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11/01/2015

Lemon Balm has been used for centuries to relax the nerves




Lemon Balm is a member of the mint family and a favourite flower of bees. Lemon balm also goes by the folk names Balm, Bee Balm, Dropsy Plant, Heart’s Delight and Melissa [Mel being Latin for honey and μέλισσα (melissa) the Greek for bee]. The herb has been known as a cure for nervousness and anxiety for centuries. Avicenna (980-1037), an Arab physician said, “Balm causes the mind and heart to be merry”.




About 700 years later in 1696 the London Dispensary wrote, "An essence of balm, given in canary wine every morning will renew youth, strengthen the brain, relieve languishing nature and prevent baldness" referring to Carmelite Water. 

Carmelite Water is a mixture of white wine, lemon balm and other herbs made by the Carmelite Monks the inspiration for Eau de Melisse, a 400 year old cure for a bewildering variety of things including calming the nerves.

Over 300 years after the London Dispensary claimed the herb could "strengthen the brain" researchers at Northumbria University, England, found that lemon balm (Melissa) "can improve cognitive performance and mood".

Aside from the enormous collection of ailments lemon balm is said to relieve it's a pleasant herb in tea and as a dressing for salads and soups. Simply put a sprig into your drinking water to give it a lemony lift. 

Lemon balm tea is best when made from fresh, rather than the dried plant.

The essential oil from lemon balm is included in perfume and massage oils. Lemon Balm, native to Europe, grows open woodland to about two feet tall with a four sided stem, a sign of the mint family. The lemon scented oval pointed leaves grow opposite each other on the stem. The flowers are a light yellow, white to lavender colour.

The herb thrives in full sun to partial shade, needs only moderate watering, and prefers well-drained soil. Bees love it, like the Scorpionweed, and growing lemon balm in the garden will attract them.

7/28/2015

A Fé e o cérebro

"Como você professa sua fé?", pergunta o médico Paulo de Tarso Lima a seus pacientes na primeira consulta. Conversar sobre isso virou rotina no setor de oncologia em um dos mais conceituados hospitais do Brasil, o Albert Einstein, em São Paulo, onde Lima é coordenador do Serviço de Medicina Integrativa. Se o doente vai à missa, ele anota na receita: aumentar a frequência aos cultos. Se deseja a visita de um padre, rabino ou pastor, o hospital manda chamar. Se quiser meditar, professores de ioga são convocados. No hospital, a fé é uma arma no tratamento de doenças graves.
A Santa Casa de Porto Alegre também trabalha nesse sentido. O hospital está realizando uma pesquisa inédita, em parceria com a Universidade Duke, nos Estados Unidos, para mensurar os benefícios biológicos da fé. O objetivo é descobrir se os pacientes espiritualizados submetidos à cirurgia de ponte de safena têm menos inflamações no pós-operatório - hipótese já levantada por outros estudos. "Existe um marcador de inflamação que parece apresentar menores níveis em religiosos", explica o cardiologista Mauro Pontes, coordenador do Centro de Pesquisa do Hospital São Francisco, um dos sete hospitais do complexo Santa Casa da capital gaúcha.
Hoje, as principais faculdades de medicina americanas dedicam uma disciplina exclusiva ao assunto. E, na última década, uma série de estudos mostrou que os benefícios da fé à saúde têm embasamento científico. Devotos vivem mais e são mais felizes que a média da população. Após o diagnóstico de uma doença, apresentam níveis menores de estresse e menos inflamações.
"O paciente com fé tem mais recursos internos para lidar com a doença", diz Paulo Lima. Fé tem uma participação especial no que médicos e terapeutas chamam de coping: a capacidade humana de superar adversidades. "Não posso prescrever bem-estar, mas posso estimular que o paciente vá em busca de serenidade para encarar um momento difícil", explica o médico. É por isso que mais profissionais têm defendido essa relação. "Atender às necessidades espirituais tem de ser, sim, tarefa do médico", defende o cirurgião cardíaco Fernando Lucchese, que está escrevendo o livro A Revolução Espiritual com o psiquiatra americano Harold Koenig, autoridade no assunto.
Há um século, o canadense William Osler, ícone da medicina moderna, já defendia isso. Em 1910, ele escreveu um artigo cheio de floreios elogiosos às crenças das pessoas: "a fé despeja uma inesgotável torrente de energia".
Vantagens no dia a dia
Uma das maiores pesquisas feitas até hoje, divulgada em 2009, revisou 42 estudos sobre o papel da espiritualidade na saúde, que envolveram mais de 126 mil pessoas. O resultado mostrou que quem frequenta cultos religiosos pelo menos uma vez por semana tem 29% mais chances de aumentar seus anos de vida em relação àqueles que não frequentam. Não é intervenção divina. Não é feitiçaria. É comportamento.
Os entrevistados que são religiosos apresentaram um comprometimento maior com a própria saúde. Iam mais ao dentista, tomavam direitinho remédios prescritos, bebiam e fumavam menos. A pesquisa confirmou ainda os dados de um estudo populacional feito em 2001 pelo Centro Nacional de Adição e Abuso de Drogas dos EUA: adultos que não consideram religião importante em suas vidas consomem muito mais álcool e drogas do que os que acham os credos relevantes.
Andar na linha é mais comum entre os crentes, e a razão está no poder de autocontrole, dizem os cientistas. É o que defende o psicólogo Michael McCullough. Professor da Universidade de Miami e parceiro de Harold Koenig em pesquisas sobre espiritualidade, ele diz que a fé facilita a árdua tarefa de adiar recompensas, algo fundamental para muita coisa, de fazer dieta a estudar para concursos.
A fé também tem uma relação íntima com a felicidade. Um estudo feito na Europa mostrou que pessoas espiritualizadas se dizem mais satisfeitas do que aquelas que não se consideram como tal. Parte disso se explica na natureza de ateus e céticos em geral. Quem não acredita em nada pode ter mais propensão ao pessimismo porque faz uma leitura objetiva da vida, sem crer em algo divino que mude as coisas. Por outro lado, a certeza da existência de uma recompensa divina muda a vida das pessoas. E não é questão somente de otimismo. Tem algo pragmático aí.
Religiões estimulam algo essencial para o ser humano: o espírito de comunidade. Devotos normalmente não estão sozinhos, o que ajuda nos problemas da vida. Para Andrew Clark, um dos autores desse estudo europeu e professor da Escola de Economia de Paris, as religiões ajudam as pessoas a superar choques ou a pelo menos não se desesperar tanto com os tropeços da vida.
Outra pesquisa, feita pela Universidade de Michigan, EUA, comparou duas formas de amparo recebidas por idosos: o oferecido pelas igrejas e o proporcionado por serviços sociais estatais. A discrepância a favor do suporte religioso foi tão significativa que o autor do estudo, o gerontologista Neal Krause, acredita haver algo de único nesse tipo de apoio.
Até mesmo os ateus são beneficiados pelo espírito solidário oferecido pelas instituições religiosas. Um estudo feito por Clark investigou o efeito da religiosidade dos outros sobre o bem-estar de uma comunidade. A descoberta foi intrigante. As pessoas sem religião de regiões de maioria ateia são menos felizes do que aquelas sem religião de áreas onde a maior parte da população professa uma fé.
"Isso não é nada bom para os ateus: eles parecem menos felizes e também fazem os outros menos felizes", concluiu Clark. A explicação para isso pode estar na compaixão incentivada pelas religiões. A escritora e ex-freira inglesa Karen Armstrong, autora de mais de 20 livros sobre o tema, acredita que o princípio da compaixão está no centro de todas as tradições religiosas. É ela que nos leva a pensar no próximo e a fazer de tudo para aliviar o sofrimento e as angústias dele.
Antônio Gilberto Lehnen, 78 anos de catolicismo ativo, sentiu os efeitos dessa rede de apoio após enfrentar duas cirurgias que quase lhe custaram a vida. Aos 67 anos, ele teve de passar por um transplante cardíaco. Na lista de espera por um novo coração, sem saber ao certo se aguentaria, sua atitude era de gratidão.
"Lembro de ele me dizer, com toda a tranquilidade: 'Planeja tudo aqui que o papai do céu está cuidando de mim'. Era uma atitude confiante", lembra o cirurgião Fernando Lucchese, que fez a operação. Antônio é grato até hoje. "Não sei quem foi o doador, mas não deixo nem um dia de rezar por ele e pela felicidade da sua família", diz.
O que é a fé
Na Antiguidade, as religiões eram essenciais para unir uma comunidade. "Nas sociedades primitivas, a religião sempre exigiu tanto esforço (de união) que não pode ser encarada só como um acidente evolutivo", diz Nicholas Wade, autor de The Faith Instinct ("O instinto da fé", sem edição no Brasil). Essa união foi questão de sobrevivência por milênios. É o que afirma Karen Armstrong em Os 12 Passos para uma Vida de Compaixão.
Organizado em pequenos grupos, o homem primitivo precisava partilhar os parcos recursos a mão. Muito antes do surgimento das grandes religiões, altruísmo e generosidade já eram características primordiais a um bom líder tribal.
A genética também ajuda a explicar a origem da fé. O geneticista americano Dean Hamer causou rebuliço no meio científico em 2004 ao anunciar a descoberta dos genes da fé - ou, como ele preferiu chamar, o gene de Deus. Batizado de VMAT2, trata-se de um conjunto de genes que ativam substâncias químicas que dão significado às nossas experiências. Eles atuam no cérebro regulando a ação dos neurotransmissores dopamina, ligada ao humor, e serotonina, relacionada ao prazer.
Durante a meditação, por exemplo, esses neurotransmissores alteram o estado de consciência. "Somos programados geneticamente para ter experiências místicas. Elas levam as pessoas para algo novo, ouvem Deus falar com elas", explica Hamer. O pesquisador aplicou um questionário para medir o grau de espiritualidade em um grupo de 1.001 voluntários.
Desenvolvido pelo psiquiatra Robert Cloninger, da Universidade de Washington, o levantamento trazia perguntas ligadas a crenças e rituais. Hamer avaliou os genes dos voluntários e percebeu que as diferenças nas respostas estavam relacionadas com as variações no gene de Deus.
Essas variações explicariam por que algumas pessoas são mais espiritualizadas que outras.
Dá para visualizar isso, literalmente. Exames de neuroimagem mostram a atividade de crenças espirituais no cérebro. O time de cientistas liderado por Andrew Newberg, professor da Universidade da Pensilvânia, nos EUA, e autor do livro How God Changes Your Brain ("como Deus muda o seu cérebro", sem edição no Brasil), demonstrou que Deus é parte da nossa consciência: quanto mais pensamos nele, mais nossos circuitos neurais são alterados.
No primeiro de seus estudos a respeito, Newberg avaliou o impacto da fé ao analisar imagens cerebrais de freiras rezando e budistas meditando. Ele detectou aumento de atividade em áreas relacionadas às emoções e ao comportamento e redução na zona que dá senso de quem somos.
A diminuição de trabalho nessa região específica, segundo Newberg, representa a possibilidade de atingir com a meditação um estado em que se perde a noção de individualidade, espaço e tempo. "Você se torna um único ser com Deus ou com o Universo", escreveu. É o mesmo efeito descrito por Hamer. A ciência não pode provar que Deus existe, mas consegue medir os efeitos da crença no divino nas pessoas.
Seria possível, então, transformar esses efeitos da fé em um botão no cérebro, que poderíamos ativar quando quiséssemos? O canadense Michael Persinger quis provar que sim ao criar o "capacete de Deus". Trata-se de um aparelho que estimula uma área específica do cérebro, onde nascem pensamentos místicos e espirituais. Persinger queria saber se dava para simular a sensação de uma prece intensa ou da meditação apenas estimulando essa região cerebral.
Ele recrutou voluntários religiosos e não religiosos para o teste. Depois de ficarem uma hora com o capacete, quatro de cada cinco pacientes relataram sentir um estado de transe, com uma sensação de deslocamento para fora do corpo. A maioria dessas pessoas tinha uma predisposição à fé, mas, mesmo assim, o aparelho conseguiu simular experiências religiosas em laboratório.
Como trabalhar sua fé
Que fique claro, fé e religião são coisas diferentes. A religião é uma maneira institucionalizada para se praticar a fé, por meio de regras específicas e dogmas. Já a fé é algo pessoal, ligado à espiritualidade, à busca para compreender as respostas a grandes questões sobre a vida, o Universo e tudo mais.
Isso pode ou não levar a rituais religiosos. Você pode buscar essas respostas pulando sete ondinhas, acendendo velas, consultando o horóscopo da Susan Miller, pregando faixas de Santo Expedito ou investigando quilos de livros de física quântica. Cada um tem seu jeito próprio.
Cientistas garantem que basta ter uma forte crença em algo - e nem precisa ser uma divindade ou força superior. Pode ser qualquer coisa realmente importante para a pessoa. "Se para os crentes é Deus, para os ateus pode ser família ou amigos", diz Michael Shermer, diretor da Sociedade Cética e autor do livro The Believing Brain ("o cérebro crente", sem edição no Brasil). "Teoricamente, um ateu pode ter uma poderosa experiência mística", endossa Andrew Newberg.
O pai do gene de Deus, Dean Hamer, segue a mesma linha. "Algumas das pessoas mais espiritualizadas que conheço não acreditam em divindade nenhuma", escreveu no trabalho em que relatou a descoberta genética. Outra grande autoridade no assunto, o psicólogo Kenneth Pargament, do Instituto de Espiritualidade e Saúde do Centro Médico do Texas, sugere cultivar a espiritualidade exercitando o que ele chama de santificação ateísta.
Significa dar a algo importante da vida um status sagrado, mesmo sem acreditar em Deus. A foto do seu filho quando bebê pode ser muito mais sagrada para você que a imagem de Santo Antônio, por exemplo.
Não se trata de banalizar a sacralização, mas o contrário: exercitar a fé dessa forma é uma postura antibanalização da vida, qualquer aspecto pode assumir um caráter divino. E esse hábito de sacralizar aspectos do cotidiano é capaz até de alterar nosso comportamento, segundo uma pesquisa que acompanhou recém-casados. Os casais que consideravam o casamento e o sexo sagrados estavam mais felizes - e transavam mais!
No trabalho é a mesma história. Outro estudo, realizado no ano passado, avaliou 200 mães de família que haviam acabado de concluir uma pós-graduação. Apesar da dupla jornada, aquelas que encaravam a carreira como parte de algo maior (e não só a fonte de renda para pagar as contas do mês) se disseram muito mais felizes profissionalmente - e menos cansadas.
Em tese, portanto, é possível usufruir de benefícios semelhantes aos proporcionados pelas crenças divinas apenas focando as energias naquilo que faz bem a você. O psicólogo Elisha Goldstein, autor do best-seller The Now Effect ("o efeito 'agora'", sem edição no Brasil), desenvolveu um método que consiste em cultivar momentos sagrados.
Primeiro, você escolhe objetos que trazem boas lembranças. Valem fotos de infância, o relógio do avô, uma carta de amor, o primeiro gibi. Todos os dias, preste atenção a esse amuleto por no mínimo cinco minutos. Deixe que os pensamentos invadam sua mente. Relaxe. Após três semanas, avalie suas emoções.
Segundo Goldstein, os voluntários que participaram do experimento relataram sentimentos de gratidão, humildade e empatia. Isso porque eles se reconectaram àquilo que realmente importa. Consequentemente, se sentiram menos ansiosos e pessimistas e mais dispostos a ajudar quem precisa. Isso sem ter de orar ou meditar seguindo preceitos religiosos.
Esses benefícios dependem da intensidade da crença. Newberg resolveu passar isso a limpo e pediu a um grupo de ateus que pensassem em Deus. Nenhuma mudança significativa ocorreu. Para eles, não fazia o menor sentido. Então, o melhor é se engajar em atividades em que você realmente acredita.
Se seu negócio não é integrar uma igreja, o psicólogo Michael McCullough lembra que algumas ONGs têm regras de conduta e convivência semelhantes, reproduzindo os mesmos mecanismos das religiões que incentivam compaixão, autocontrole, senso de comunidade e comportamento ético.
Da mesma forma que é possível ter os benefícios da fé mesmo sem religião, há ocasiões em que ela faz mal - e nem precisamos entrar no mérito das guerras religiosas.
Atribuir a Deus poderes milagrosos pode levar pacientes a abandonar tratamentos. Há também um outro componente preocupante. Em algumas pessoas, ocorre o que os especialistas chamam de conflito religioso, sentimento que leva a acreditar que a doença ou os sofrimentos são punição divina. Nesses casos, a religião tem um efeito desastroso. Um estudo publicado na revista científica americana Archives of Internal Medicine mostrou que esse conflito está associado a depressão, ansiedade e maior índice de mortalidade. Se fosse bom, fé cega não teria esse nome. Isso é fanatismo religioso!
A Fé que Faz Bem à Saúde
A capacidade inata de procurar a explicação de um fenômeno é uma das diferenças entre o ser humano e outros animais. O homem primitivo não tinha como entender eventos mais complexos, como a erupção de um vulcão, um eclipse ou um raio. A busca de explicações sobrenaturais pode ser considerada natural. Mas por que ela desembocou na fé e no surgimento das religiões?
Com sua intuição genial, Charles Darwin, criador da teoria da evolução há 150 anos, já havia registrado ideia semelhante no livro A descendência do homem, em 1871: “Uma crença em agentes espirituais onipresentes parece ser universal”. “Somos predispostos biologicamente a ter crenças, entre elas a religiosa", diz Jordan Grafman, chefe do departamento de neurociência cognitiva do Instituto Nacional de Distúrbios Neurológicos e Derrame. Grafman é o autor de uma das pesquisas mais recentes sobre o tema, publicada na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences.
Em seu estudo, Grafman analisou o cérebro de 40 pessoas — religiosas e não religiosas — enquanto liam frases que confirmavam ou confrontavam a crença em Deus. Usando imagens de ressonância magnética funcional — que mede a oxigenação do cérebro —, o neurocientista descobriu que as partes ativadas durante a leitura de frases relacionadas à fé eram quase as mesmas usadas para entender as emoções e as intenções de outras pessoas.
Isso quer dizer, segundo Grafman, que a capacidade de crer em um ser ou ordem superior possivelmente surgiu ao mesmo tempo que a habilidade de prever o comportamento de outra pessoa — fundamental para a sobrevivência da espécie e a formação da sociedade. E para estabelecer relações de causa e efeito. A interferência de um ser muito poderoso seria uma explicação eficiente para aplacar a necessidade de entender o que não se consegue explicar com o conhecimento comum.
Em uma das experiências, pesquisadores mostraram uma caixa de biscoitos às crianças e perguntaram a elas o que havia dentro. Como não são bobas, as crianças responderam: “Biscoitos”. Ao abrir a caixa, o que encontravam eram pedras. Então, os cientistas perguntaram às mesmas crianças o que suas mães achariam que havia dentro da lata e o que Deus diria se visse a lata. As crianças de 3 anos disseram que as mães, assim como Deus, diriam que havia pedras. A partir dos 5 anos, elas responderam que a mãe diria “biscoitos”, mas que Deus responderia “pedras”.
A maioria dos estudos científicos recentes — sejam eles baseados em imagens do cérebro ou no comportamento humano — afasta a hipótese de que a experiência religiosa seja o mero efeito de estímulos eletromagnéticos em uma parte específica do cérebro.
Newberg, que estuda as manifestações cerebrais da fé há pelo menos 15 anos, descobriu que as práticas religiosas acionam, entre outras regiões do cérebro, os lobos frontais, responsáveis pela capacidade de concentração, e os parietais, que nos dão a consciência de nós mesmos e do mundo.
Em seu novo livro, How God changes the brain (“Como Deus muda seu cérebro”), Newberg explora os efeitos da fé sobre o cérebro e a vida das pessoas. Segundo o neurocientista, os estudos anteriores olhavam para os efeitos de curto prazo de práticas como a meditação e a oração. Agora, ele e seu grupo encararam a difícil tarefa de responder à questão: o que acontecerá se você adotar, com frequência, uma prática como a meditação ou a prece?
O grupo de Newberg analisou o cérebro de pessoas que meditam e oram rotineiramente e notou os resultados dessas práticas para o cérebro e para as pessoas. No livro, ele lista nove técnicas de meditação que podem ser adotadas por crentes ou ateus. Numa delas, a pessoa se concentra em um tipo de diálogo interno. “Descobrimos que essa prática ajuda as pessoas a criar intimidade, a interagir com as outras e a se comunicar com quem elas conhecem ou não", diz Newberg.
Ainda estão sendo feitos estudos para compreender melhor a meditação e a prece, mas a pesquisa de Newberg mostra que, durante essas atividades, o lobo frontal fica mais ativo, e o lobo parietal menos. Como essa parte do cérebro é responsável pela noção de tempo e espaço, “desligá-la” geraria a sensação de imersão no mundo e a de ausência de passado e futuro muitas vezes relatadas por religiosos.
A maior atividade do lobo frontal, além de melhorar a memória, segundo vários estudos também estaria ligada à diminuição da ansiedade. “Quando a pessoa volta sua atenção para o momento presente, não há riscos porque não há futuro’ diz Paulo de Tarso Lima, médico especializado em medicina integrativa e complementar e responsável pela implantação da especialidade dentro do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. O simples fato de acreditar em um ser superior — seja ele qual for — reduziria a ansiedade.
Dois estudos canadenses publicados neste mês mostram que quem crê em Deus tende a lidar melhor com os erros, O grupo de pesquisa, liderado pelo professor de psicologia, Michael Inzlicht, da Universidade de Toronto, pediu a pessoas de várias orientações religiosas e também àquelas que não creem em Deus que elas dissessem os nomes das cores que apareciam a sua frente. Quando elas cometiam um erro, uma área do cérebro chamada “córtex cingulado anterior” era ativada.
“Quanto mais forte a religiosidade e a crença em Deus dos participantes, menor era a resposta dessa região ao erro", diz Inzlicht. Isso seria uma evidência de que as pessoas religiosas ficam mais calmas diante de um erro. “Suspeitamos que a crença religiosa protege contra a ansiedade porque dá um sentido para as pessoas. Ajuda-as a saber como agir e, com isso, reduz a incerteza e o estresse’ afirma Inzlicht.
A influência da crença em Deus na redução do estresse já é quase um consenso entre os médicos. “As doenças relacionadas ao estresse, especialmente as cardiovasculares, como a hipertensão, o infarto do miocárdio e o derrame, parecem ser as que mais se beneficiam dos efeitos de uma espiritualidade bem desenvolvida", afirma Marcelo Saad, outro médico do Albert Einstein.
Para ser benéfica, a fé em Deus teria de ser associada à prática religiosa? Várias pesquisas mostram que participar de um grupo religioso estruturado — seja ele católico, budista, judeu, evangélico, traz benefícios por aumentar o suporte social à pessoa. “Esse apoio social é algo extremamente valioso para a saúde física, inclusive para a sobrevivência e a longevidade', diz o psicólogo americano Michael McCullough, professor da Universidade de Miami que estuda a maneira como a religião molda a personalidade e influencia hábitos saudáveis e relacionamentos sociais.
Robert Hummer, sociólogo e professor da Universidade do Texas, acompanha um grupo de pessoas desde 1992 para tentar esclarecer, entre outras questões, a relação entre a religião e a saúde. Segundo sua pesquisa, quem nunca praticou uma religião tem um risco duas vezes maior de morrer nos próximos oito anos do que alguém que a pratica uma vez por semana.
“Não tem sentido negar a influência da religião na vida das pessoas, especialmente no Brasil, onde 99% da população acredita em Deus”, afirma o médico Paulo de Tarso Lima, que classifica como um desserviço não acolher esse elemento nos consultórios e nos hospitais. Isso significa que todos devem adotar a fé em nome da saúde, assim como se pratica esporte ou se faz dieta? Para quem crê, talvez a resposta seja sim.
Como o cérebro reage à meditação e à oração
O neurocientista Andrew Newberg usou uma técnica especial de tomografia em pessoas orando e meditando para avaliar a atividade cerebral.
Oração - durante a prece, o lobo frontal do cérebro, área relacionada à atenção, fica mais ativo. O lobo parietal fica menos ativo, diminuindo a noção de tempo e espaço. Efeitos semelhantes foram observados durante a meditação.
Meditação - meditar também exige focar o pensamento, o que, por tornar mais ativo o lobo frontal, acaba melhorando a memória. Assim como a prece, a meditação pode trazer uma sensação de estar alheio ao mundo externo, o que diminui a ansiedade.
Para isso pesquisas com neuroimagem procuram desvendar quais áreas do cérebro ficam mais ativadas quando pessoas idosas relembram momentos de muita religiosidade que vivenciaram durante a vida, quando vivenciaram sensações místicas e também quando estão orando ou meditando. Para isso uma nova disciplina a “neuroteologia” surge com objetivo de aprofundar esse assunto.
Sabemos que essas experiências ou sensações místicas, estados de espiritualidade e meditação profunda sempre foram relatadas desde os primórdios da humanidade em todas as sociedades e culturas, mas estudar a base neural da experiência religiosa é algo novo. Assim, cientistas questionam se o sentimento religioso pode ser processado em alguma região específica do cérebro.
Segundo o pesquisador Persinger da Universidade Laurentian – Ontário no Canadá, a noção popular de que tais vivências são boas é uma consequência natural do condicionamento psicológico, uma vez que alguns rituais religiosos são ligados a experiências agradáveis. Por exemplo, rezar antes de realizar uma tarefa importante (uma competição uma prova) pode trazer tranquilidade e diminuir a ansiedade em relação ao desempenho.
Mas nem todas as pesquisas sobre este assunto possuem o mesmo procedimento metodológico e as mesmas perguntas. Algumas surgem do fato de se seguir uma tradição religiosa específica, como investigar a calma que os católicos sentem quando rezam. Outros estudos procuram investigar a percepção que o sujeito tem do contato com o divino e outras pesquisas se referem aos estados místicos. Dessa forma, é possível que apareçam resultados diferenciados sobre os sentimentos religiosos, isto é que eles possam surgir em áreas distintas do cérebro e também devido às diferenças individuais. 
Os pesquisadores apontaram para o envolvimento de outras áreas cerebrais fora a do lobo temporal, a área especializada da linguagem. Descreveram uma grande queda da atividade da parte anterior e superior do lobo parietal durante o transe meditativo dos budistas que já praticavam a meditação há alguns anos. Também encontraram um aumento da atividade no córtex pré-frontal direito. 
O córtex pré-frontal é responsável pela atenção e planejamento de tarefas cognitivas e seu recrutamento no pico da meditação pode refletir o fato de que tal contemplação exige que a pessoa se concentre intensamente num pensamento ou objeto. Outros pesquisadores também encontraram os mesmos resultados com pesquisas com budistas.
O córtex pré-frontal esquerdo foi o mais ativado, refletindo a capacidade de experientes praticantes de meditação se concentrarem. Os voluntários mais experientes apresentaram níveis mais baixos de ativação.
Estudos realizados na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, confirmam que a oração muda a estrutura do cérebro.
1.       Influência o estado da mente e contribui para reduzir os efeitos que o stress tem em vários órgãos do corpo humano. Reduz o stress mental, físico e emocional.
2.       Reduz a chance de sofrer com depressão e ansiedade. Se orarmos na igreja aumenta a probabilidade de sermos positivos e menos depressivos. (Estudo publicado na Inglaterra - British Journal of Health Psychology).
3.       Influência extremamente positiva para saber lidar com ataques de nervosismo; dá tempo para a pessoa ter algum tempo para ela mesma e focalizar-se em si mesma, reduzindo assim o stress mental.
4.       Afasta desordens relacionadas com o stress: doenças crónicas do coração, diabetes, hipertensão, úlceras e dores de cabeça constantes e até mesmo alguns tipos de cancro.
5.       Torna a pessoa mais feliz (ao aumentar o nível de dopamina). (Universidade da Pensilvânia)
6.       Afeta a área do cérebro associada com a emoção reduzindo o ego da pessoa e consequentemente torna a pessoa mais humilde, menos gananciosa pelas coisas materiais, tornando-a uma melhor pessoa.
7.       Reduz o tempo de recuperação após uma intervenção cirúrgica. Ajuda na rapidez da cura de cicatrizes cirúrgicas. Isto porque se o corpo estiver fora de balanço e stress, focaliza-se em encontrar o equilíbrio e assim tem menos recursos para a cura.
8.       Coloca as doenças à distância ao aumenta a imunidade.
9.       Está confirmado que a oração tem muitos benefícios para o funcionamento do coração. É reconhecido que aumenta a rapidez na recuperação depois dum ataque cardíaco ou cirurgia. Para além disso ajuda a regular as batidas do coração, fazendo-o mais forte e menos estressado.
10.   Ajuda a viver uma vida mais longa. Pois como resultado de todos os benefícios que já vimos leva-nos a viver melhor e mais.

Oremos pois mais e melhor. Para além de todas estas constatações cientificas temos o poder da fé.

7/25/2015

Cães: Melhores amigos, melhores terapeutas

Cristal uma cadela da raça Cão de Crista Chinês veio para mim no dia 7 de setembro de 2012.  Era  muito pequena apesar de já ter 9 meses. Tímida, assustada, fugia de todos e se escondia pela casa. Aos poucos fui conquistando sua confiança, com muito cuidado, mas já com muito carinho e amor... 

leia mais no link abaixo.

Esse é um depoimento real, triste, mas que mostra a importância do amor de um cão e o quanto pode ser benéfico para a saúde emocional e física de quem os possui e ama.

Para ler o texto todo acesse o link abaixo:

7/24/2015

Fé não é fanatismo, cuidado com os exageros

Fanatismo é o estado psicológico de fervor excessivo, irracional e persistente por qualquer coisa ou tema, historicamente associado a motivações de natureza religiosa ou política. É extremamente frequente em paranoides, cuja apaixonada adesão a uma causa pode avizinhar-se do delírio.

Em Psicologia, os fanáticos são descritos como indivíduos dotados das seguintes características:

1. Agressividade excessiva;
2. Preconceitos variados;
3. Estreiteza mental;
4. Extrema credulidade quanto a um determinado "sistema"
5. Ódio;
6. Sistema subjetivo de valores;
7. Intenso individualismo;
8. Demora excessivamente prolongada em determinada situação/circunstância.

Faz-se preciso que a conduta da pessoa seja marcada pelo radicalismo e por absoluta intolerância para com todos os que não compartilhem suas predileções.

De um modo geral, o fanático tem uma visão-de-mundo maniqueísta, cultivando a dicotomia bem/mal, onde o mal reside naquilo e naqueles que contrariam seu modo de pensar, levando-o a adotar condutas irracionais e agressivas que podem, inclusive, chegar a extremos perigosos, como o recurso à violência para impor seu ponto de vista.

Uma pessoa pode ser fanática por amar exageradamente outra pessoa, objeto, time de futebol, etc., o erro mais comum das pessoas é o de designar fanatismo como sendo algo exclusivamente religioso e político. Muitas polêmicas surgem acerca desse tema, tendo em vista que pode gerar situações incômodas. Na maioria das vezes o fanatismo pode fazer com que uma pessoa cometa atos insanos em nome de um ideal, de um amor, ou algo do gênero.

As pessoas devem manter-se alertas, pois o fanatismo não se restringe à classe social, cor ou credulidade, todo mundo está sujeito a esse sentimento, é importante ter consciência de que tudo deve ser moderado, tudo em excesso não faz bem.

O Brasil virou o país do fanatismo?

Seja na mesa do bar, nas redes sociais ou na sala de casa, os brasileiros estão cada vez mais rachados por causa de sua adesão cega em assuntos como esporte, religião, consumo e, principalmente, política. Entenda por que as pessoas deixaram de debater ideias, como a ciência explica esse fenômeno e como essas rixas podem ser ruins para o Brasil

As eleições presidenciais acabaram em outubro, com a legítima eleição da presidente Dilma Rousseff.

Desde o começo do ano, à medida que cada vez mais pessoas aprenderam a escrever “impeachment”, a reação dos partidários de ambos os lados ganhou contornos ainda mais radicais. Em meados de março, duas manifestações tomaram conta das ruas das principais cidades brasileiras: uma a favor do governo, e a outra, maior em número, contra. 

Os protestos não registraram confusões, mas foram palco de cenas preocupantes: faixas com a suástica nazista pedindo a volta da ditadura militar em plena avenida Paulista, pessoas hostilizando jornalistas ideologicamente contrários ao movimento e acusações de golpismo para quem é contra o governo.

Durante os pronunciamentos da presidente e de dois de seus ministros na televisão, milhares de pessoas saíram na janela de casa para promover um panelaço – o barulho foi tão alto que abafou qualquer possibilidade de ao menos tentar ouvir o que diziam. Nada contra manifestações, é claro. O problema é que, ao ignorar opiniões contrárias, as pessoas tendem a aderir cegamente a uma posição, doutrina ou sistema e a caminhar numa direção perigosa: a do fanatismo.

Há alguns anos a ciência tenta explicar por que, afinal, é tão fácil alinhar-se a um conjunto de pessoas que encontrou um Judas particular e culpá-lo por todo o ­caos do universo. Uma prova disso é o paradigma dos grupos mínimos, elaborado nos anos 1970 pelo psicólogo Henri Tajfel, da Universidade de Bristol, na Inglaterra. 

Ao serem aleatoriamente agrupados de acordo com critérios irrelevantes, como o pintor favorito, os participantes do experimento criaram forte ligação entre aqueles que dividiam a mesma turma, exaltando suas qualidades e hostilizando os rivais. Ao final do experimento, formou-se o “nós contra eles” – será que alguém aí ouviu algo parecido com isso no que ficou convencionado chamar de protestos de março?

Ainda no século 19, o pensador francês Gustave le Bon já havia atentado para o comportamento bizarro das pessoas ao se unirem em grupos, formando uma espécie de mentalidade única irracional – ou o que o escritor Nelson Rodrigues chamaria de “unanimidade burra”. Na obra Psicologia das multidões (WMF Martins Fontes), de 1895, Le Bon escreveu: “Nas grandes multidões, acumula-se a estupidez, em vez da inteligência. 

Na mentalidade coletiva, as aptidões intelectuais dos indivíduos e, consequentemente, suas personalidades se enfraquecem”. É como se, ao se unir aos seus pares, as pessoas deixassem de usar a razão e passassem a deixar a emoção tomar conta, tornando-se presas fáceis de manipuladores. Segundo o historiador Jaime Pinsky, autor do livro Faces do fanatismo (Contexto), o grande perigo das devoções extremas é a convicção inabalável. “A certeza da verdade do fanático não é resultante de uma reflexão ou de uma dedução intelectual”, diz o escritor.

A isso se junta o experimento do psicólogo Philip Zimbardo, da Universidade Stanford. Há mais de 40 anos, ele resolveu simular o comportamento dentro de uma prisão, atribuindo aleatoriamente o papel de “guardas” e “prisioneiros” a estudantes. No entanto, o que deveria seguir por duas semanas durou apenas seis dias. 

Ninguém ali era Meryl Streep, mas os participantes do estudo interpretaram tão bem seus papéis que os “guardas” se revelaram verdadeiros sádicos, humilhando e causando traumas entre os “prisioneiros”. “Em grupo somos capazes de realizar ações que individualmente não seríamos”, diz Ligia Mendonça, participante do convênio do laboratório de psicopatologia clínica e psicanálise da Universidade de Toulouse.

Além de inspirar o filme The Stanford Prison Experiment (“O experimento da prisão de Stanford”, em tradução livre), lançado em janeiro nos Estados Unidos, o estudo de Zimbardo também ajudou na formulação da teoria da identidade social, dos psicólogos John Turner e Henri Tajfel – o mesmo dos grupos mínimos. 

Segundo a ideia, quanto mais inserido em um conjunto, mais o participante acata seus valores. “Quando uma pessoa pertence convictamente a um grupo, ela adquire uma identidade social: valores, objetivos, memórias etc. Essa identidade contrapõe o participante aos que não fazem parte do seu grupo”, diz o psicólogo Geraldo José de Paiva, da Universidade de São Paulo.

Seja um cicloativista que vê um inimigo em qualquer objeto de quatro rodas, um extremista religioso que não concorda com a linha editorial de um jornal francês e mata os responsáveis, um torcedor de um time que não consegue conviver com alguém vestindo a camisa do time adversário ou um fã da Apple que olha com desdém para qualquer aparelho Android, a não aceitação de ideias diferentes e a cegueira causada pela crença absoluta em “verdades reveladas” ainda insistem em aparecer nas mais diferentes esferas da sociedade, ameaçando a liberdade e o conceito básico de democracia.

Como explicar que a nação de Johann Wolfgang Goethe, Ludwig van Beethoven e Albert Einstein também tenha se tornado o local onde se realizou uma das maiores atrocidades da história? Para especialistas, o fenômeno nazista na Alemanha vai além da ideia de um aparente surto psicótico coletivo. 

“Um líder carismático como Hitler, que promete felicidade a qualquer preço, passa a ser uma figura sedutora para uma massa desacreditada que vive o desemprego, a fome e a escassez de alimentos”, afirma Ana Maria Dietrich, professora do programa de pós-graduação da Universidade Federal do ABC. “Em momentos de crise, tende-se a eleger um líder e também a escolher bodes expiatórios. ”

Quando Hitler chegou ao poder, em 1933, a Alemanha passava por um momento de instabilidade política e eco­nômica: as lembranças da derrota na Primeira Guerra Mundial ainda eram muito recentes e se refletiam em diferentes problemas, como desemprego, inflação e fragilidade do sistema político. 

A ascensão de um líder capaz de resgatar o sentimento de orgulho alemão e conclamar a revanche pelas humilhações sofridas no conflito mundial teve alta aceitação entre as massas. Só faltava encontrar um inimigo comum e responsabilizá-lo. Spoiler para quem não viveu na Terra nos últimos 80 anos: os judeus foram os escolhidos, assim como outras minorias, como negros e homossexuais.

"Vemos o ser humano que já perdeu todos os laços de solidariedade. Isolado e sem consciência de classe ou de família, ele se torna um número na massa e é capaz de perpetrar as maiores atrocidades como quem carimba um papel"

Para dar conta das aspirações nazistas, criou-se uma verdadeira indústria da morte, comandada por homens como Adolf Eichmann, que foi capturado em Buenos Aires em 1960. No livro Eichmann em Jerusalém (Companhia das Letras), a filósofa política Hannah Arendt conta a história do julgamento do oficial, e o descreve não como um “maníaco assassino”, mas como um burocrata a serviço do partido, que tinha obrigação de obedecer ordens. Quem disser que este é o conceito do termo “banalidade do mal”, cunhado pela autora, ganha pontos no vestibular da vida.

“Vemos o ser humano que já perdeu todos os laços de solidariedade. Isolado e sem consciência de classe ou de família, ele se torna um número na massa e é capaz de perpetrar as maiores atrocidades como quem carimba um papel”, afirma Ana Maria Dietrich. O extremismo político não respeita as contradições do jogo democrático e rejeita a ideia de saber lidar com o outro. “No caso do nazismo, a lei de que só o líder tinha razão e os judeus eram os culpados de todas as mazelas fazia que as reflexões sobre os problemas perdessem o sentido”, completa.

Apesar de parecerem historicamente distantes, algumas das premissas totalitárias do episódio ainda não foram completamente resolvidas pela sociedade. “O argumento racional faz parte do gênero humano, e o debate entre ideias diferentes é importante para que as coisas se esclareçam”, diz Jaime Pinsky. “Mas o limiar disso está na racionalidade: quando passa a ter dogmas, você extrapola a racionalidade e se torna um fanático. ” Qualquer semelhança com o extremismo de discursos entre “coxinhas” e “petralhas” observado nos últimos meses não é mera coincidência.

O racha entre militantes do PT e do PSDB teve início antes mesmo das eleições do ano passado, marcadas por discussões intermináveis nas redes sociais, com o fim até de certas amizades. Este ano, essas discussões entre pessoas pró e contra o governo ganharam um novo palco: as ruas.

No dia 15 de março, manifestações tomaram conta de 153 cidades do Brasil. Independentemente do lado, o que se vê em alguns casos é o ódio to­mar o lugar do debate: como se gritar “Dilma vagabunda” ou desqualificar uma manifestação por causa da classe social de quem participa fosse argumento. O discurso de conciliação não funciona na política porque é exata­mente ela que coloca as contradições à mostra. Para ele, a “rachadura” do Brasil sempre existiu, com a ajuda da concentração de renda, da disparidade regional e de preconceitos. “Essa polaridade apenas permitiu que a divisão se expressasse”, escreveu ele.

A psicologia ajuda a entender por que grupos como o Estado Islâmico, o Boko Haram e a Al-Qaeda são tão implacáveis com aqueles que consideram infiéis. Ao coordenar as primeiras pesquisas com homens-bomba frustrados (que não explodiram por problemas técnicos ou por terem sido pegos pela polícia), o psicólogo Ariel Merari, da Universidade de Tel-Aviv, constatou que os principais fatores que motivavam os terroristas a tirar o pino de uma granada não eram a religião nem o desejo de vingança, mas sim a vontade de ser admirado pelo grupo, compensando sua falta de habilidade social. Ou seja, corresponder às expectativas do meio é um fator mais dominante que a ideologia. “Eles eram jovens fracos e dependentes, não o tipo de pessoa ideológica”.

Para a tristeza dos conservadores, o islamismo não detém o monopólio do fundamentalismo religioso. Em maior ou menor grau, grande parte das religiões já ultrapassou a linha do extremismo. O conceito do fundamentalismo tem início no século 20, quando a American Bible League lançou em 12 volumes a obra The Fundamentals: a Testimony to the Truth (“Os pontos fundamentais: um testemunho para a fé”, em tradução livre). A ideia era defender os cristãos das ameaças do liberalismo e do modernismo, que iam de encontro a suas convicções. 

“O fundamentalismo se baseia numa visão dualista, segundo a qual tudo o que não está de acordo com o que o grupo defende é considerado mau. Não entram mais em jogo nem a reflexão nem a tolerância, mas somente a afirmação categórica de certos princípios”, explica ela.

Vale lembrar que o fanatismo religioso já despertava o interesse de filósofos, como o inglês John Locke, no século 17, quando a reforma luterana esquentou o clima na Europa. Para Locke – ele próprio um religioso –, ao povo era necessário dar assistência moral, e não dogmas teológicos. Ele acreditava que representantes de religiões diferentes pudessem conviver em paz, e que garantir o respeito entre opiniões divergentes ficaria a cargo do Estado. Mas, para o filósofo, até a tolerância tinha limite. 

Por responder a um líder estrangeiro (o papa romano), os católicos, que já haviam usado os tribunais da Inquisição para queimar desafetos na fogueira, não deveriam ser contemplados com esse benefício, assim como os ateus. “Os que negam a existência de Deus não podem ser tolerados de modo algum”, afirmava ele.

Não é preciso viajar no tempo para observar a ironia teológica. Parte da militância ligada a religiões no Brasil atravanca a ampliação de direitos individuais e questões de saúde pública, como a união civil homossexual e o aborto. Não foi à toa que, no início de março, um vídeo que mostra fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus uniformizados como militares, marchando e gritando frases de efeito assustou muita gente. Por parecer, de fato, um exército, não faltaram comparações com os registros de Leni Riefenstahl da ascensão do regime fascista.

Não era para tanto. Segundo a Universal, a única atividade regular dos 4,3 mil jovens que compõem o projeto Guardiões do Altar é assistir a aulas que “estimulam o debate e a reflexão sobre aspectos do texto bíblico e do trabalho missionário”. Procurada, a Universal enviou um texto disponível no seu site e respondeu às perguntas solicitadas por e-mail com a pérola: “Se restarem dúvidas sobre o acima explicado [no texto], ficará claro que a pergunta não tem sentido”.

“Eles acham que vocês são uma ameaça”, afirma Fábio Marton, autor de Ímpio: o evangelho de um ateu (Leya). Criado em um ambiente religioso, o jornalista foi pastor mirim e ajudou a exorcizar a própria mãe quando fazia parte de uma igreja pentecostal conhecida como Igreja Evangélica Exército Celestial. “Foram quatro anos de introspecção, até que notei uma coisa estranha em ser um robô de Cristo, uma autoaniquilação”, afirma. 

Para o psicólogo Ariel Merari, apesar de certos tipos de pessoas serem mais fáceis de influenciar do que outros, os mecanismos de convencimento usados por algumas igrejas são semelhantes aos utilizados por muçulmanos extremistas – o que muda é a influência cultural e social. “São processos psicológicos universais que resultam da pressão ou da vontade de ser apreciado pelo grupo. ”

Seguindo os conceitos de Le Bon, Murad destaca a ideia do sentimento de invisibilidade no meio das massas como causa da violência. “Quando vemos torcedores dizendo que vão morrer pelo seu time e quando agridem outro torcedor, vemos esse lado irracional”, diz ele. Já para Felipe Lopes, é preciso tomar cuidado ao afirmar que as manifestações violentas estão ligadas ao comportamento das massas. “Se a massa é potencialmente violenta e irracional, você legitima a repressão”, ele afirma. “Mas isso não quer dizer que a pessoa não aja de modo mais intenso quando está em grupo: é esse contágio que faz o futebol ser tão interessante de ver de dentro do estádio. ”

Proporcionais ao aumento do tamanho do iPhone são as filas de consumidores ávidos por adquirir as novidades da Apple. As aglomerações já são uma atração aguardada não só por consumidores, mas também por empreendedores do acaso, que chegam a cobrar R$ 400 por um lugar na fila. Já para viabilizar o dinheiro necessário, a China é a mais inovadora. Em 2012, um jovem chinês de 17 anos transformou em realidade uma metáfora ao vender um rim para comprar um iPhone e um iPad. É claro que a euforia pela marca não se deve somente a seu charme irresistível – o marketing eficiente também tem seus méritos.

A campanha de 2006 “I’m a Mac, I’m a PC” deixa evidente a diferença do perfil dos consumidores da companhia e aumenta o sentimento de pertencer a um grupo exclusivo. Nos anúncios, o usuário de Mac é retratado como um jovem descolado, enquanto os usuários de PC são burocratas engravatados. Num artigo para o site Live Science, Albert Muniz Jr., professor de marketing da Universidade DePaul, em Chicago, lembra que, nos anos 1980, os applemaníacos já buscavam se diferenciar. “Eles diziam que, naquela época, era evidente que o pessoal da IBM tinha um jeito: vestia terno e votava no presidente Reagan. Já o pessoal do Mac tinha outro: vestia jeans e não votava no Reagan. ”

Segundo Carlos Augusto Costa, diretor do laboratório de neuromarketing da FGV Projetos, 92% dos consumidores mudam de ideia na hora das compras. O desafio das marcas, portanto, é evitar que isso aconteça. Uma das formas mais tradicionais é a associação com os trend setters, pessoas que ditam tendências. Ao vermos alguém renomado ou um ídolo usando determinada marca de desodorante, por exemplo, tendemos a querer copiar a ação. 

Culpa dos neurônios espelhos, que fazem que nossa percepção visual inicie um tipo de simulação interna dos atos dos outros. “Voltando um pouco às propagandas da Johnson & Johnson, por exemplo, as mães podiam não ter bebês tão bonitos como aqueles, mas poderiam fazer seus filhos usarem fraldas iguais; o mesmo raciocínio serve para as propagandas de cuecas, e assim por diante”, explica Costa.

Isso funciona bem quando temos uma relação emocional acima da média com o produto. É por isso que para entender o sucesso de uma marca como a Apple é preciso conhecer os mecanismos da religião. Para Costa, as marcas que causam euforia têm símbolos fortes e pessoas inspiradoras que disseminam suas filosofias, como é o caso de Jesus Cristo na Igreja católica. “Nosso cérebro também gosta de uma novela. Como Buda, Maomé e Cristo, as marcas precisam criar envolvimento”, afirma ele. Nada que o messias Steve Jobs não tenha feito durante suas pregações.

A incapacidade de compreender opi­niões diferentes é uma ameaça à democracia, mas existe uma forma de combater isso? “A liberdade deve ser sempre a maior possível, mas isso significa colocar certos limites para garantir os direitos e a integridade de outros”, afirma Ricardo Bins di Napoli, professor de filosofia da Universidade Federal de Santa Maria e especialista em temas ligados à ética política. 

Para que isso seja possível, é necessário construir uma cultura de tolerância que passe por todos os elementos que compõem uma sociedade. “É a capacidade de se abster de intervir na opinião do outro, mesmo que se desaprove ou se tenha o poder para calá-la, cerceá-la ou até prendê-la”, diz o professor.

A aceitação de valores diferentes é um exercício de autocrítica. Ela cria as condições necessárias para construir um diálogo positivo para o desenvolvimento de uma sociedade sem rachaduras, na qual a palavra “respeito” não seja apenas uma estampa de camiseta. Afinal, qual seria a graça do futebol se o rival fosse extinto? 

Conflitos nos fazem questionar e evoluir. Antes de xingar a mãe dos desafetos, talvez seja melhor iniciar um diálogo capaz de conter o maior número possível de opiniões. E isso inclui adicionar novamente aquele amigo excluído do seu Facebook durante as eleições e os protestos de março. Mais amor e menos ódio, por favor.

A história mostra que barbaridades foram cometidas em nome de várias religiões e opções políticas

1099 - CERCO DE JERUSALÉM > Exércitos cristãos da Europa iniciaram a tomada de Jerusalém, que culminou com o massacre de muçulmanos, judeus e cristãos ortodoxos

1478 - INQUISIÇÃO ESPANHOLA > O Tribunal do Santo Ofício da Inquisição foi criado para combater muçulmanos que dominavam parte da Espanha. Milhares de pessoas de outras religiões foram mortas sob a supervisão da Igreja católica

1572 - NOITE DE SÃO BARTOLOMEU > organizados pela monarquia católica francesa, cristãos protestantes foram mortos durante a madrugada do dia 24 de agosto

1792 - TERROR JACOBINO > Mais de 17 mil opositores políticos foram guilhotinados por ordem do grupo jacobino que liderava a Revolução Francesa

1871 - O FIM DA COMUNA DE PARIS > Primeiro governo operário da história, a Comuna de Paris foi dissolvida após um massacre que resultou em prisão, tortura e morte de quase 100 mil trabalhadores

1936 - PROCESSOS DE MOSCOU > para manter a hegemonia no Partido Comunista da União Soviética, Josef Stálin inicia a perseguição e o fuzilamento de antigos camaradas contrários a suas decisões políticas

1938 - NOITE DOS CRISTAIS > O governo nazista instaura uma política de prisão, assassinato e destruição de propriedades de judeus, sob a coordenação das tropas de assalto do exército alemão

1965 - GOLPE DE ESTADO NA INDONÉSIA > Após a tomada do poder pelo general Suharto, o Partido Comunista da Indonésia foi extinto depois do massacre de quase meio milhão de militantes

1975 - O KHMER VERMELHO > O regime comunista liderado por Pol Pot obrigou os moradores das cidades do Camboja a migrar para o campo, fazendo cerca de 1,5 milhão de vítimas 

2001 - 11 DE SETEMBRO > A organização terrorista Al-Qaeda, alegando agir em nome da religião islâmica, realiza o maior atentado da história em solo norte-americano, causando a morte de 2996 pessoas

2014 - ESTADO ISLÂMICO > Grupo fundamentalista proclama a independência de regiões da Síria e do Iraque, as quais passariam a ser regidas por sua própria interpretação da lei sagrada islâmica

COMO CRIAR UM FANÁTICO

Muitos fatores levam as pessoas a cometer atos de intolerância, mas alguns fatores ajudam a compreendê-los

1. Ao separarmos o mundo em categorias como “cristão” ou “fã da Apple”, nos incluímos em grupos que correspondem a nossas necessidades
2. Em um coletivo, somos sugestionados a exaltar pontos que o beneficiam, ignorando as fragilidades e tudo o que vai contra suas ideias e criando assim um inimigo a ser combatido
3. Esse sentimento de conexão é aumentado pelo poder das narrativas. Nosso cérebro precisa de histórias, como a de Jesus Cristo, por exemplo, para criar relação emocional
4. Quando o grupo é uniforme, ele cria uma mentalidade coletiva, com os mesmos valores e objetivos. Sentir-se parte do grupo é o que psicólogos chamam de identidade social
5. Os que têm identidade social intensa abrem mão de outras referências, estreitando sua percepção e reforçando as emoções que os ligam ao grupo
6. Sob influência do meio (e, em muitos casos, de um líder carismático), multidões podem lutar por benefícios comuns, como direitos civis, ou por catástrofes, como a ascensão do nazismo
7. Com o devido incentivo, as pessoas são capazes de fazer em grupo coisas que não fariam sozinhas
A partir de análises de estímulos biológicos, o norte-americano John Hibbing, coordenador do Laboratório de Fisiologia Política da Universidade de Nebraska-Lincoln, afirma que nossas opções políticas nem sempre estão relacionadas a decisões racionais

Como essa pesquisa foi desenvolvida?

Medimos movimentos musculares, padrões cardiovasculares e estímulos cerebrais, correlacionando essas análises biológicas às opiniões de cada pessoa a respeito de um amplo número de temas políticos controversos. Indivíduos que apresentavam uma forte ativação na região cerebral da amígdala quando expostos a estímulos negativos ou nojentos tendiam a adotar posições políticas conservadoras, relacionadas a segurança e tradição.

Então é possível dizer que o cérebro pode determinar nossa visão política?

Não, “determinar” é um termo muito forte neste caso, mas os padrões de ativação cerebral estão relacionados a nossa orientação política. Temos certas predisposições inconscientes que se espreitam em nós, e geralmente elas ajudam a determinar preferências políticas particulares em temas sociais, como nossa opinião a respeito de imigração. 

Quando apresentávamos imagens desagradáveis, como casas pegando fogo, pessoas usando o banheiro ou um homem comendo minhocas, o estímulo na região da amígdala era maior em pessoas com opiniões conservadoras. Essas medições biológicas se corresponderam bem em relação a opiniões políticas, porém menos nas questões econômicas.

O fanatismo político é potencializado por condições predeterminadas do cérebro?

Pessoas que têm sentimentos políticos intensos possuem uma assinatura biológica diferente e identificável. Em nosso trabalho, focalizamos as diferenças entre pessoas de esquerda e de direita, mas também estamos interessados nas diferenças entre os que são politicamente apáticos e aqueles tão envolvidos que podem cometer algum tipo de violência com motivos políticos.

6/30/2015

Genialidade e loucura

Matemático, esquizofrênico e paranoico, John Forbes Nash foi um gênio. Reconhecido mundialmente por ganhar o Nobel de economia, o estudioso também acreditava que aliens o recrutaram para salvar o mundo. E sobre isso, Nash disse: “As minhas ideias sobrenaturais vieram da mesma maneira que as matemáticas. Por isso, decidi levar as duas igualmente a sério”.

E Nash está longe de ser o único gênio “louco” da história. Vincent Van Gogh, Virginia Woolf e Ernest Hemingway são apenas alguns exemplos de pessoas geniais que sofriam de doenças psicológicas. Exatamente por isso, muitos pensaram durante anos que a criatividade estava estritamente relacionada à psicopatologia.

Porém, psicólogos vêm afirmando que essa constatação pode ser um engano. Para eles, há dois fatos que reforçam o contraponto: há inúmeros gênios “normais” na história da humanidade; e manicômios não costumam produzir grandes finalidades criativas.

Então a ligação existe ou não? Estudos empíricos afirmam que sim, a genialidade possui uma forte relação com a loucura. O mais importante processo entre elas é a desinibição cognitiva: a tendência de prestar atenção a coisas que normalmente seriam ignoradas ou filtradas por parecerem irrelevantes.

Esse tipo de percepção foi o que motivou Alexander Fleming a descobrir a penicilina e muitos outros exemplos. O mesmo serve para o campo artístico, que normalmente valoriza as “coisas mundanas” e dá protagonismo à rotina, muito retratada na literatura, no cinema, na música, etc.

Contudo, a desinibição cognitiva é associada às patologias psicológicas. Por exemplo, esquizofrênicos acabam se bombardeando com informações que talvez pudessem ser “filtradas”. E segundo uma pesquisadora de Harvard, essa é uma diferença essencial entre os gênios e os “loucos”: agregar à sua máxima inteligência o conceito de desinibição.

“Inteligência excepcional pode ser útil, mas sem a cognição ela não consegue ser original e surpreendente”, conta Shelly Carson. Para ela, pessoas com QI elevado nem sempre são capazes de produções geniais.

As pessoas criativas, no entanto, caminham entre o normal e anormal, encontrando impulsos e ideias capazes de gerar conteúdos diferenciados. Como o matemático John Forbes Nash disse: “A racionalidade do pensamento impõe um limite na relação das pessoas com seus cosmos”.

Os mais célebres gênios criativos da história eram doentes mentais.

Renomados artistas, como Vicent Van Gogh e Frida Kahlo, e grandes literários, como Virginia Woolf e Edgar Allan Poe, podem ser enquadrados nesse contexto.

Hoje, a conexão entre genialidade e loucura já não é vista como mero acaso. Pesquisas mostram que esses dois extremos da mente estão realmente ligados, e os cientistas estão começando a entender o porquê?

Um grupo de especialistas debateu esse tema em um evento realizado no último dia 31, em Nova Iorque, como parte do 5º Festival Anual Mundial de Ciência.

A psicóloga clínica e professora da Johns Hopkins University School of Medicine, Kay Redfield Jamison, mostrou que os resultados de 20 ou 30 estudos científicos endossam a noção do “gênio atormentado”. Das muitas variedades de psicose, a criatividade parece estar mais fortemente ligada a transtornos de humor, especialmente o Transtorno Bipolar, doença com a qual Jamison já foi diagnosticada.

Um estudo testou, por exemplo, a inteligência de 700 mil suecos de 16 anos de idade. Após uma década, buscou-se saber quais deles haviam desenvolvido alguma doença mental.

Os surpreendentes resultados foram publicados em 2010. “Eles descobriram que pessoas que se sobressaiam com 16 anos eram quatro vezes mais propensas a desenvolver o Transtorno Bipolar”, afirmou a pesquisadora.

O Transtorno Bipolar causa dramáticas oscilações de humor. A pessoa vai da felicidade extrema à depressão grave.

Mas como isso poderia gerar um ciclo de criatividade? Um estudo apresentado por outro palestrante, o neurobiólogo da Universidade da Califórnia, James Fallon, sugere uma resposta. “As pessoas com esse problema tendem a ser criativas quando estão saindo de uma depressão profunda”, explicou Fallon.

Quando o humor do paciente bipolar melhora, seus ciclos de atividade cerebral também se desenvolvem. A atividade diminui na parte inferior do cérebro, conhecida como lobo frontal, e cresce numa parte superior. “Existe um nexo nessa dinâmica que tem a ver com bipolaridade e criatividade”, ressaltou o pesquisador.

Com relação à maneira como os padrões cerebrais se transformam em pensamento consciente, Elyn Saks, professor de Direito da Saúde Mental da Universidade da Califórnia do Sul, explicou que as pessoas com psicose não filtram os estímulos como a população normal.

Ao mesmo tempo, são capazes de entender e conectar as ideias contraditórias, ligando as associações soltas do cérebro, ato que o cérebro da maioria não veria lógica e por isso não enviaria para a consciência. “E se a invasão do absurdo no pensamento consciente pode ser esmagador e perturbador, pode também promover a criatividade”, disse Saks, que desenvolveu esquizofrenia durante a sua juventude.

Por exemplo: em uma pesquisa, foi pedido aos participantes para listar todas as palavras que viessem à mente tendo relação com determinada palavra de estímulo (como tulipa). O resultado demonstrou que os pacientes bipolares leves podem gerar três vezes mais associações de palavras em um dado período de tempo do que as pessoas em geral.

Quanto à forma como isso leva à genialidade, pode ser que a pura generosidade de ideias sem supressão provoque mais probabilidade de ele produzir algo profundo. Claro que ninguém está com energia criativa durante um ataque de depressão profunda ou esquizofrenia, até porque essas condições são debilitantes e até fatais.

Segundos os cientistas, mesmo com os benefícios da genialidade, os indivíduos nem sempre consideram que os seus momentos de brilho valem à pena frente ao extenso sofrimento que vem junto.

Saks concluiu dessa maneira: “Acho que a criatividade é apenas uma parte de algo que é essencialmente ruim”.

Cérebro nunca esquece a droga

Especializado no tratamento de dependentes químicos, o psiquiatra argentino Eduardo Kalina, 63 anos, faz um alerta: o cérebro nunca esquece a sensação provocada pela droga. Para um dependente químico, a cura exige a abdicação total das drogas, inclusive álcool e cigarro por toda a vida.

"Quem usa drogas quer ser super-homem", diz. Kalina já tratou de paciente famosos como a atriz Vera Fischer e o ex-jogador de futebol Diego Maradona. Ele atua na área há 32 anos. Nos últimos tempos, tem-se dedicado a estudar a depressão, sobre a qual prepara um livro. 

Seguem trechos de entrevista à Folha:

Folha: Por que a depressão virou a cabeça do homem moderno?

Eduardo Kalina: Os motivos são muitos. Temos uma crise de vida no mundo atual, que criou desenvolvimento e, em lugar de criar felicidade para as pessoas, criou infelicidade. Tudo isso favoreceu depressões. A forma de viver é cada vez menos humana. O uso de tóxicos, álcool, tabaco, café cocaína, estimulantes, tudo isso favorece a depressão. Um fator que provocou o aumento da depressão é o fato de que vivemos cada vês menos humanamente. Cada vez viramos mais máquinas, porque temos muito ou porque temos pouco. O homem virou cada vez mais máquina, e as máquinas precisam de combustíveis especiais.

Folha: Fale um pouco do tratamento que o senhor utiliza.

Kalina: São tratamentos integrais, com exames de diagnóstico complexo, para estudar o que acontece no cérebro sem produzir danos às pessoas e para saber como está o seu equilíbrio neuroquímico. Fazemos um diagnóstico psicológico e psicossocial. Pacientes com desequilíbrios importantes precisam de medicamentos para compensar esses desequilíbrios, que não se corrigem sozinhos.

Folha: O que o senhor chama de lado psicossocial?

Kalina: O uso de drogas vai contra a natureza humana. A pessoa procura a droga para ser outro, Popeye, super-homem. Além de corrigir o fator biológico, é preciso fazer psicoterapias, trabalhar com a família. Muitos pacientes precisam reaprender a de desenvolver no meio social. Daí a importância do hospital-dia, com estruturas comunitárias. 

Folha: O senhor teve pacientes famosos como Vera Fischer e Maradona. Eles se curaram?

Kalina: Não quero falar deles. Quem usou drogas tem que aprender a viver sem drogas, entre os quais o álcool e o tabaco. Pessoas famosas chegam a acreditar que são super-homens ou super-mulheres e não aceitam os limites: não podem tomar nunca mais álcool. Por isso, muitos voltam à droga. Pessoas comuns que têm recaídas são muitas. Quando um famoso tem recaída, todo mundo fala.

Folha: Há cura para a dependência química?

Kalina: A cura significa deixar de tomar drogas de todo tipo, álcool e tabaco, inclusive, e aceitar que o corpo nunca vai esquecer o que aprendeu. Se foi, alcoólatra ou toxicômano, o cérebro não esquece. Por isso, a cervejinha é fatal, porque abre a memória biológica. A pessoa lembra e acorda tudo o que tratamos de limpar. Há cura se você aceita os seus limites.

Folha: O que o senhor acha da descriminação da maconha?

Kalina: Sou contra. As pessoas que defendem isso não se preocupam com saúde pública. Há estudos sobre o poder carcinogenético (causador de câncer) da maconha, que é quatro vezes superior ao tabaco.

Folha: Quem fuma só maconha é dependente?

Kalina: É dependente. Quando a pessoa diz "fumo só maconha", quase nunca é verdade. Ela fuma cigarros, toma álcool e, com o tempo, não basta. É a porta de entrada para as outras drogas. Assim como se dizia antes que a consciência é solúvel em álcool, hoje, diz que a consciência é solúvel em maconha.

Folha: O senhor escreveu sobre jovens. O que diria aos pais, principalmente aos que usaram drogas?

Kalina: O papel da família é não seguir a linha "faça o que eu digo e não faça o que eu faço". Se os pais consomem tabaco, álcool e remédios, não podem pedir que os filhos não procurem soluções químicas. O pai deve dizer ao filho que usou, mas que não há motivo para o filho fazer também.

Folha: O senhor não admite o álcool nem em ocasiões sociais?

Kalina: É preciso saber a diferença. De cada 100 pessoas que bebem, 10 viram alcoólatras. Dos que fumam mais de seis semanas, 60% viram fumantes que não podem parar. A cerveja e o vinho, tomados com moderação, têm efeitos negativos mínimos e certos componentes úteis para a vida. O vinho tem aminoácidos, a cerveja tem vitamina B. O uísque, a cachaça, nada disso tem valor para o organismo.

Maria de Lourdes Garcia Ruiz
Coordenadora do Grupo de Amor Exigente de Marília 

6/29/2015

Abstinência e Alucinose Alcoólica

No Brasil, acredita-se que cerca de 6% da população apresente dependência ao álcool. Algumas estimativas interessantes concluem que o álcool é responsável por:
·         86% dos homicídios;
·         60% das agressões sexuais;
·         57% das agressões familiares;
·         64% dos incêndios e queimaduras;
·         50% das mortes no trânsito;
·         20% dos suicídios.

A alucinose alcoólica é uma das manifestações da síndrome de abstinência alcoólica que à sua vez é o conjunto de manifestações causadas pela suspensão abrupta do consumo de álcool em pacientes com uso crônico deste, levando a sinais e sintomas específicos.
O diagnóstico depende da história de cessação ou redução do uso de álcool em paciente que costuma usar grandes quantidades dessa substância. A história de cessação de álcool e mais 2 dos sintomas a seguir são suficientes para o diagnóstico:
·         Hiperatividade autonômica, evidenciada por taquicardia, sudorese e hipertensão;
·         Tremores;
·         Insônia;
·         Náuseas e vômitos;
·         Alucinações;
·         Ansiedade;
·         Agitação;
·         Crises convulsivas (tônico-clônicas generalizadas).

Os sintomas costumam aparecer após 6 a 24 horas da última ingesta de álcool. O uso de benzodiazepínicos pode retardar o aparecimento da síndrome. Em alguns bebedores pesados, a simples diminuição da ingesta é suficiente para desencadear sintomas de abstinência. Na maioria dos casos, o curso é benigno e se resolve em 2 a 3 dias.
Os sintomas menores de abstinência incluem tremores, ansiedade, cefaleia, anorexia e palpitações. Podem ainda ocorrer sintomas gastrintestinais, como náuseas, vômitos, anorexia e dispepsia, decorrentes de retardo do esvaziamento gástrico associado a aumento da atividade autonômica. Aumento de temperatura também pode ocorrer. Os sintomas menores ocorrem de 6 a 36 horas após a última dose de álcool.
Convulsões associadas à abstinência ocorrem de 12 a 48 horas após a última ingesta, mas podem ocorrer até 2 horas após ingestão alcoólica. São crises tônico-clônicas generalizadas, normalmente como crise única, embora possam ocorrer até 6 crises convulsivas, sobretudo em pacientes que não recebem benzodiazepínicos no início do tratamento. Os estudos são controversos quanto à incidência de convulsões na síndrome de abstinência. Algumas séries referem 5% dos pacientes evoluindo com convulsão, outras mostram entre 15 e 33%. Nessas condições, estado de mal epiléptico é raríssimo.
A alucinose alcoólica é outra manifestação importante e não deve ser considerada sinônimo de delirium tremens. Ocorre em 12 a 48 horas após a última ingestão de álcool e não está associada com importante alteração de sensório, o que ocorre em pacientes com delirium tremens. As alucinações costumam ser visuais, mas em até 25% dos pacientes com síndrome de abstinência elas podem ser também auditivas e táteis.
A manifestação mais grave da síndrome de abstinência é o delirium tremens, que ocorre 48 a 96 horas após a última ingesta de álcool e dura 3 dias, mas pode persistir até 14 dias. As manifestações incluem:
·         Desorientação e confusão mental importantes;
·         Extrema agitação com necessidade, na maioria dos casos, de restrição mecânica;
·         Tremores grosseiros;
·         Instabilidade autonômica, com taquicardia importante, aumento de PA e alterações hidreletrolíticas;
·         Ideação paranoide;
·         Acentuada resposta a estímulos externos;
·         Alucinações visuais, mas podem ser de qualquer forma.

Alguns fatores de risco para desenvolver delirium tremens são bem definidos na literatura:
·         Uso sustentado de álcool;
·         História prévia de delirium tremens;
·         Idade maior que 30 anos;
·         Presença de doença precipitante;
·         Alcoolemia elevada (raramente disponível no Brasil);
·         Tempo de última dose de álcool maior que 2 dias.

A mortalidade do delirium tremens é de até 5%, mas depende de seu manejo adequado. A morte ocorre por arritmias, distúrbios hidreletrolíticos ou condições associadas como pneumonia.
Os principais achados da síndrome de abstinência alcoólica são sumarizados naTabela 1.
Tabela 1. Manifestações da síndrome de abstinência alcoólica
Síndrome
Achados
Tempo de aparecimento
Sintomas menores
Tremores, ansiedade, cefaleia, anorexia, palpitações
6 a 36 horas
Crises convulsivas
Crises tônico-clônicas generalizadas, em geral únicas ou até 6 episódios
6 a 48 horas
Alucinose
Visuais ou auditivas, mas senso de orientação preservado
12 a 48 horas
Delirium tremens
Delirium, agitação, taquicardia, febre, diaforese, crise hipertensiva
48 a 96 horas

A monitoração próxima e repetida destes pacientes é importante, e o uso de escalas objetivas pode auxiliar o tratamento. Uma das escalas mais utilizadas é a CIWA-Ar – Revised Clinical Institute Withdrawal Assessment for Alcohol Scale, desenvolvida para avaliar e monitorar a terapêutica dirigida por sintomas nestes pacientes (Tabela 2).

Tabela 2. Escala CIWA-Ar
Náuseas e vômitos
0 sem náuseas, sem vômitos
1 náuseas leves sem vômitos
2
3
4 náuseas intermitentes com esforço seco de vômitos
5
6
7 náuseas constantes, esforço seco de vômito e vômitos frequentes
Distúrbios táteis
0 nenhum
1 prurido, agulhadas, dormência ou queimação muito leves
2 prurido, agulhadas, dormência leves
3 prurido, agulhadas, dormência moderados
4 alucinações moderadamente graves
5 alucinações graves
6 alucinações muito graves
7 alucinações contínuas
Tremor
0 sem tremor
1 não visível, mas pode ser sentido com ponta dos dedos
2
3
4 moderado com os braços estendidos
5
6
7 grave mesmo com os braços não estendidos
Distúrbios auditivos
0 ausentes
1 muito pouco assustadores
2 pouco assustadores
3 moderadamente assustadores
4 alucinações moderadamente graves
5 alucinações graves
6 alucinações muito graves
7 alucinações contínuas
Sudorese
0 sem sudorese visível
1 sudorese muito leve, mãos úmidas
2
3
4 gotas de suor visíveis na fronte
5
6
7sudorese intensa
Distúrbios visuais
0 nenhum
1 sensibilidade muito leve
2 sensibilidade leve
3 sensibilidade moderada
4 alucinações moderadamente graves
5 alucinações graves
6 alucinações muito graves
7 alucinações contínuas

Ansiedade
0 sem ansiedade
1 ansiedade leve
2
3
4 moderadamente ansioso
5
6
7 equivalente a estados agudos de pânico
Cefaleia ou cabeça pesada
0 ausente
1 muito leve
2 leve
3 moderada
4 moderadamente grave
5 grave
6 muito grave
7 extremamente grave
Agitação
0 atividade normal
1 algo mais que atividade normal
2
3
4 moderadamente impaciente e incomodado
5
6
7 agitação e inquietude extremas
Orientação
0 orientado e pode realizar somas seriadas
1 não pode realizar somas seriadas ou incerteza sobre a data
2 desorientado para data por não mais de dois dias
3 desorientado para data por mais de dois dias
4 desorientado espacialmente e/ou para pessoas

A síndrome de abstinência pode ser classificada conforme a escala da seguinte forma:
·         Leve: < 15 pontos;
·         Moderada: 16 a 20 pontos;
·         Grave: > 20 pontos.


Escores elevados são indicação de tratamento sob internação e uso de benzodiazepínicos; já as crises leves podem ser manejadas ambulatorialmente. Um estudo brasileiro de 114 pacientes com abstinência leve a moderada mostrou a plausibilidade do tratamento ambulatorial de pacientes com abstinência por enfermeira especializada. Apenas 20% dos pacientes necessitaram de avaliação clínica, 92% fizeram uso de benzodiazepínicos ambulatorialmente e somente 5% necessitaram de internação hospitalar.