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8/16/2015

TRANSTORNO OBSESSIVO-COMPULSIVO

Definições

O Transtorno obsessivo-compulsivo é o resultado de combinações de obsessões e compulsões que afetam os indivíduos.

As obsessões são pensamentos ou idéias, imagens e impulsos recorrentes e insistentes que se caracterizam por serem extremamente desagradáveis, perturbadores, intrusivos, repulsivos e contrários à índole e aos comportamentos do paciente. 

Por exemplo, uma pessoa correta e de bom comportamento social e moral pode ter pensamentos recorrentes de roubo, ataques a pessoas, trapaças e traições. Outra pessoa fervorosamente religiosa pode ter pensamentos obscenos, idéias sexuais que não praticaria, se em fosse de seu pensamento normal. Os pensamentos obsessivos não têm controle pelo paciente, e podem proporcionar ao mesmo medo, nojo ou sentimento de pecado. Podemos dizer que estes pensamentos estão relacionados com medos e temores.

Ter obsessões é patológico porque causa ao portador significativa perda de tempo, queda do rendimento pessoal e muito sofrimento. Ao perder o controle sobre seus pensamentos, o paciente, muitas vezes, passa a praticar atos repetitivos, que, com o passar do tempo, tornam-se verdadeiros rituais. Quase sempre a finalidade destes rituais é prevenir, aliviar ou mesmo neutralizar as tensões causadas pelos pensamentos obsessivos.

Já as compulsões são comportamentos, gestos, rituais ou ações sempre iguais, repetitivas e incontroláveis, executados de forma consciente, que se seguem às obsessões. Um paciente que tenta evitar as compulsões acaba submetido a uma ansiedade e a uma tensão insuportáveis, e acaba, sempre, cedendo a elas. 

Um portador do transtorno que tem medo de se infectar com germes ou bactérias lava as suas mãos três, quatro, vinte vezes, mesmo sabendo que este ritual não o isenta da possibilidade remota de se infectar com os germes e bactérias que tanto teme. Mesmo assim, continua a lavar suas mãos. Os objetos e coisas mais temidos pelos pacientes são impossíveis de serem evitados, como: fezes, urina, germes e bactérias, poeiras, poluição e outros.

Os pacientes não chegam a perder o juízo a respeito do que está acontecendo consigo mesmo, e percebem o absurdo do que está se passando, mas como não sabem realmente o que está acontecendo e temem estar enlouquecendo.

No começo do TOC, tentam ainda não expor aos mais próximos seus pensamentos, compulsões e rituais, mas é quase impossível que estes não tenham já percebido o sofrimento ao qual o parente ou amigo está sendo submetido.

Qualquer portador do TOC pode ser mais obsessivo que compulsivo ou mais compulsivo do que obsessivo. Uma diferença a observar entre TOC e uso compulsivo de drogas, jogo ou sexo patológico está no prazer que estas atividades trazem aos que realizem estas compulsões, e o desconforto que estas outras compulsões do TOC trazem a seus portadores.

Prevalência

O Transtorno Obsessivo-Compulsivo possui uma prevalência na população de 2 a 3%, podendo ter início na adolescência ou na infância, mas quase sempre, apresenta-se mais ativo na idade entre 30 e 40 anos. O sexo feminino é mais sensível ao transtorno e nas mulheres aparece, na maioria dos casos, no início da idade adulta.

Os portadores do transtorno não o reconhecem, e pode se passar muito tempo antes de buscarem ajuda. Quase sempre há uma grande dificuldade do paciente de se aceitar como portador do transtorno, mas, se consegue buscar tratamento, o alívio dos sintomas mais difíceis de conviver é rápido e eficiente.

Hereditariedade e genética

Não foi reconhecido, até o presente momento, a presença de genes causadores do Transtorno Obsessivo-Compulsivo, mas sabe-se que pais portadores do transtorno têm, com mais freqüência, filhos portadores do transtorno.

Alguns atribuem à convivência entre pais e filhos a maior probabilidade dos filhos de portadores de TOC, serem também portadores do transtorno. Uma possibilidade da provável causa do TOC seria a falta de serotonina no cérebro dos portadores, tanto isto é verdade, que o uso de medicações à base de recaptadores de serotonina aplaca a severidade do transtorno em 40 a 60% dos portadores.

Sintomas

O Transtorno Obsessivo-Compulsivo é classificado como um transtorno de ansiedade por causa da forte tensão que sempre surge quando o paciente é impedido de realizar seus rituais. Mas a ansiedade não é o ponto de partida desse transtorno como nos demais transtornos dessa classe, sendo que o que o inicia são os pensamentos obsessivos ou os rituais repetitivos. Há algumas formas mais brandas desse distúrbio nas quais o paciente tem apenas poucas obsessões e as compulsões são discretas.

Os sintomas obsessivos mais comuns são:
  • Contaminação: medo de contaminar-se por germes, sujeiras etc.
  • Agressividade: imaginar que tenha ferido, prejudicado, ou ofendido seriamente outras pessoas.
  • Perda de controle: imaginar-se perdendo o controle, realizando violentas agressões ou mesmo assassinatos.
  • Sexuais: pensamentos sexuais urgentes e intrusivos.
  • Dúvidas: não acreditar em si mesmo, se achar incompetente, não se acreditar capaz de realizar tarefas simples e do cotidiano, ter dúvidas morais e religiosas.
  • Conteúdo moral: apresentar pensamentos proibidos.
  • Coleções e simetria: ideias de guardar objetos inservíveis, idéias de colocar tudo que possível na mais absoluta ordem simétrica.
Os sintomas compulsivos mais comuns são:
  • Limpeza: lavar-se frequentemente para se descontaminar. Lavar as mãos e tomar banhos a toda hora. Usar produtos químicos com a finalidade de se descontaminar, produtos do tipo xampus, cândida, creolina, álcool.
  • Repetição: repetir determinados gestos, tais como entrar em casa com o pé direito, benzer-se ao ouvir trovoada, bater de um lado e do outro do corpo.
  • Verificação e teste: verificar e checar se as coisas estão como deveriam estar: portas trancadas, gás e eletricidade desligados, se o marido está trabalhando, se o filho entrou na escola, etc.
  • Tocar objetos. Toca três vezes a madeira, beija santinhos, etc
  • Contar objetos. Conta carros na rua, conforme suas cores, faz contas com placas de carros, etc.
  • Ordenar ou arrumar os objetos de uma forma igual. Fazer rituais de ordem, sempre igual, para guardar ou expor objetos em casa ou em armários. Faz assepsia de tudo que toca sua pele, para não se expor a doenças.
  • Colecionar e juntar coisas inúteis, como: revistas velhas, jornais velhos, sacos de supermercado, vidros e embalagens.
  • Rezar compulsivamente, frequentar igrejas, centros espíritas e templos para rezar e se purificar, pedir proteção a Deus e às entidades religiosas.
  • Repetir ações e gestos: ligar e desligar rádios e aparelhos de TV, interruptores de luz, não passar ou passar sempre pelo mesmo caminho, etc.
Diagnóstico

Os sintomas obsessivos e compulsivos são obrigatórios para se diagnosticar o TOC. Contudo, além destes sintomas, são necessários outros critérios:

1- O primeiro é que o tempo gasto com os sintomas deve ser de no mínimo uma hora por dia ou quando o tempo for inferior a esse valor, é necessária a presença de marcante aborrecimento ou prejuízo pessoal.

2- É preciso também que, em algum momento, o paciente reconheça que o que está acontecendo seja excessivo, exagerado, injustificável ou anormal.

Curso e Epidemiologia

Esse transtorno apresenta dois picos de incidência. O primeiro na infância e o segundo em torno dos trinta anos de idade. Muitas crianças apresentam esse problema nessa fase e depois nunca mais têm nada. Outras continuam tendo o problema durante a vida adulta. Os adultos também apresentam oscilações do problema; podem ficar livres dos sintomas e dos remédios, mas também podem precisar deles continuadamente.

Esse transtorno incide aproximadamente com a mesma freqüência em homens e mulheres, com pequenas diferenças de um estudo para outro. Nas crianças observa-se um aparecimento um pouco mais comum nos meninos.

Tratamentos

É necessário lembrar que o TOC é um transtorno crônico e com uma evolução bastante variável. Para alguns portadores aparece de forma rápida e até violenta, isto quando o portador é submetido a alguma situação estressante. Para outros pacientes aparece de forma lenta e insidiosa.

Lembramos que todo o uso de medicamentos para tratamentos psiquiátricos deve ser feito com o acompanhamento de um médico, e, somente a ele cabe receitar, acompanhar e mudar o uso destes medicamentos.


Tratamento terapêutico

É reconhecido que o tratamento mais adequado é a combinação da farmacoterapia com a Terapia Cognitivo-Comportamental que, de per si, também apresenta bons resultados com os pacientes portadores do TOC. Outra grande ajuda que a Terapia Cognitivo-Comportamental dá aos portadores do TOC e aos seus familiares é auxiliá-los no conhecimento e no reconhecimento das características e sintomas do transtorno e na busca de soluções para o problema, através do uso das medicações indicadas pelo médico e a frequência às sessões de terapia.

Transtorno Obsessivo-Compulsivo de Personalidade: é um transtorno de personalidade que faz de seus portadores sejam pessoas exageradamente ordeiras e perfeccionistas, ritualistas, amantes de regras, horários, devotos ao trabalho e à religião, mas que não possuem obsessões, e não trazem prejuízos ao funcionamento pessoal dos portadores. pelo terapeuta para os pacientes exercícios de dessensibilização, de interrupção dos pensamentos repetitivos e de condicionamento aversivo. O paciente precisa estar totalmente comprometido com o tratamento, para que se obtenha bons resultados.

A combinação de ambos os tratamentos medicamentoso e terapêutico é superior ao uso isolado de cada um deles.

Uso de drogas e comorbidades

Não é comum a presença de dependência química nos portadores do TOC, pois estes, especialmente, são grandes medrosos de contraírem doenças, conforme as obsessões que os dominam. Alguns portadores podem abusar algumas vezes de álcool para diminuírem sintomas de ansiedade, ou abusarem de remédios ansiolíticos, como benzodiazepínicos.

As principais comorbidades do TOC são a depressão e a ansiedade, e ambas são controladas com o uso dos mesmos medicamentos antidepressivos usados para o tratamento da depressão.

Comportamentos Compulsivos


Dr. Geraldo Ballone

Definição

As compulsões, comportamentos compulsivos ou aditivos são hábitos aprendidos e seguidos por alguma gratificação emocional, normalmente um alívio de ansiedade e/ou angústia. São hábitos mal adaptativos que já foram executados inúmeras vezes e acontecem quase automaticamente.

Diz-se que esses comportamentos compulsivos são mal adaptativos porque, apesar do objetivo que têm de proporcionar algum alívio de tensões emocionais, normalmente não se adaptam ao bem estar mental pleno, ao conforto físico e à adaptação social. Eles se caracterizam por serem repetitivos e por se apresentarem de forma freqüente e excessiva. 

A gratificação que segue ao ato, seja ela o prazer ou alívio do desprazer, reforça a pessoa a repeti-lo mas, com o tempo, depois desse alívio imediato, segue-se uma sensação negativa por não ter resistido ao impulso de realizá-lo. Mesmo assim, a gratificação inicial (o reforço positivo) permanece mais forte, levando a repetição.

Por exemplo:

Se a pessoa é acometida pela ideia (contra sua vontade) de que está se contaminando através de alguma sujeita nas mãos, terá pronto alívio em lavar as mãos. Entretanto, se tiver que lavar as mãos 40 vezes por dia, ao invés de adaptar essa atitude acaba por esgotar.

Se a pessoa é acometida pela ideia de que seus pais sofrerão algum acidente fatal, poderá conseguir alívio da angústia gerada por esses pensamentos se, por exemplo, bater 3 vezes na madeira... Mas tiver que bater na madeira 40 vezes por dia, ao invés de aliviar, essa atitude acaba por constranger e frustrar.

Se a pessoa tem um pensamento incômodo de que aquilo que acabou de comer poderá engordá-la, terá alívio dessa sensação provocando o vômito, ou tomando laxantes....

Causas

Não há uma causa bem estabelecida para a ocorrência de comportamentos compulsivos. Pode-se falar em vulnerabilidades e predisposições, seja de elementos familiares, tais como os hábitos consequentes à extrema insegurança e aprendidos no seio familiar, seja por razões individuais e relacionados às vivências do passado e a ao dinamismo psicológico pessoal, seja por razões biológicas, de acordo com o funcionamento orgânico e mental.

Assim, comportamentos compulsivos ou aditivos podem ser entendidos como atitudes (mal-adaptadas) de enfrentamento da ansiedade e/ou angústia, trazendo conseqüências físicas, psicológicas e sociais graves. Algumas pessoas apresentam comportamentos com caráter compulsivo, que levam a conseqüências negativas em suas vidas, como por exemplo, recorrer ao uso abusivo do álcool, das drogas, à fuga do convívio social, ao hábito intempestivo do vômito e às mais variadas atitudes. 

Essas pessoas podem ainda comprar compulsivamente, sem levar em conta o saldo bancário, comer compulsivamente, mesmo quando não se tem fome, jogar, praticar atividades físicas em excesso, etc.

Complicações

Normalmente nesse tipo de problema, classificados em sob o título de transtornos do espectro obsessivo-compulsivo (TOC), a pessoa acaba tornando-se dependente dessas atitudes, as quais ocupam um espaço importante no seu cotidiano. 

Em alguns casos ocorrem-se danos físicos, como na pessoa com vigorexia, que precisa malhar (exageradamente) todos os dias e por longas horas, ou lesões na pele das mãos devido aos rituais de lavar continuadamente, ou escoriações quando há auto-escoriações, calvície quando há tricotilomania, ou desnutrição quando a compulsão é por vômitos (bulimia) e assim 
por diante.

Normalmente essas pessoas sentem desconforto emocional se não fizerem esses comportamentos, apresentam grande angústia ou ansiedade na ausência ou na impossibilidade em realizar a atividade compulsiva. Socialmente a ocorrência de tais comportamentos pode resultar em prejuízo no trabalho, na conclusão de tarefas, na liberdade de sair de casa, na vergonha do contacto com outras pessoas, etc.

A repetição desses comportamentos e o aumento gradual da freqüência deles acabam caracterizando um verdadeiro processo de dependência. Alguns buscam o alívio do desprazer das emoções de angústia e ansiedade, do afastamento de pensamentos incômodos. Quando se pretende a busca do prazer pode haver adicção química, que é o consumo exagerado de substâncias.

Didaticamente podemos dizer que existe uma grande semelhança entre comportamentos compulsivos e dependência química: a angústia provocada pela ausência, os sintomas emocionais da abstinência, tais como tremores, sudorese, taquicardia, etc, o caráter compulsivo e repetitivo, a importância que essa atitude ocupa na vida da pessoa, o comprometimento na qualidade da vida familiar, profissional, afetiva e social. É assim que, por exemplo, o ato de jogar tem praticamente o mesmo papel que a droga, ou álcool, a cocaína e outras substâncias psicoativas.

Tipos

Jogar Compulsivo

A característica essencial do Jogo Patológico é um comportamento de jogo mal adaptativo, recorrente e persistente, que perturba os empreendimentos pessoais, familiares e/ou ocupacionais. A pessoa com esse transtorno pode manter uma preocupação com o jogo, tais como, planejar a próxima jogada ou pensar em modos de obter dinheiro para jogar.

A maioria dessas pessoas com Jogo Patológico afirma que está mais em busca de "ação" do que de dinheiro e, por causa dessa busca de ação, apostas ou riscos cada vez maiores podem ser necessários para continuar produzindo o nível de excitação desejado. Os indivíduos com Jogo Patológico freqüentemente continuam jogando, apesar de repetidos esforços no sentido de controlar, reduzir ou cessar o comportamento.

Através do reforço emocional intermitente, onde ganhar é um reforço positivo imediato e perder é “apenas” uma circunstância aleatória, o indivíduo apresenta o comportamento compulsivo de jogar. Está sempre na expectativa de ganhar, como foi conseguido anteriormente. Existe ainda uma sensação especial no comportamento de risco, o que ocupa a mente do jogador fazendo que passe a repetir o comportamento (dependência). 

O jogo pode tornar-se uma grande fonte de prazer, podendo vir a ser a única forma de prazer para algumas pessoas. O jogador compulsivo costuma se tornar inconsequente, gastando aquilo que não tem, perdendo a noção de realidade. A síndrome de abstinência pode estar presente.

Atividade Física Compulsiva

A escravização que as pessoas das sociedades civilizadas se submetem aos padrões de beleza tem sido um dos fatores sócio-culturais associados ao incremento da incidência do comportamento compulsivo para a prática de exercícios. 

É hábito que o ser humano moderno esteja moderadamente preocupado com seu corpo, sem que essa preocupação se converta numa obsessão. Mas, alguns complexos de feiura ou de estar em desacordo com os padrões desejáveis podem levar à obsessão pela beleza física e perfeição.

Inicialmente essa atividade física pode proporcionar prazer, relaxar, fazer com que a pessoa se sinta mais saudável e bonita. Este comportamento libera substâncias em nosso cérebro responsáveis pelo prazer e bem-estar (veja mais). Quando isso se transforma num comportamento compulsivo, exercitar-se em excesso pode resultar em prejuízo físico, atingindo as articulações, aparelho respiratório e o coração.

O sistema emocional pode ficar comprometido quando se apresenta um comportamento compulsivo, constante, comprometendo a realização satisfatória de outras atividades da vida da pessoa e proporcionando sofrimento significativo em outros aspectos.

A atividade física compulsiva deve ser considerada um transtorno da linhagem obsessivo-compulsiva, tanto pela obsessão em musculatura, pela compulsão aos exercícios e ingestão de substâncias que aumentam a massa muscular, quanto pela fragrante distorção do esquema corporal que essas pessoas experimentam.

Comprar Compulsivo

Assim como os demais comportamentos compulsivos ou aditivos, o comprador compulsivo é, praticamente, um dependente do comportamento de comprar, precisando fazê-lo sem limites para se sentir bem, pelo menos bem naquele momento (para depois arrepender-se).

O comprador compulsivo acaba por consumir coisas pelo fato de consumir e não mais pela necessidade do objeto que é consumido. Ir ao shopping sem realizar algumas compras parece tornar-se quase impossível. Muitas vezes sente-se culpado, porém, como em qualquer comportamento aditivo, o mais comum é perder o controle da situação. 

Entretanto, é fundamental fazer a diferença entre o simples hábito pelas compras do comportamento compulsivo às compras. "Os hábitos de consumo são mais emocionais que racionais". Comprar por impulso, mas não por compulsão, é adquirir um bem por sentir uma atração instantânea pelo produto, seja por causa da embalagem, do preço ou do apelo publicitário.

Essas pessoas impulsivas pelas compras cometem as "... pequenas loucuras que se cometem ao passar pelas gôndolas de supermercados", diz. "Leva-se uma garrafa de bebida, um iogurte ou um pacote de biscoitos a mais", observa. Já o compulsivo vai às compras como um viciado que sai de casa para jogar ou em busca das drogas, e a compulsão acaba sendo uma atitude que exclui logo o prazer pela aquisição do novo produto.

Trabalhar Compulsivo

Com o objetivo de vencer profissionalmente, ganhar dinheiro, sobressair-se socialmente, tem sido glorificado pelo sistema cultural que a pessoa procure dar o melhor de si trabalhando. O trabalho pode ser utilizado como uma ocupação mental capaz de tomar o espaço de outros sentimentos ou pensamentos mais difíceis de serem vivenciados.

Quando a atividade funciona como uma forma de esconder-se, fugir ou não ter que sentir ou pensar em outros problemas, enfim, quando alivia a angústia da vida de relação, o trabalhar pode tornar-se compulsivo, constante, enfim aditivo.

Neste caso, o trabalhar perde sua função natural passando a ser prejudicial ao bem estar físico, familiar psicológico e social do indivíduo. Na compulsão pelo trabalho a pessoa vai de casa para o trabalho, do trabalho para a casa, excluindo-se de sua vida as opções do lazer, as pausas nos finais de semana, o convívio descontraído com a família, etc. 

A pessoa com compulsão pelo trabalho freqüentemente exige dos outros o mesmo ritmo que tem para si, costuma criticar demais esses outros, exige perfeição, dedicação e devoção ao trabalho, tal como elas próprias se comportam. E o próprio compulsivo para 
o trabalho sofre com sua situação.

Normalmente são pessoas severas, isoladas, inflexíveis, perfeccionistas, amargas e exageradamente “realistas”. Por causa dessas características os workaholics racionalizam tudo na vida, ocultam seus próprios sentimentos, têm um contato mínimo com eles próprios e mantêm abafados seus conflitos íntimos. Para essas pessoas o trabalho é seu escudo protetor e, melhor que isso, trata-se de uma atitude fortemente enaltecida pelos valores sociais. 

Mas, na realidade, o workaholic também sofre, normalmente é um insatisfeito consigo mesmo, alimenta a fantasia de ser potente e meritoso. Na verdade, toda essa voracidade para o trabalho pode estar aliviando sentimentos de angústia por se acreditar um pai omisso ou uma mãe ausente, um companheiro fugidio, etc.

Comer Compulsivo

Os transtornos alimentares constituem uma verdadeira "epidemia" que assola sociedades industrializadas e desenvolvidas acometendo, sobretudo, adolescentes e adultos jovens. Vivemos em uma sociedade na qual existe o culto da magreza. Assim, comer, um comportamento universalmente tido como prazeroso, torna-se alvo de preocupação de muitas pessoas. 

Como usufruir deste prazer sem sentir-se fora dos padrões sociais de saúde e beleza? Quais serão os sintomas dessa epidemia emocional? De um modo geral, o pensamento falho e doentio das pessoas portadoras dessas patologias se caracteriza por uma obsessão pela perfeição do corpo. Na realidade, trata-se de uma "epidemia de culto ao corpo".

Essa "epidemia" se multiplica numa população patologicamente preocupada com a perfeição do corpo e que está sendo afetada por alterações psíquicas caracterizadas por distúrbios na representação pessoal do esquema corporal. 

Os transtornos alimentares vêem aumentando sua incidência perigosamente e já começa a alarmar especialistas médicos, sociólogos, autoridades sanitárias. Essa busca obsessiva da perfeição do corpo tem várias formas de se manifestar e, algumas delas, diferem notavelmente entre si. Existem os transtornos alimentares mais tradicionais, que são a anorexia e bulimia nervosa mas, não obstante, existem outros que se estimulam e desenvolvem na denominada "cultura do esbelto".

Todos estes transtornos alimentares compartilham alguns sintomas em comum, tais como, desejar uma imagem corporal perfeita e favorecer uma distorção da realidade diante do espelho. Isto ocorre porque, nas últimas décadas, ser fisicamente perfeito tem se convertido num dos objetivos principais (e estupidamente frívolos) das sociedades desenvolvidas. É uma meta imposta por novos modelos de vida, nos quais o aspecto físico parece ser o único sinônimo válido de êxito, felicidade e, inclusive, saúde.

Transtorno Obsessivo-Compulsivo - TOC II

As características essenciais do Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) são obsessões ou compulsões recorrentes e suficientemente graves para consumirem tempo ou causar sofrimento acentuado à pessoa. Leigamente diz-se que a pessoa tem várias "manias" e que é esquisito ou estranho mas, normalmente, o portador de TOC sabe que suas "manias", obsessões ou compulsões são excessivas ou irracionais.

Obsessões são pensamentos ou idéias (p. ex. dúvidas), impulsos, imagens, cenas, que invadem a consciência de forma repetitiva, persistente e estereotipada seguidos ou não de rituais destinados a neutralizá-los. São experimentados como intrusivos, inapropriados ou estranhos pelo paciente em algum momento, ao longo do transtorno, causando ansiedade ou desconforto acentuados. 

A pessoa tenta resistir a eles, ignorá-los ou suprimi-los com ações ou com outros pensamentos, reconhecendo-os, no entanto, como produtos de sua mente e não como originados de fora. Não são simplesmente medos exagerados relacionados com problemas reais.

Compulsões são comportamentos repetitivos (p.ex.lavar as mãos, fazer verificações), ou atos mentais (rezar,contar, repetir palavras ou frases) que a pessoa é levada a executar em resposta a uma obsessão ou em virtude de regras que devem ser seguidas rigidamente. 

Os comportamentos ou atos mentais são destinados a prevenir ou reduzir o desconforto gerado pela obsessão, prevenir algum evento ou situação temidos e em geral não possuem uma conexão realística ou direta com o que pretendem evitar, ou são claramente excessivos .

Uma variedade de anormalidades biológicas têm sido associadas ao Transtorno Obsessivo-Compulsivo na tentativa de estudar-se as causas desse transtorno. Nascimentos traumáticos sugerindo papel importante de um sofrimento cerebral precoce comumente fazem parte da história de tais pacientes. 

Há também, por outro lado, uma concordância significativa entre a ocorrência de sintomas obsessivo-compulsivos e a epilepsia do lobo temporal, bem como o aumento de atividade metabólica no giro orbital esquerdo, constatado pela tomografia por emissão de pósitrons nos pacientes diagnosticados como Obsessivo-Compulsivo.

Recentemente as pesquisas genéticas têm apontado também para uma alteração cromossômica envolvida nessa questão.A observação de que em algumas alterações neurológicas, como por exemplo a epilepsia do lobo temporal, Coréia de Sydenhan, Parkinson pós-encefalites, 

Síndrome de Giles de la Tourette, com muita freqüência ocorrem obsessões e compulsões, bem como os avanços na neurofarmacologia, através da boa resposta do TOC a antidepressivos inibidores da recaptação da serotonina, tem levado a se pesquisar cada vez mais as bases biológicas deste transtorno.

Numerosas pesquisas sugerem fortemente um envolvimento da serotonina, um neurotransmissor, na fisiologia do TOC. Esses estudos se baseiam nas respostas terapêuticas de 40 a 60% dos pacientes tratados com antidepressivos que proporcionam a recaptação de serotonina (5HT), tais como a Comipramina, a Fluoxetina, a Fluvoxamina, a Sertralina (veja em tratamentos e em farmacologia). Por outro lado, tricíclicos menos serotonérgicos, como a desipramina, são ineficazes.

A intromissão indesejável de um pensamento no campo da consciência de maneira insistente e repetitiva, reconhecido pelo indivíduo como um fenômeno incômodo e absurdo, é denominado de Pensamento Obsessivo. Portanto, para que seja Obsessão é necessário o aspecto involuntário das idéias, bem como, o reconhecimento de sua conotação ilógica pelo próprio paciente, ou seja, ele deve ter crítica sobre o aspecto irreal e absurdo desta ideia indesejável.

As Obsessões estão tão enraizadas na consciência que não podem ser removidas simplesmente por um aconselhamento razoável, nem por livre decisão do paciente. Elas parecem ter existência emancipada da vontade e, por não comprometerem o juízo crítico, os pacientes têm a exata noção do absurdo de seu conteúdo mental. Em maior ou menor grau, as Idéias Obsessivas ocorrem em todas as pessoas, notadamente quando crianças.

As idéias obsessivas podem aparecer, por exemplo, como uma musiqueta conhecida que "não sai da cabeça", ou a ideia de que pode haver um bicho debaixo da cama, ou que o gás pode estar aberto apesar da lógica sugerir estar fechado. 

Em crianças aparecem como um certo impedimento em pisar nos riscos da calçada, uma obrigatoriedade em contar as árvores da rua ou os carros que passam, etc. Estas idéias obrigatórias, quando exageradas e promovedoras de significativa ansiedade ou sofrimento, constituem quadro patológico.

A temática das Idéias Obsessivas pode ser extremamente variável, entretanto, em grande número de vezes diz respeito à higiene, contaminação, transmissão de doenças, bactérias, vírus, organização ou coisas assim. 

É muito freqüente também a existência de Idéias Obsessivas sobre um eventual impulso suicida, como por exemplo saltar da janela de edifícios, ou em ser acometido subitamente por impulsos de agressão e ferir pessoas, principalmente os filhos. Neste último caso a obsessão está justamente em acreditar que, diante de um mal estar súbito, a pessoa venha a perder o controle e executar, impulsivamente, aquilo que sugere tais idéias.

São muitos os exemplos de pessoas que adotam uma conduta excêntrica motivadas pela obsessão da contaminação ou pelo medo continuado de contágio diante de qualquer coisa que lhes pareça suspeita. 

Há ainda, casos de pessoas que se sentem extremamente desconfortáveis quando próximas de objetos pontiagudos, facas, foices, etc, devido a ideia indesejável de que podem, repentinamente e misteriosamente, perder o controle e matar uma pessoa querida.

Desta feita, a Obsessão é um processo mental que tem caráter forçado, uma ideia associada a um sentimento penoso que se apresenta ao espírito de modo repetido e incoercível. São idéias impostas ao psiquismo, incômodas e sentidas como involuntárias, as quais entram na mente contra uma resistência consciente.

A similaridade entre Obsessões e Fobias foi observada já em 1878 por Westphal, criador do termo Fobias Obsessivas. Seriam medos que dominam a consciência, apesar da vontade do paciente que não consegue suprimi-los, embora reconheça-os como anormais. 

Aliás, vê-se muito bem, nos exemplos práticos, o componente de medo que normalmente acompanha as idéias Obsessivas. A Obsessão de doença e contaminação pode ser entendida como uma Fobia de doença, uma ruminação mental sem fim em torno da possibilidade de sofrer qualquer tipo de doença.

Ainda que o fenômeno obsessivo seja distinto do fenômeno fóbico, é sempre bom ter em mente que ambos podem ser faces distintas de uma mesma moeda ou, o que mais provavelmente poderia ser, a fobia originando obsessão e vice-versa.

Transtorno Obsessivo-Compulsivo

Os Pensamentos Obsessivos, como sintomas, são estudados nas alterações do Conteúdo do Pensamento. São determinadas idéias de caráter obrigatório e impostas ao indivíduo, independente de sua vontade, mesmo sendo contrárias aos argumentos de sua lógica e de seu juízo. 

No Transtorno Obsessivo-Compulsivo essas impulsos obsessivos, e consequentes compulsões delas decorrentes, são suficientemente intensas para causar sofrimento acentuado, consumir tempo, interferir significativamente na rotina normal da pessoa, no funcionamento ocupacional ou nas atividades e relacionamentos sociais.

As compulsões são comportamentos repetitivos e intencionais (apesar de quase involuntários) desempenhados em resposta à Ideia Obsessiva e com a finalidade de prevenir o desconforto de um suposto acontecimento terrível. 

Os atos compulsivos são ritualísticos, estereotipados e absurdos e, caso não sejam realizados à contento, a ansiedade acoplada à ideia obsessiva acerca de algum provável acontecimento desagradável passa a incomodar muito o paciente. 

Normalmente tais atos compulsivos envolvem atitudes de higiene, como por exemplo, lavar as mãos, limpar coisas metodicamente, ou atitudes de contar, conferir, arrumar. Outras vezes, implicam em tocar ou olhar objetos de maneira ritualística.

Incidência

O Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) era considerado, até pouco tempo, uma doença rara, pois se levava em conta no estabelecimento de estimativas de sua incidência ou prevalência o pequeno número de pacientes que procuravam atendimento especializado. Hoje em dia, a procura ao tratamento especializado mudou esses índices significativamente.

Jenicke (1990) calculou que ao redor de 10% de todos os pacientes que ingressam numa clínica privada de psiquiatria apresentavam sintomas obsessivo-compulsivos importantes.

O Epidemiologic Catchment Study, norte-americano, encontrou inicialmente uma prevalência para toda a vida de 2,5%. Karno mais recentemente (1988) estabeleceram cifras de 3,0% para a prevalência do TOC para toda a vida e de 1,6% em 6 meses (Bland ,1988). 

Estas cifras podem ser supervalorizadas pois foram obtidas por entrevistadores leigos do ECA. Cálculos mais recentes estimam ao redor de 0,3% a prevalência para a população (Flament 1988). No entanto, esta cifra pode estar subestimada pois os indivíduos com TOC tem vergonha dos seus sintomas, não estão incapacitados pelos mesmos e muitas vezes não se dão conta de que são manifestações patológicas.Levando estes fatos em conta, Jenicke (1990) calcula que seja de 1 a 2% o risco que as pessoas tem de desenvolver TOC significativo.

O DSM-IV, por sua vez, estima a prevalência para toda a vida, ao redor de 2,5% e de entre 1,5 a 2,1% a prevalência para o período de um ano.

A incidência do TOC é maior em pessoas com conflitos conjugais, divorciados, separados e desempregados. É maior também nos familiares de 1º grau (3 a 7%) de portadores de TOC, é igual entre homens e mulheres e um pouco maior em adolescentes masculinos (75%). O início da doença se dá em torno dos 20 anos, mas não é incomum em crianças.

TOC - Fisiopatologia

Outros estudos mais recentes têm demonstrado uma diminuição da liberação de cortisol e de prolactina com o uso do m-cloro-fenilpiperazina (m-CPP), um agonista do receptor 5-HT, em pacientes com TOC, indicando também um envolvimento do sistema serotonérgico neste transtorno. Tem-se observado também através da Ressonância Magnética, um menor volume do núcleo caudato nos pacientes com TOC em comparação com pessoas normais.

O PET, um exame de imagem funcional do cérebro, tem mostrado que o metabolismo de glicose está aumentado no córtex órbito-frontal e no giro cíngulo, caracterizando assim uma hiperatividade dessa área nos portadores de TOC. Essa hiperatividade tende a diminuir durante o tratamento, tanto através do tratamento por terapia comportamental como por o uso de medicamentos. Também parece haver uma redução no metabolismo da glicose na região olebtofrontal bilateral (hipofunção).

Progressivamente outras alterações neurobiológicas têm sido associadas ao TOC, como por exemplo, o aumento do fluxo sanguíneo cerebral no córtex orbitofrontal, neostriatum, globo pálido e tálamo, bem como no hipocampo e córtex posterior do giro cíngulo, todos detectados com PET e SPECT cerebrais.

Chama-se Capsulotomia uma técnica cirúrgica neurológica atualmente empregada para o tratamento de casos de TOC incapacitantes e resistentes ao tratamento. No XX Congresso Brasileiro de Psiquiatria de 2002, Nasser JA, Falavigna A, Alaminos A, Fishmann H, Bezerra M, do Instituto do Sono e Neurológico da Universidade Estácio de Sá e do Departamento de Neurocirurgia do Hospital Pró-Cardíaco do Rio de Janeiro apresentaram um trabalho de avaliação da eficácia dessa capsulotomia anterior em pacientes com TOC de difícil controle.

Foram avaliados 12 pacientes com TOC por neuropsiquiatras experientes em indicar a cirurgia e selecionados para serem submetidos à capsulotomia anterior bilateral estereotáxica guiada por imagem.

Houve uma melhora de 70% na média dos casos. A melhora mais significativa, acima deste valor se observa nos casos onde a obsessão é o maior sintoma, com pouca depressão associada e isto está de acordo com a literatura. Não houve complicações permanentes com o procedimento.

Não é infrequente o pacientes alternarem depressão e até algumas psicoses fugazes no primeiro mês de pós-operatório que com o passar dos dias vão sendo dissipadas. A capsulotomia anterior para TOC é um procedimento seguro e eficaz, desde que bem indicado por equipe experiente preenchendo todos os critérios seletivos adequados.

Quadro do TOC

O TOC é uma doença crônica e de evolução muito variável. Ela tanto pode surgir de forma abrupta, após algum evento desencadeante, ou surge insidiosamente sem que esteja associada à algum evento estressor importante. A evolução pode ser com piora, estabilização dos sintomas ou apresentação sob forma de crises episódicas. As características fundamentais dos pacientes portadores do TOC, como dissemos, são as Compulsões e Obsessões. 

Entretanto esses sintomas costumam estar presentes em vários outros quadros psiquiátricos, notadamente nos quadros afetivos depressivos e ansiosos. Algumas características podem ser apontadas como sugestivas desses sintomas serem, de fato, de natureza primária, ou seja, de refletirem realmente um Transtorno Obsessivo-Compulsivo.
 
A chamada dúvida patológica é um sintoma marcante da obsessão. Normalmente o paciente é extremamente inseguro em relação à seu arbítrio, tortura-se diante da possibilidade de fazer ou não fazer, se está certo ou errado. Torna-se, assim, extremamente indeciso e incapaz para decidir-se.

O paciente com TOC, por exemplo, costuma ter também uma preocupação exagerada com eventos pouco prováveis de causar-lhe algum dano, tais como a contaminação, roubo, perdas, etc., preocupações estas que acabam obrigando-o a lavagens, recontagens, rechecagens, etc.

Também o constante sentimento de que algo está ainda faltando, incompleto ou imperfeito acaba fazendo com que esse paciente tenha extrema dificuldade prática para concluir tarefas. Vem dessa incerteza patológica a necessidade de repetição, de lavar novamente, de contar de novo. Acredita sempre que o gás não está bem fechado, que as mão não estão tão limpas, etc.

Portanto, a doença é crônica e seu prognóstico não é bom. Há trabalhos atestando que 20 a 40% dos pacientes não obtém melhora apesar do tratamento médico, 40 a 50% tem melhora moderada e apenas 20 a 30% melhoram significativamente. O bom ajustamento social e profissional ajuda a melhorar o prognóstico. Há casos onde a hospitalização é necessária, principalmente quando o paciente submete-se totalmente às compulsões ao invés de resistir à elas.

Acompanhando a manifestação central ou a ideia obsessiva desse transtorno, deve haver sempre um sentimento de medo e ou ansiedade. Tal sentimento desagradável freqüentemente leva a pessoa a tomar medidas contra a ideia ou impulso inicial, gerando assim o ato compulsivo ou compulsão. 

No distúrbio da Personalidade do mesmo nome isso não acontece e a pessoa é concordante com sua maneira metódica e organizada de ser. Observamos ainda, no Transtorno Obsessivo-Compulsivo, o reconhecimento por parte do paciente, do absurdo e da irracionalidade de suas idéias e de seus atos compulsivos bem como da impossibilidade de combatê-los. Estes fatos, por si só, já são suficientes para proporcionar grande ansiedade.

Kaplan delimita quatro padrões sintomáticos principais no Transtorno Obsessivo-Compulsivo pela ordem de freqüência e que, de fato, constatamos na prática clínica quotidiana:

1- Obsessão de contaminação, seguida de banhos ou da higiene das mãos. O objeto temido é difícil de evitar, como o pensamento sobre urina, fezes, contaminação microbiana, feridas, doenças, sujeira em geral e a compulsão envolve banhos e limpeza. Tais pacientes podem auto-produzir escoriações pela forma exagerada com que se lavam e escravizam-se pelo ritual absolutamente rígido do ato de limpeza. Este é o padrão sintomático mais comum.

2- A obsessão da dúvida seguida da compulsão para verificação é o segundo tipo mais encontradiço. A obsessão de ter negligenciado a prevenção do perigo, como por exemplo, ter deixado o gás aberto, o ferro de passar ligado, a porta da frente destrancada, a torneira aberta, as gavetas e portas semi-abertas, etc., determina complicados mecanismos de verificação e reverificação obrigando o paciente a voltar várias vezes ao mesmo local. Várias são as situações onde o indivíduo obsessivo é incomodado por sentimentos de culpa por ter negligenciado alguma coisa, daí a falsa impressão do perfeccionismo e meticulosidade.

3- Em terceiro lugar vem os pensamentos obsessivos meramente invasivos de temática extremamente variável; pensamentos libidinosos e obscenos dirigidos à objetos de veneração e respeito (santos, mãe, crianças, filhos), agressões que o indivíduo considera condenável. Por ter consciência destes pérfidos pensamentos habitando o seu psiquismo a ansiedade experimentada chega a ser insuportável.

4- A lentidão obsessiva ou pensamento persistente de criteriosa meticulosidade na execução das atividades corriqueiras transformando cada atividade quotidiana numa verdadeira liturgia de perfeição e ordem. As coisas têm que ser feitas assim ou assado e, na dúvida de terem saído imperfeitas são meticulosamente repetidas. As tarefas do dia-a-dia tornam-se demasiadamente morosas e de realização extremamente complexa e cansativa.

Comorbidade

Na realidade paira um dúvida na psicopatologia; seria realmente um caso de comorbidade se estivermos diante de um paciente com depressão mais sintomas obsessivo-compulsivos, ou estes seriam uma sintomatologia atípica da própria depressão?

De qualquer forma é extremamente comum a associação de TOC com transtornos depressivos e ansiosos. Também pode ocorrer essa concordância clínica com a esquizofrenia em aproximadamente 10% dos casos, com o estresse pós-traumático, com a dismorfobia, com transtornos da alimentação (anorexia e bulimia), com a hipocondria, e outros.

A depressão é um achado muito significativo nos obsessivos e esta ocorrência, juntamente com a melhora do quadro através dos antidepressivos sugerem, no mínimo, alguma semelhança bioquímica entre estes distúrbios. Entretanto, até o momento nenhuma das teorias etiológicas pode ser definitivamente confirmada como verdadeira.

Temos ainda que diferenciar o TOC franco com o Transtorno Obsessivo da Personalidade visto como uma maneira metódica, insegura e ritualística de se relacionar com a realidade. Como distúrbio da personalidade, o tipo Obsessivo-Compulsivo (ou Anancástico) não caracteriza ainda um estado mórbido, ou seja, não proporciona ainda sofrimento ou comprometimento significativo na vida de relação ou na capacidade ocupacional. No Transtorno Obsessivo-Compulsivo franco já deve haver alguma inibição da conduta social, conforme apregoa a definição das neuroses.

Transtorno Obsessivo Compulsivo

As obsessões pertencem à esfera do pensamento, das idéias e as compulsões à esfera das ações, dos comportamentos. 
No TOC, as obsessões aparecem como idéias repetitivas e pensamentos que obrigam o indivíduo, muitas das vezes, a desenvolver rituais para se aliviar da angústia provocada por tais pensamentos.

As compulsões são os comportamentos em que o indivíduo se vê obrigado a fazer, repetidas vezes, a mesma ação, como, por exemplo, verificar, várias vezes, se trancou a porta, se desligou o gás, etc.; atitudes como dizer várias vezes as mesmas palavras, rezar, lavar as mãos inúmeras vezes, tomar banho por horas, etc.

Podemos ter as obsessões atuando junto com as compulsões, como no caso do indivíduo que tem a certeza de que se não rezar por três horas seguidas (ação), seu pai poderá morrer (pensamento).

O Transtorno Obsessvo Compulsivo - TOC foi descrito pela primeira vez por Esquirol (Psiquiatra francês) em 1838. 

O que são as Obsessões

As Obsessões são pensamentos, idéias, imagens e impulsos indesejáveis, intrusivos e repetitivos. A pessoa percebe estes pensamentos como sendo sem sentido, inaceitáveis e de difícil controle.

Estes pensamentos, chamados de pensamentos ruins pela pessoa, geram ansiedade, sofrimento e a necessidade de neutralizá-los ou eliminá-los. Esta necessidade de neutralização ou eliminação dos pensamentos, gera a Compulsão.

O que são as Compulsões

As Compulsões são comportamentos ou ações repetitivas como por exemplo: :lavar as mãos várias vezes, tomar banhos prolongados, verificações de portas, janelas, trancas, se estão devidamente fechadas, colocar as coisas em ordem, rezar, contar, esfregar as mãos, piscar os olhos, limpar excessivamente etc...

O ato compulsivo com seus rituais, tem por objetivo diminuir a ansiedade daquele que sofre de TOC, só que o Transtorno apresenta-se de forma circular: as Obsessões desencadeiam as Compulsões, que por sua vez reforçam ainda mais as Obsessões e assim sucessivamente, num encadeamento sem fim.

É uma doença de tipo crônico, em que 50% dos casos desenvolvem-se a partir de uma situação traumática e os outros 50% aparecem sem associação alguma com evento traumático. A doença pode se manifestar de forma abrupta, ou de forma lenta e gradativa. 

O TOC se instala como doença no início da adolescência ou no início da idade adulta, mas também pode se desenvolver a partir da infância. Não existe restrição com relação a classe social, raça e sexo.

Causas do Transtorno Obsessivo-Compulsivo TOC:

Predisposição genética, somada à Transtornos do desenvolvimento infantil e fatores ambientais.

Algumas características do TOC podem ser consideradas como fazendo parte do pocesso natural do desenvolvimento infantil. Por exemplo: são normais alguns rituais da infância como o de colecionar figurinhas, carrinhos, bonecas, andar sempre pisando em determinadas linhas do chão, pedir para o adulto contar a mesma estória dezenas de vezes, contar alto, cantarolar a mesma musiquinha várias vezes, ver o mesmo filme várias vezes. Isto tudo acaba por ajudar no desenvolvimento da criança.

Já em casos em que são observadas atitudes e comportamentos, em que a criança se atrasa porque teve que repetir determinada ação, não consegue sair de casa, apresenta gestual repetitivo com as mãos ou pernas, uma lentidão obsessiva, faz e refaz um dever para chegar a perfeição. Escreve e apaga várias vezes um dever sem conseguir terminar. Nestas situações e outras que os pais observem prejuízos no desenvolvimento de uma rotina saudável da criança, devem buscar ajuda.

Em alguns casos de rituais em adultos, também podem ser aceitos rituais que a mulher desenvolve após o nascimento de seu filho. Desenvolve-se na mãe um estado de alerta que faz com que ela verifique várias vezes como está o bebê. Se está vivo, se está respirando, se está com fome, se está com frio, se está se mexendo. Estas atitudes são muito importantes nesta fase, para a própria sobrevivência do bebê. Torna-se um problema se a partir daí venha a se desenvolver o Transtorno Obsessivo Compulsivo

Pensamentos e Rituais ligados a:

Simetria: alinhamento de objetos, o que se faz para um lado deve ser feito para o outro lado também.

Repetição de frases ou de palavras, senão algo horrível pode acontecer.

Medo intenso de contaminação por bactérias, vírus, toxinas, em banheiros, em banheiros públicos, por pisos, maçanetas, torneiras. Desenvolvem-se formas de lavagens demoradas, banhos prolongados, uso de desinfetantes.

Medo extremo de doenças como Câncer e Aids.

Dúvidas: nunca tem certeza se fez mesmo o que tinha que fazer. Volta ao lugar para verificar, ou faz de novo e de novo ( repetição patológica ). Desenvolvem-se as verificações, rechecagens, recontagens.

Verificações: medo de atitudes e pensamentos agressivos ou violentos contra alguém. Checam tudo com medo de que possam matar alguém ou provocar incêndios. Temem que por sua negligência de não verificar provoquem acidentes horríveis.

Colecionar: Têm tendência a acumular muitas coisas inúteis como: garrafas, revistas, jornais, embalagens, rótulos, livros velhos, pequenos objetos acreditando que possam precisar em algum momento.

Rituais religiosos: precisam rezar por muito tempo, beijar os santos várias vezes e outros tantos rituais para tentar se livrar dos pensamentos pecaminosos.

Indecisão: apresentam dificuldades em concluir tarefas. Podem passar horas pensando se devem fazer alguma coisa ou não. Se devem ir a tal lugar ou não.

Pensamentos sexualizados e obscenos, impulsos incestuosos.

Superstição com números e cores. 

Associação do Transtorno Obsessivo Compulsivo com outras doenças:

Já pode se perceber o envolvimento do TOC com o medo e a Ansiedade. Pode também estar associado à :

Depressão, Fobias, Transtorno do Pânico, Transtornos Alimentares, Distúrbios do Sono, Transtornos de Tiques, Dependência Química.

O Transtorno de Personalidade Obsessiva Compulsiva não pode ser confundido com TOC.

As pessoas que apresentam este transtorno são pessoas escrupulosas, com mania de limpeza, de arrumação, são perfeccionistas, fazem e refazem um determinado trabalho e mesmo tarefas domésticas. Buscam sempre fazer tudo bem e com perfeição.

Apresentam dificuldades para sentir prazer em geral, mas não apresentam obsessões e compulsões. Não apresentam rituais. A pessoa simplesmente é assim.

Algumas Compulsões não são consideradas como TOC, como por exemplo:
  • Sexo compulsivo
  • Jogo patológico
  • Hipocondria
  • Anorexia
  • Bulimia
Não são consideradas como sendo TOC pelo fato da pessoa não ter consciência de que suas atitudes e comportamentos são inaceitáveis, sem sentido, absurdas e inadequadas. Ao contrário do que ocorre no TOC, em que a pessoa tem consciência da inadequação de seus comportamentos e pensamentos.

Consequências do TOC na vida da pessoa

O Transtorno Obsessivo Compulsivo é uma doença que traz um sofrimento muito grande, e apesar disso as pessoas que sofrem do Transtorno levam muitos anos para procurar ajuda.

Algumas consequências:
  • Incapacidade de viver uma rotina normal
  • Destruição das relações familiares
  • Baixa auto- estima
  • Sentimentos de vergonha, de menos valia
  • Necessidade de esconder sua doença e sintomas
  • Prejuízos como: perda de emprego, discriminação, destruição de relacionamentos afetivos (amizades, namoros, casamento )
  • Isolamento e Depressão.


Na Neurose Obsessiva Compulsiva além do processo de Regressão, participam outros Mecanismos de Defesa como:

  • Formação Reativa: em que os medos são substituídos por ações contrárias. Exemplo: o medo de se sujar, é substituído por lavagens constantes. 
  • Os medos sociais são substituídos por rituais sociais. 
  • Os tabus são substituídos por rituais de contato. 
  • O medo de adormecer é substituído por rituais ligados ao sono.
  • Isolamento: é uma proteção contra sentimentos e percepções que ainda não tenham sido colocados em sistemas ou categorias.
  • Anulação de atos ou pensamentos agressivos. A pessoa repete alguma atividade, mas com intenção diferente, na tentativa de anular a idéia anterior. Como exemplo as contagens, as compulsões de simetria, lavar as mãos, verificações.
A Hostilidade

A hostilidade do neurótico obsessivo compulsivo, acaba transparecendo em situações que ele acredita estar protegendo pessoas queridas de riscos imaginários. Chegam a ser tão insistentes e obcecados, que acabam por aborrecer e atormentar estas pessoas, ao invés de protegê-las.

Não suportam mudanças de rotina e de mudanças em seus rituais e sistemas, e querem que as pessoas próximas participem de seu sistema compulsivo.

Isto acaba por gerar irritação e desgaste nas relações familiares, provocando afastamentos e rompimentos.

  • O Pensar Compulsivo
  • Remoer questões abstratas.
  • Fuga das emoções para o mundo dos conceitos e das palavras.
  • Intelectualização, que é a forma encontrada para se fugir das emoções e acaba desencadeando respostas agressivas.
  • Percebe tudo o que as pessoas dizem ou fazem como Perdão, ou como Acusação, Condenação.
  • Induz as pessoas a darem sinais de simpatia ou de desagrado.
  • Seu comportamento é inautêntico e inflexível.
  • O Pensamento e a Fala substituem as emoções ligadas a realidade.
  • O Pensamento tem um poder diferente do que tem para as outras pessoas: são impositivos, abstratos, gerais, dirigidos a sistematização ou categorização, teóricos e irreais.
Comportamento com relação ao tempo:
  • É irracional e compulsivo. 
  • Podem ser morosos e atrasados. 
  • Podem ter medo de começar: tendência a adiar, postergar. 
  • Dificuldade na conclusão de tarefas. 
  • Podem querer que os outros façam tudo por eles, ou ao contrário querem fazer tudo sózinhos.
  • Querem fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Para não “perder tempo”.
A Sexualidade

Podem ver no sexo uma questão financeira ( fantasias de prostituição ) ou de propriedade. Podem ver o sexo como uma questão de resolver um impulso sexual somente.

Atitude Física

Como os pensamentos se encontram isolados das emoções correspondentes, a atitude física também fica isolada das emoções. Aparece, então, rigidez física, frieza, impassividade, espasmo muscular localizado ou generalizado ou, então, frouxidão física.

O Ciclo do Transtorno Obsessivo Compulsivo
  • Remorso por aquilo que fez, penitência, novas transgressões, remorso novamente, penitência, novas transgressões e assim sucessivamente.
  • Se preparam para um futuro que nunca chega. Não vivem o presente. Se apegam aos seus sintomas, já que são conhecidos, temendo as modificações por serem consideradas como perigosas.
  • O medo da mudança também pode gerar atitude inversa. Mudar incessantemente. Ex: nunca terminar uma tarefa e começar outra, começar uma obra e nunca terminar, começar nova obra.
O Transtorno Obsessivo Compulsivo e os Relacionamentos Afetivos.

A pessoa que sofre de TOC, se utiliza das outras pessoas para aliviar seus conflitos internos, assim obscurece os seus verdadeiros sentimentos. O desenvolvimento das relações objetais maduras é muito complicado e difícil. Sua atitude é insegura e ambivalente com relação a si mesmo e em relação aos objetos ( gosta e não gosta, quer e não quer ). Suas emoções apresentam-se de forma inautêntica e morna. Na maior parte das vezes encontram-se isoladas.

Tratamento do Transtorno Obsessivo Compulsivo
  • Para a pessoa que sofre deste transtorno a angústia de não fazer o que a mente impõe, o que o Ego ordena, é pior do que repetir os rituais por dezenas de vezes. Costumam levar muitos anos para procurar tratamento, sempre tentando esconder seus sintomas, seus rituais.
  • A demora no tratamento leva a intensificação dos sintomas. Casos mais recentes apresentam melhor prognóstico, daí a importância de buscar ajuda o quanto antes.
  • Através do tratamento, os sintomas podem ser controlados e minimizados. São utilizados medicamentos prescritos pelo médico psiquiatra, associados a psicoterapia.
  • Com o uso continuado das medicações, os sintomas e a ansiedade vão diminuindo, o que facilita o trabalho psicoterápico.
  • É muito importante no tratamento do TOC, o envolvimento da família, para que ela possa lidar melhor com os sintomas do paciente e também com o seu próprio sofrimento.

Observação: nem todos os Transtornos Obsessivos Compulsivos, apresentam-se da forma descrita anteriormente. O objetivo da descrição é o de dar uma ideia da sintomatologia, para que aqueles que sofram de obsessões e compulsões (rituais), não adiem seu tratamento. Quanto mais cedo, melhores os resultados.