têm convulsões, delírio, histeria e outros problemas graves. Para elas, o
primeiro passo a dar na sua recuperação é a desintoxicação, através da admissão
num centro especializado para ressacar e reabilitarem-se (dura normalmente 5 a
7dias mas por vezes vai até quatro semanas).
O terceiro apoio disponível para os alcoólicos que
querem chutar das suas vidas o hábito da bebida é o uso de outra droga - o
"antabus". É barato, dura até cinco dias por dose e não tem efeitos
maléficos para o organismo, exceto quando um trago de cerveja, uísque ou vinho
é absorvido.
Então todo o inferno parece soltar-se: os olhos
ficam esbugalhados, a face escalda, violentas dores de cabeça, fortes batidas
do coração, os pulmões fazem ruído, o estômago revolve-se. Esta droga não
resulta com todos e algumas pessoas não a podem utilizar por causa dos seus
efeitos secundários, mas para muitos outros, que desejam verdadeiramente
permanecer sóbrios, o "antabus" tem provado ser um forte suporte para
muitos que realmente querem permanecer sóbrios.







