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9/17/2015

Cocaína e BRONQUIOLITE

O que é?

A bronquiolite é uma doença que se caracteriza por uma inflamação nos bronquíolos e que, geralmente, é causada por uma infecção viral.

O ar entra pelo nariz, vai para a nasofaringe, chega até a laringe (cordas vocais) e, já no pescoço, desce por um tubo que se chama traquéia. Dentro do tórax, a traquéia divide-se em dois tubos chamados brônquios - um vai para o pulmão direito e outro para o esquerdo. Cada brônquio, no trajeto dentro do pulmão, vai se ramificando e tornando-se cada vez mais estreito. A estes tubos de ar, diminutos, que espalham o ar nos pulmões chamamos de bronquíolos.

Na bronquiolite, após ocorrer o dano nos bronquíolos, um processo de cicatrização começa a ocorrer.

O processo de reparo do dano pode ter um curso muito variável, podendo levar ao estreitamento ou distorção das vias aéreas (bronquíolos). Os alvéolos, que estão em situação adjacente aos bronquíolos são quase sempre afetados. Eles são responsáveis pela troca dos gases - entra o oxigênio e sai o gás carbônico.

Existem várias causas para a bronquiolite. Dentre elas, estão: 

danos pela inalação de poeiras,
fogo,
gases tóxicos,
cocaína,
tabagismo,
reações induzidas por medicações,
infecções respiratórias.

Com certeza, a bronquiolite após infecções respiratórias é a situação mais freqüente e predomina nas crianças pequenas. Normalmente, afeta crianças de até dois anos de idade, sendo que a maioria dos casos ocorre entre 3 e 6 meses de idade.

O vírus sincicial respiratório (VSR) é o principal microorganismo envolvido nesta doença. Ele pode causar infecções pulmonares também em adultos saudáveis. Estas infecções costumam ser leves, mas, em crianças ou pessoas com fraqueza do sistema de defesa do organismo, podem ser graves.Contudo, a taxa de mortalidade desta doença diminuiu significativamente na última década.

Dentre outros vírus que podem causar bronquiolite estão o parainfluenza, o influenza e o adenovírus.

Como se desenvolve?

O vírus sincicial respiratório (VSR) pode causar infecção no nariz, garganta, traquéia, bronquíolos e pulmões.

A infecção pelo VSR, tipicamente, causa sintomas leves como os da gripe em adultos e crianças maiores. Já nas crianças com menos de um ano, o VSR pode causar pneumonia ou uma infecção freqüente na infância: a bronquiolite.

O vírus sincicial respiratório é muito contagioso e se dissemina de pessoa a pessoa, por meio do contato das secreções contaminadas do doente com os olhos, nariz ou boca do indivíduo sadio. O doente, ao levar sua mão à boca, nariz ou olhos, acaba contaminando as suas mãos e, ao tocar em outras pessoas, a doença se espalha.

O indivíduo sadio também pode se infectar ao respirar num ambiente onde um doente, ao tossir, falar ou espirrar, deixou gotículas contaminadas com o vírus dispersos no ar.

A bronquiolite é uma doença sazonal – é mais freqüente nos meses de outono e inverno.

Dentre os fatores de risco para o desenvolvimento da doença, citamos: 

ter menos que 6 meses de idade
exposição à fumaça do cigarro
viver em ambientes com muitas pessoas
prematuridade – nascimento antes de completar 37 semanas de gestação
criança que não mamou no peito

O que se sente?

Os sintomas mais comuns da doença são: 

tosse intensa;
febre baixa;
dificuldade para respirar - incluindo chiado no peito (sibilância), movimentos respiratórios rápidos ou, até mesmo, apnéia (parada respiratória prolongada entre os movimentos respiratórios);
vômitos (nas crianças pequenas);
irritabilidade;
diminuição do apetite;
cianose - é a coloração azulada da pele que costuma aparecer em torno da boca e na ponta dos dedos, quando a dificuldade respiratória é grave;
dor de ouvido (nas crianças)
olhos avermelhados por uma inflamação conhecida como conjuntivite;
batimento de asas do nariz – movimento das narinas (abrindo e fechando) que ocorre em situações de dificuldade respiratória na criança pequena.

Como o médico faz o diagnóstico?

O diagnóstico é feito através do exame do paciente, dos sintomas referidos por ele ou pelos seus pais. A radiografia do tórax poderá ajudar a firmar o diagnóstico ou descartar outros. Existe um exame da secreção do nariz ou dos pulmões que pode confirmar a presença do vírus sincicial respiratório.

Como se trata?

Adultos e crianças grandes com infecção pelo VSR geralmente não precisam de tratamento.

Medicações para alívio dos sintomas podem ser utilizadas. Contudo, nenhuma medicação tem se mostrado realmente eficaz para mudar a evolução de uma bronquiolite por VSR.

Crianças pequenas podem necessitar de internação em hospital para tratamento e acompanhamento do curso da doença. O tratamento é de suporte, utilizando oxigênio. Há a possibilidade de se usar a adrenalina por inalação com bons resultados. Broncodilatadores (que podem facilitar a entrada e a saída do ar dos pulmões) e corticóides (potentes anti-inflamatórios) podem ser usados na tentativa de melhorar a situação. Todavia, vários estudos não demonstraram benefício nesta situação. Casos graves em crianças pequenas podem evoluir para insuficiência respiratória e requerer ventilação mecânica, onde um aparelho ajuda a manter a respiração da criança

Em casos graves, estas crianças poderão receber também um medicamento que combate o vírus: a ribavarina. Esta medicação não é usada como rotina no tratamento, somente em casos especiais, solicitada pelo médico. Se usada precocemente no curso da doença, os sintomas podem desaparecer dentro de uma semana e a dificuldade na respiração melhora em torno do terceiro dia.

Normalmente, os sintomas da doença desaparecem dentro de uma semana e a dificuldade na respiração melhora em torno do terceiro dia.

Contudo, um grande número de crianças, depois de uma provável crise de bronquiolite por VSR, continuam com chiado no peito intermitente assim como ocorre na asma. Esta é chamada de sibilância recorrente pós-bronquiolite. É uma situação problemática que necessita do manejo criterioso do seu médico.

Como se previne?

Evitar contato com as pessoas doentes poderá prevenir alguns casos, já que sabemos que a infecção por este vírus, algumas vezes, ocorre de forma epidêmica em comunidades.

A lavagem freqüente das mãos também ajuda a prevenir novos casos da doença.

As crianças que freqüentam creches enfrentam um risco maior devido ao contato com outras crianças infectadas.

A maioria dos casos de infecção pelo VSR não tem como ser prevenida. Até o momento, não existem vacinas disponíveis. Contudo, existem medicações – como a imunoglobulina anti-VSR - que podem ser utilizadas naquelas crianças com grande risco de desenvolver tal doença. Informe-se com seu médico se sua criança poderá se beneficiar com o uso de tais medicações.

9/15/2015

O uso de cocaína e suas consequências: comunicação buco sinusal

Segundo relatório do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, na sigla em inglês), apesar dos avanços feitos pelo Brasil na área do tratamento em dependentes químicos, o consumo de cocaína a crack no país vem aumentando. Além dos riscos já amplamente conhecidos do consumo da droga, existe outro que pode causar graves problemas: a comunicação buco-sinusal.

Para transformar a pasta de coca no pó de cocaína é preciso fazer uso de produtos como éter, ácido sulfúrico e gasolina. No momento do consumo, o contato da droga com a mucosa pode causar isquemia e ulceração. O uso contínuo pode levar à necrose da mucosa, do osso e da cartilagem do nariz.


Outras complicações do uso da cocaína incluem rinite crônica, sinusite, sangramento nasal, ossificação ou necrose do septo nasal e em casos raros a perfuração do palato. No caso visto na imagem abaixo, um paciente com 25 anos de idade e usuário há 5 anos, apresentava regurgitação da comida pelo nariz e foi descoberta esta enorme perfuração.

Com o tempo o consumo da droga pode causar a destruição e a perfuração do septo nasal, das coanas e das paredes dos seios nasais. A vezes este “buraco” entre a boca e o nariz pode ser aberto em poucos meses. A imagem abaixo mostra uma úlcera crônica com 15x17 mm em uma mulher com 48 anos. 

A perfuração evoluiu para este estado em apenas 2 meses. A paciente, que fazia uso de cocaína há 1 ano, já apresentava a ausência do septo nasal.


Um paciente com 36 anos sentiu que em duas semanas uma perfuração em seu palato duro estava lentamente aumentando. Ele era usuário de cocaína e o defeito já tinha cerca de 3 milímetros de diâmetro.





A imagem  mostra uma perfuração no palato mole de um paciente com 42 anos, usuário de cocaína.

As imagens abaixo mostram o tratamento feito para o fechamento de lesões no palato mole de duas mulheres, com 25 e 42 anos respectivamente. Os defeitos apresentavam algum grau de erosão do palato duro associado mas sem perfuração septal.




      

Conheça seis drogas que prejudicam os dentes

Os vilões da saúde bucal estão por todo canto. Alguns já são velhos conhecidos, como o fumo e as drogas, outros, apesar de terem sua função para o organismo, podem prejudicar a boca – é o caso dos medicamentos. Para esclarecer os malefícios de cada uma dessas substâncias, o estomatologista Wagner Seroli, da Associação Paulista de Cirurgiões-Dentistas (APCD), explica as consequências do uso e como se prevenir.

Fumo 
O cigarro provoca manchas nos dentes e na língua, reduz a sensibilidade do paladar, diminui a capacidade de recuperação após uma cirurgia ou procedimento odontológico e aumenta o risco de doenças da gengiva e de perder os dentes. Ao se tratar de câncer de boca, os riscos também são grandes. Associado ao álcool, a chance de desenvolver a doença é trinta vezes maior. “Apesar de todas as campanhas de combate ao fumo, no Brasil há cerca de 30 milhões de fumantes”, diz Seroli.

Medicamentos 
Segundo a APCD, estimativas sugerem que 40% das pessoas ingerem ao menos um tipo de medicamento diariamente, que pode prejudicar os dentes. Na lista desses remédios estão os contraceptivos, medicamentos de câncer, anti-histamínicos (alergia), remédios para tratamento de asma e xaropes. “Alguns medicamentos para asma são altamente ácidos e podem afetar o esmalte dos dentes com seu uso prolongado, já os xaropes contêm muito açúcar nas formulações, o que aumenta o risco de cáries se o paciente não escovar os dentes logo após a ingestão”.

Seroli explica que algumas substâncias também costumam reduzir a produção de saliva, o que causa xerostomia, mais conhecida como ‘boca seca’. “Como uma das funções da saliva é controlar a população de bactérias na boca, sem essa proteção, aumentam as chances de a pessoa desenvolver mais cáries, inflamações e infecções na gengiva, sem mencionar o impacto negativo no estado geral de saúde do paciente”, afirma o especialista.

Cocaína 
Quando os usuários esfregam cocaína nos dentes e na gengiva, ela resulta numa solução ácida, e provoca erosão do esmalte dental, ou seja, a perda de tecido duro da superfície dos dentes. “Essa perda é muito agressiva e pode desencadear dor, sensibilidade exagerada e comprometer a aparência do paciente”.

Crack 
Fumado em ‘cachimbo’, o crack é muito agressivo à saúde oral. Ao entrar em contato direto com a boca, a fumaça danifica o esmalte, a gengiva e os nervos.

Ecstasy 
“A droga do ‘amor’ deveria ser conhecida como a droga da ‘dor’”, considera Seroli. Isso porque o ecstasy predispõe o usuário a sofrer de boca seca e bruxismo, que é o ranger involuntário dos dentes durante o sono. “Toda estrutura da arcada dental pode ser prejudicada se não tratada adequadamente”, alerta.

Metanfetamina 
Uma droga altamente ácida e uma das mais agressivas para os dentes, já que provoca cárie em um curto espaço de tempo. “Outros efeitos incluem boca seca, bruxismo e problemas mandibulares”.


Alerta para o câncer 
Pessoas com mais de 40 anos, que fumam, usam drogas ou bebem muito, precisam ficar atentos a: 
  • - machucados constantes 
  • - histórico de câncer oral na família 
  • - aparecimento de feridas que não cicatrizam dentro de uma semana 
  • - manchas brancas, vermelhas ou pretas 
  • - carnes crescidas, caroços e bolinhas escuras
“Enquanto algumas pessoas manifestam dificuldade para falar, mastigar e engolir, em estágios mais avançados da doença, no início, os sinais podem passar despercebidos, daí a importância de um autoexame regular e visita regular ao dentista”, recomenda Seroli.

A cocaína e suas consequências


Na década de 80 ela chegou a ser chamada de "caviar das drogas", em razão de seu consumo generalizado pelos endinheirados executivos americanos, os "yuppies". Em 1996, só nos Estados Unidos, havia 14 milhões de viciados em cocaína, que consumiam regularmente 400 toneladas da droga por ano. O que faz a cocaína ?

Como vício a cocaína é consumida na forma de cloridrato, sendo absorvida por via oral ou nasal. Chegando à corrente sanguínea a droga começa a atuar em três neurotransmissores cerebrais: a serotonina, a norepinefrina e, principalmente, a dopamina. Esses neurotransmissores é que permitem que um neurônio (célula nervosa) mande uma mensagem a outro, já que eles não se tocam. 

Num processo normal, a dopamina leva a mensagem de um neurônio a outro e depois é reabsorvida pela célula de origem. A cocaína impede essa reabsorção, obrigando a dopamina a continuar estimulando as células nervosas, gerando uma alta estimulação neurológica que leva o nome de "euforia cocaínica", com a conseqüente exaustão das reservas de neurotransmissores (Guardadas as devidas proporções, o processo é idêntico ao causado pelos antidepressivos tricíclicos. 

A cocaína também potencializa os efeitos dos neurotransmissores noradrenalina e serotonina). O corpo leva de 15 minutos a uma hora para metabolizar a droga. A cocaína não apenas impede a reabsorção do neurotransmissor, mas também destrói ou queima os receptores pós-sinápticos.
efeitos causados

O usuário pode apresentar sintomas psicóticos: irritabilidade e inquietação constantes, alucinações visuais aterradoras, desconfiança de tudo e de todos, delírios, crises de medo. No geral, há pelo menos 47 sintomas ou sinais catalogados decorrentes da intoxicação por cocaína em suas várias fases…

Outros pesquisadores catalogam ainda os seguintes sintomas ou sinais que a cocaína provoca: ansiedade, irritabilidade, violência, apatia, preguiça e letargia, comportamento compulsivo, problemas de concentração, confusão mental, problemas de memória, tremores (associados tanto com o uso quanto como o afastamento da droga), desinteresse nos relacionamentos com a família e com os amigos, extrema agitação, ataques de pânico, negligência pessoal, desconfiança de amigos, familiares, cônjuges e colegas de trabalho, estado psicótico semelhante à esquizofrenia paranoide, com delírios e alucinações. 

A cocaína causa nos usuários a diminuição da fadiga, da fome e da sensibilidade à dor. Grandes doses podem causar parada do coração e morte. Eventualmente provoca febre (devido à problemas respiratórios na inalação). É causa de infecções bacterianas do nariz e da garganta, boca seca, tosse, convulsões, tonturas, enxaquecas com diferentes graus de severidade, náusea, dores abdominais, insônia, hipertensão, hemorragia cerebral (quando a hipertensão rompe os vasos do cérebro), arritmia cardíaca, coagulações e infecções cardíacas. 

A longo prazo os efeitos são a dependência e lesões cerebrais. Há um adelgaçamento do córtex cerebral, devido provavelmente a uma isquemia microscópica nessa zona. As mucosas nasais ficam corroídas. A droga provoca perda de peso e alterações hormonais, 14% dos consumidores têm pelo menos uma crise convulsiva, independentemente da dose tomada. De acordo com um estudo, o fumante de pasta de cocaína passa por quatro fases distintas no consumo da droga; isso, naturalmente, se não morrer antes de "overdose":

1ª fase – Euforia cocaínica: excitação, hipersexualidade, inapetência, hipervigilância, instabilidade emocional, insônia.
2ª fase – Disforia cocaínica: angústia atroz, inapetência, insônia, indiferença sexual, apatia, tristeza, melancolia, agressividade.
3ª fase – Alucinose cocaínica: alucinações (visuais, auditivas, táteis, olfativas), excitação psicomotora, indiferença sexual.
4ª fase – Psicose cocaínica: ilusões paranóides, mania de perseguição, insônia, depressão, tentativas de suicídio e homicídio, alucinações (auditivas e olfativas), hipervigilância.

Os sintomas da 4ª fase são comuns entre usuários de grandes doses de cocaína, e mais ainda naqueles que fazem uso da associação álcool-cocaína. O dependente faz associação com outras drogas, como o álcool e tranqüilizantes, para contrapor efeitos excessivamente estimulantes da cocaína. Nos Estados Unidos e Europa é comum a combinação com opiáceos; os viciados "sobem" com a cocaína e "baixam" com a heroína, prática essa denominada de speed boinling. 

A overdose geralmente ocorre na fase inicial estimulatória de toxidade, (ataques, hipertensão e taquicardia) ou na fase posterior de depressão, culminando em extrema depressão respiratória e coma. Com a disseminação do uso endovenoso, existem riscos de coagulação do sangue com danos às veias, inflamação do fígado, inflamação da membrana que reveste a medula espinhal e o cérebro, alterações visuais, pupilas dilatadas, clarões de luz na visão periférica, perda do apetite, anorexia e perda de peso, padrões alternativos de prisão de ventre e diarreia, e dificuldade para urinar. 

A cocaína danifica o cérebro ao produzir um estreitamento dos vasos sanguíneos, que pode até ser fatal. Estudos mostraram que a cocaína afeta tanto a composição do sangue quanto os vasos por onde ele circula, aumentando os riscos de formação de coágulos. Há um aumento de 6% superior às concentrações normais. Isso significa que o sangue fica mais viscoso e circula com maior dificuldade por veias e artéria. 

A concentração de uma proteína conhecida como fator de Von Willebrand, ligada à coagulação sanguínea, também aumenta. A taxa supera em até 40% os índices normais num período de apenas meia hora. Essa situação persiste por quatro horas, aumentando drasticamente o risco de as plaquetas se acumularem nas paredes internas dos vasos e formarem coágulos. “É o mesmo que praticar uma roleta-russa. 

O estreitamento dos vasos carrega a arma, o espessamento do sangue coloca o gatilho em posição e o fator Willenbrand é o disparo”. Como resultado dessa combinação, os riscos de uma pessoa sofrer um infarto logo após o consumo de cocaína aumenta em 24 vezes. Derivados Em fins da década de 70 surgiu droga derivada da cocaína ainda muito mais poderosa e mortífera, e também muito mais barata: era o "crack". 

Sua popularização, porém, só se deu na década de 90. O crack é um derivado químico da pasta de cocaína, sendo oferecido na forma de pequenas pedras que são fumadas em cachimbos improvisados. Provoca intensa euforia e sensação de poder. A dependência é quase imediata: com cinco "pipadas" a pessoa já está viciada. Assim como a cocaína comum, o crack também atua bloqueando a reabsorção de um neurotransmissor, a copamina. 

Para os viciados em crack a droga passa a ser literalmente tudo em suas vidas. Muitos chegam a ficar procurando pelo chão alguma pedra perdida, seja onde for, e fazem qualquer coisa para obter dinheiro e conseguir aplacar a necessidade de consumo. Começam vendendo tudo o que é seu ou de seus parentes, depois passam a roubar e se prostituir, e por fim matam se for necessário. O viciado se degrada tão profunda e rapidamente, e de modo tão visível, que, ao contrário do que acontece com as outras drogas, ele tem plena consciência que a sua transformação é devida ao crack. 

Em fins de 1997, descobriu que o entorpecente mais procurado na capital do país era um novo tipo de droga obtida da pasta da coca: a "merla". Em laboratórios improvisados de Brasília, a pasta vinda da Bolívia, Colômbia e Peru é "enriquecida" com ácido sulfúrico, querosene, gasolina, benzina, metanol, cal virgem, éter e pó de giz. 

De acordo com uma pesquisa realizada na época, 68,7% dos usuários de merla roubavam para poder sustentar o vício, 17% se envolviam com o tráfico para poder adquirir a droga e 20,5% haviam tentado se matar para fugir da síndrome da abstinência ou da depressão causada pelo uso continuado. A merla destrói grande número de neurônios (células cerebrais), prejudica a memória e a coordenação motora, podendo causar hepatite tóxica e fibrose pulmonar e, assim como a cocaína, provoca taquicardia e em casos extremos até parada cardíaca.

"O vinho de coca, uma preparação feita à base da planta, foi considerado durante muito tempo uma bebida reconstituinte e reconfortante, que dotava os apreciadores de novas energias. Foi um verdadeiro modismo, elegante mesmo, o uso desse vinho. As mais altas autoridades da Europa, príncipes e reis, primeiros-ministros, nobres, etc., eram os principais apreciadores. Houve até um papa que agraciou com uma medalha o principal fabricante desse vinho."

"A guerra contra as drogas acabou. As drogas venceram." Este o título de um artigo publicado no jornal The Washington Post por Patrick Murphy, ex-chefe de polícia da cidade de Nova York. Segundo Patrick, "o comércio de drogas é hoje um dos mais bem sucedidos empreendimentos, com lucros que podem chegar a US$ 150 bilhões neste ano [1995]."

Os índios andinos, quando expostos à fome e ao cansaço, para diminuir essas sensações desagradáveis, aprenderam a mascar uma espécie de chiclete, feito de folhas de coca misturadas com cal (óxido de cálcio), obtida de conchas marinhas. A cal ajuda a liberar a cocaína das folhas, e reduz o sabor amargo delas.

Embora esse tipo de uso date de milhares de anos, até hoje se discute se, ingerida assim, a coca induz ou não dependência e tolerância, se os nativos dos Andes, que usam a droga desse jeito, devem ou não ser considerados viciados.

Quando a Coca-Cola foi lançada nos Estados Unidos, em 1888, sua propaganda anunciava que ela continha um "marcante agente terapêutico, capaz de aliviar a dor de cabeça e a fadiga". Parece que a primeira fórmula da bebida incluía uma certa dosagem de cocaína, mas esta foi retirada depois que se fez uma lei, naquele país, tornando obrigatória a apresentação, na embalagem, de todos os ingredientes dos alimentos e remédios colocados à venda.

No começo do século, a cocaína era usada em medicina, sob a forma de pomada ou ungüento de xilocaína, como um anestésico local, de mucosa, para pequenas cirurgias do ouvido, nariz, gengivas, garganta, reto e vagina. Sua ação se fazia sentir, no local, depois de um minuto, e o efeito perdurava por aproximadamente duas horas.

Na década de 40, a xilocaína foi substituída pela procaína, substância sintética que tinha as mesmas propriedades anestésicas, mas era menos tóxica, além de não ser viciante. Atualmente, a lidocaína tomou o lugar da procaína, por ser mais facilmente metabolizada e ter menos efeitos colaterais.

Entretanto, a substância ativa só é absorvida por mucosas, não penetra pela pele. Assim, usar pomada de xilocaína ou lidocaína para arrancar sobrancelhas sem dor é conversa fiada, só pode ter efeito psicológico.

A cocaína atua através de dois mecanismos diferentes. O efeito estimulante resulta da ação da droga sobre as sinopses, o espaço entre dois neurônios, enquanto o efeito anestésico ocorre dentro dos neurônios, onde a cocaína dificulta a passagem do estimulo. Com isso, a propagação do impulso nervoso fica interrompida e a mensagem com a informação sobre a dor fica pelo caminho, isto é, não consegue atingir o cérebro.

Quando injetada ou aspirada, sob a forma de pó, a cocaína tem sobre o cérebro o efeito de um estimulante típico: ao bloquear a reabsorção de neurotransmissores, depois que esses são liberados nas sinopses, a droga faz com que a ativação do sistema nervoso se mantenha por mais tempo. uso repetido, dentro de um curto período, pode provocar convulsões.

Houve surtos de uso ilegal da droga, no início do século, no Brasil e no mundo. Depois, a cocaína foi sendo gradativamente abandonada e seus usuários passaram a preferir as anfetaminas, que podiam ser compradas em farmácias, o que era mais fácil do que cair nas mãos dos traficantes. Além disso, por serem sintetizadas em laboratórios) as anfetaminas são mais seguras e podem permitir um controle melhor da dosagem consumida.

Entretanto, na década de 80, houve um retorno ao vício antigo. Em 1985 (último ano cujos dados foram publicados), foram consumidas, nos Estados Unidos, 72 toneladas de cocaína. No Brasil, em 1987, numa clínica especializada no tratamento de dependentes de drogas, no interior de são Paulo, 63% dos pacientes internados tinham usado cocaína. E há sinais claros de que, entre estudantes brasileiros, a escalada continua.

A cocaína é muito versátil, quanto à forma de consumo. O chá, preparado com as folhas de coca, ainda é usado. No Peru, existe até o Instituto Peruano de Coca, semelhante ao extinto Instituto Brasileiro do Café, que controlava a autenticidade do produto. Em alguns hotéis, o chá de coca é servido como ritual de boas-vindas.

Entretanto, nessa forma de ingestão, pouca cocaína passa para o sistema nervoso. A quantidade de droga contida no chá é mínima, e essa, ao ser absorvida no intestino, entra no sangue e é quase toda destruída no fígado e não chega ao cérebro.

A cocaína se presta a fazer chá por ser solúvel em água. Ora, essa mesma propriedade é que lhe confere a versatilidade quanto ao modo de usar: pode ser inalada (pois se dissolve na umidade da mucosa nasal), injetada (forma pela qual chega mais depressa ao cérebro), colocada debaixo da língua (de onde é absorvida pelos vasos sanguíneos dessa área) ou fumada (sob a forma de crack).

Cada uma das vias pelas quais se consome a cocaína produz efeitos ligeiramente diferentes, quanto à intensidade e duração. Mas a sensação provocada é a mesma: euforia rápida e intensa, indiferença à dor e ao cansaço, diminuição da fome, excitação, insônia.

Experiências feitas com ratos, que recebiam cocaína cada vez que acionavam uma alavanca, mostraram que os animais preferiam receber a droga a se alimentar ou beber água. Em alguns casos, eles continuaram a pressionar a alavanca para receber cocaína até a morte, sob o efeito de violentas convulsões

Por seus efeitos, essa droga seria ideal para escravos, já que permite que a pessoa trabalhe muito, comendo pouco e dormindo menos ainda. Assim, ao contrário da maconha, que, quando foi introduzida, era um símbolo da contestação à autoridade, a cocaína é a droga escolhida por aqueles que estão engajados na ideologia do Sistema, na luta pelo sucesso nessa sociedade competitiva.

Seus efeitos estão muito próximos do ideal de sucesso e de bem-estar em nossa cultura: o prazer rápido e intenso, a sensação de poder, a superação das necessidades e contingências que nos fazem humanos, como a fome, o cansaço, a tristeza.

Não é por acaso que essa é a droga predileta dos jovens executivos que procuram o caminho do sucesso. Sob seu efeito, parece que fica mais fácil tolerar as regras do jogo do poder, mantendo, ao mesmo tempo, a sensação de que se está acima de todas essas coisas pequenas e mesquinhas.

A cocaína dá realce ao super-homem que habita cada um de nós. Só que não reforça o lado justiceiro e protetor do personagem: ela amplia apenas a sensação de poder. Pelo menos, enquanto dura seu efeito. Quando ele passa, surge um Clark Kent ainda menor, mais enfraquecido, mais tímido.

Há, porém, o reverso da medalha. A pessoa que usa a droga tende a ficar irritadiça, ranzinza, agressiva, e pode cair numa depressão tão profunda que às vezes leva ao suicídio. Existe até um quadro psicótico típico, provocado pela droga (do qual foi vítima o amigo de Freud), caracterizado por explosões de raiva e surtos de violência. Na maioria das vezes, as perturbações perduram por algumas horas ou alguns dias, mas existem casos em que essas condições voltaram a aparecer muito tempo depois, mesmo sem o uso da droga. Embora sejam raros, existem casos em que essas perturbações se tomaram permanentes.

A obsessão em repetir a experiência parece estar mais ligada ao fato de que a sensação de prazer é, ao mesmo tempo, intensa e efêmera, isto é, desaparece quase imediatamente. É como se, o tempo todo, o sujeito vislumbrasse o paraíso, sem jamais conseguir penetrar nele.

Não há nenhum sentido em alimentar a polêmica entre os que garantem que a droga é altamente viciante e os que apresentam dados muito confiáveis para demonstrar que ela não desenvolve tolerância nem dependência física.

No caso da cocaína, o mais importante não é isso. O que faz com que ela seja uma droga especialmente perigosa é a freqüência com que provoca acidentes fatais - muitas vezes numa única experiência.

Se a dose tomada de uma só vez for alta, pode desencadear convulsões. A pressão arterial pode subir rapidamente, acompanhada de taquicardia, o que sobrecarrega o coração, provocando a fabricação ventricular, condição extremamente grave que muitas vezes leva à morte, se não houver socorro imediato.

O exagero da dose pode ser proposital - na ânsia de repetir vezes sem conta a sensação prazerosa, a pessoa perde a mão - ou pode ser acidental, quando o pó tem um grau de pureza maior do que o costumeiro. As pessoas acreditam, erroneamente, que a dosagem é determinada apenas pela quantidade de pó aspirado, esquecendo-se de que isso depende.

Além dos efeitos provocados diretamente pela bioquímica da cocaína, há outros, ligados à maneira como a droga é consumida. Assim, a aspiração pode resultar, a longo prazo, em feridas no interior do nariz e na garganta, sinusite, rouquidão e, ocasionalmente, ruptura da cartilagem do nariz.

O hábito de injetar cocaína deixa o usuário exposto aos riscos de contaminação, já que, nessas situações, o processo de esterilização da agulha é negligenciado. As pessoas costumam partilhar a mesma seringa e, às vezes, até a mesma agulha, no afã de aproveitar a droga. Isso abre uma porta para as infeções que se transmitem pelo sangue, como hepatite, malária, endocardite ou AIDS.

A cocaína é a campeã das combinações explosivas. É claro que a perda de controle induzida pela droga pode levar a pessoa a perder a mão em tudo: na agressividade, na conversa, na bebida. A intromissão do álcool no circuito da cocaína pode ter um efeito devastador, inclusive por motivos fisiológicos. 

Tanto o álcool quanto a cocaína são metabolizados no fígado, mas, se ambos estiverem presentes na circulação sanguínea, o álcool é metabolizado primeiro, e a cocaína pode, então, ficar circulando, sem transformações, por um tempo maior, o que toma seu efeito muito mais perigoso, principalmente sobre o coração.

Outra mistura perigosa é de cocaína e maconha, pois seus efeitos sobre o músculo cardíaco são antagônicos: uma é estimulante e a outra é relaxante.

Como a cocaína é uma substância cara, é comum os traficantes acrescentarem diferentes pós brancos, de consistência semelhante à dela. Alguns desses aditivos são inocentes e só fazem atenuar o efeito da droga (o açúcar, o talco e o bicarbonato de sódio são aditivos freqüentes). Mas há outros aditivos que podem ser perigosos, como o pó de vidro, de mármore ou de lidocaína.

Os testes para determinar o grau de pureza da cocaína não são tão simples como o cinema insiste em mostrar e as condições em que se dá a compra desse material geralmente não favorecem o exame detalhado da mercadoria, de modo que esse risco adicional faz parte do jogo.

E os traficantes não costumam aceitar reclamações posteriores, nem devolução de mercadoria. Aliás, não são nem mesmo encontráveis, depois de terem entregado uma mercadoria que tenha provocado um acidente. Insistir em encontrá-los pode provocar novos acidentes, quase sempre fatais.

Uma overdose de cocaína é uma emergência perigosa, muitas vezes fatal. Os acidentes são mais comuns do que se acredita. Apesar do estardalhaço que a imprensa faz com alguns casos, a maioria das mortes por overdose de cocaína não chega aos noticiários. Mesmo para os amigos e parentes, a família costuma atribuir essas mortes a parada cardíaca, de origem desconhecida.

Então, numa emergência, o socorro tem de ser imediato e especializado. Não hesite em procurar ajuda médica, em levar o amigo para um pronto-socorro. Ao contrário do que se diz, o médico não tem obrigação nenhuma de notificar casos de overdose à polícia. Na verdade, você tem o direito de exigir anonimato: o médico está preso ao compromisso de sigilo que cobre seu trabalho.

Entre um nariz e uma fileira de pó estão coisas que ninguém quer ver, que as pessoas insistem em fingir que não existem ou que não têm nada a ver com elas. Estou falando das coisas que qualquer um ajuda a sustentar, quando compra um grama de pó. Estou falando do submundo que vive da droga, que depende desse comércio e é sustentado por ele: os cartéis e assassinatos, os campos de pouso clandestinos e as queimadas das florestas. Estou falando de violência, de destruição, de miséria - de males contra os quais lutamos, levantamos bandeiras, fazemos passeatas e fundamos partidos políticos.

Quem compra um grama de cocaína está, na verdade, colaborando com toda essa rede de iniquidades. Mas as pessoas tentam se convencer de que não têm nada com isso. Como os que continuam achando que é um grande negócio comprar um toca-fitas de carro, baratino, sem nota fiscal, nem nada. Se calhar, estão até comprando o mesmo aparelho de som que tinha sido roubado de seu carro ainda outro dia.

Região orofacial e cocaína


Mais da metade daqueles que inalam cocaína apresentam sangramento nasal, rinite e sintomas crônicos de sinusite. Perfuração do septo nasal é observada em cerca de 5% dos usuários. Na verdade, o efeito vasoconstritor da cocaína induz isquemia local que, por sua vez, pode induzir necrose do septo nasal e tecidos adjacentes. Também, os adulterantes que podem existir junto com a cocaína, tais como talco, quinino, anfetaminas, lidocaína, procaína etc, complicam ainda mais as lesões. Da mesma forma, o palato (céu da boca) pode ser intensamente atingido pela cocaína, incluindo o surgimento de perfurações e fístulas, o que prejudica a articulação da linguagem e o regime alimentar.

Usuários de cocaína frequentemente sofrem de bruxismo (ranger de dentes noturno durante o sono), comumente produzindo dor na articulação temporomandibular e músculos mastigatórios. Desgaste dos dentes caninos e incisivos tem sido observado entre usuários crônicos da droga. Também, dissolvida na saliva, a cocaína diminui o pH da boca, aumentando o risco de dissolução de minerais dos dentes (hidroxiapatita). Retração gengival e boca seca têm também sido observadas entre usuários da droga.

7/31/2015

Cocaína Envelhece o Cérebro Prematuramente

Apesar de a cocaína fazer com que os usuários se sintam mais alertas e dispostos por instantes, a longo prazo ela pode deixar o cérebro das pessoas muito mais lento. Um novo estudo mostra que o uso crônico da droga envelhece regiões-chave do cérebro mais rapidamente. As descobertas foram publicadas on-line pela Molecular Psychiatry.

Usuários regulares de cocaína geralmente experimentam declínio cognitivo prematuro e atrofia cerebral. Agora, a nova pesquisa mostra como eles estão, de fato, perdendo massa cinzenta cerebral de forma acelerada.

“Conforme envelhecemos, naturalmente perdemos massa cinzenta”, reforça Karen Ersche, do Instituto de Neurociência Clínica e Comportamental da University of Cambridge e co-autora do trabalho. “Já usuários crônicos de cocaína perdem massa cinzenta a uma taxa significativamente maior, o que pode ser um sinal de envelhecimento precoce”, alerta. 

Karen e seus colegas usaram imagens de ressonância magnética para estudar o cérebro de 60 pessoas entre 18 e 50 anos que declararam usar cocaína, comparando com imagens cerebrais de 60 voluntários saudáveis, com idade e QI semelhantes, que não usavam a droga. Eles descobriram que em geral os participantes saudáveis perdiam aproximadamente 1,7 mm de massa cinzenta por ano, enquanto usuários de cocaína perdiam cerca de 3,1 mm.

Esse último grupo perdeu muito mais massa cinzenta nas regiões pré-frontal e temporal, áreas responsáveis pelo controle da memória, pela tomada de decisões e pela atenção, do que os outros voluntários.

A descoberta traz uma nova interpretação sobre “a razão de o déficit cognitivo típico da terceira idade ter sido observado frequentemente em usuários crônicos de meia idade”, observa Karen. Mesmo após os pesquisadores excluírem 16 pessoas que, além do uso de cocaína ingeriam álcool com frequência, a tendência à perda acelerada permaneceu. 

Dos aproximadamente 21 milhões de usuários de cocaína registrados no mundo, cerca de 1,9 milhão vivia nos Estados Unidos em 2008. E o maior grupo, segundo o National Institutes of Health, era composto por pessoas de 18 a 25 anos. “Os jovens usuários precisam ser alertados também sobre o risco de envelhecimento precoce”, alerta Karen.

Neuropsicologia do Uso Crônico da Cocaína

Autor: Paulo J. Cunha



Introdução

A cocaína é uma substância psicoativa que atua no sistema de recompensa cerebral (brain reward system), através da recaptação de neurotransmissores tais como a noradrenalina, serotonina e dopamina. Embora outros neurotransmissores também estejam envolvidos no processo, acredita-se que o bloqueio da recaptação da dopamina leva a um aumento da concentração deste neurotransmissor na fenda sináptica (espaço entre os neurônios), fenômeno responsável pelas sensações de euforia e prazer associadas ao uso da droga (Nathan et al., 1998). 

Em longo prazo, no entanto, acredita-se que ocorra uma diminuição na disponibilidade de neurotransmissores e comprometimento de receptores, processos que podem estar associados à anedonia (ausência de prazer), ansiedade, diminuição da energia e vários problemas cognitivos (Lacayo, 1995; Cadet e Bolla, 1996; Baumann et al., 2004). Este texto tem o objetivo de revisar os principais achados neste campo, assim como o impacto das alterações neuropsicológicas no tratamento dos dependentes de cocaína. 

Efeitos neuropsicológicos crônicos do uso da cocaína

Em uma época em que a cocaína era vista pela sociedade médica como uma droga incapaz de provocar dependência, Washton et al. (1984) realizaram um levantamento, a partir de um serviço de ajuda telefônica para usuários de cocaína, englobando 500 indivíduos, que detectou não apenas problemas sociais, físicos e psicológicos, como também uma prevalência alta de queixas cognitivas: a parcela de 65% referiu dificuldade de concentração e 57% relatou problemas de memória. 

Anos depois, vieram os estudos com bases mais sólidas e com a utilização de testes neuropsicológicos. Ardila et al. (1991) estudaram 37 dependentes de cocaína, internados, com a média de 30 dias em abstinência, usando uma bateria neuropsicológica básica e comparando os resultados com tabelas normativas dos testes. 

Encontraram um prejuízo neuropsicológico moderado nos pacientes, em tarefas de memória verbal, visual, atenção, nomeação e capacidade de abstração. Foi observado também que quanto maior a quantidade de uso da droga durante a vida, pior o desempenho neuropsicológico. 

Berry et al. (1993) estudaram 16 dependentes de cocaína, internados para tratamento, em dois momentos: 72 horas e 14 dias após a abstinência, comparando-os a 21 controles, pareados em idade, sexo, raça e educação. Verificaram que o uso recente de cocaína estava relacionado a prejuízos na memória, habilidades viso-espaciais e concentração, durante a fase inicial da retirada da droga, e que estes persistiam por pelo menos duas semanas após a cessação do uso. 

A despeito de os dois grupos terem obtido uma melhoria significativa na maioria das medidas neuropsicológicas, os sujeitos dependentes falharam em demonstrar um grau de recuperação similar aos controles, principalmente nas tarefas de velocidade viso-motora, memória e concentração. 

Strickland et al. (1993) estudaram pacientes dependentes de cocaína internados, buscando avaliar a relação entre fluxo sangüíneo cerebral e o funcionamento neuropsicológico desses sujeitos, após um período significativo de abstinência à droga (pelo menos seis meses). 

Os pacientes apresentaram alterações no fluxo sangüíneo cerebral e disfunção cognitiva persistente, particularmente em tarefas que requeriam sustentação da atenção, concentração, novas aprendizagens, memória visual e verbal, fluência verbal e integração viso-motora. Os déficits neuropsicológicos observados foram associados com o padrão multifocal de hipoperfusão cerebral constatado pelos exames de SPECT. 

Rosseli e Ardila (1996), em um estudo realizado com 183 participantes, sendo 63 sujeitos controles, 59 dependentes de várias drogas e 61 dependentes de cocaína, em abstinência de pelo menos dois meses, encontraram déficits cognitivos moderados associados ao uso crônico de cocaína e de várias drogas, principalmente de memória, atenção, abstração e flexibilidade cognitiva (funções executivas).

Selby e Azrin (1998) pesquisaram 60 dependentes de cocaína, 101 de álcool e 56 de várias substâncias, comparando-os a 138 indivíduos controles. Não foi encontrada diferença significativa entre o desempenho dos dependentes de cocaína e o resultado dos indivíduos controles. Nota-se que o tempo de abstinência foi bem maior que nos outros estudos, pois compreendeu um período médio de 36 meses (três anos).

Bolla et al. (1999) investigaram 30 usuários de cocaína e os compararam a 21 indivíduos. Os resultados sugeriram déficits em funções executivas, viso-percepção, velocidade psicomotora e destreza manual. Quanto maior o uso desta droga (gramas por semana), maior o decréscimo do funcionamento em testes neuropsicológicos, principalmente em funcionamento executivo, viso-percepção, velocidade psicomotora e destreza manual.

Cunha et al. (2004) pesquisaram 15 dependentes de cocaína, em tratamento, com a média de duas semanas de abstinência à droga, comparando-os a um grupo controle (n=15), pareado em diversas variáveis, como idade, gênero, nível sócio-econômico, lateralidade, etnia e nível intelectual. Os resultados apontaram diferenças estatisticamente significantes em atenção, memória (visual e verbal), aprendizagem, funções executivas e fluência verbal fonológica.

Em suma, é possível observar que o uso da cocaína está associado a alterações principalmente de atenção, memória e funções executivas. Há, ainda, efeitos relacionados à dose, ou seja, quanto maior o uso da droga (gramas na semana), piores os déficits encontrados, achado que contribui de maneira significativa para o estudo da relação de causalidade entre uso de cocaína e danos cognitivos (Bolla et al., 1999). 

Os prejuízos neuropsicológicos iniciam-se nos primeiros dias de abstinência e persistem mesmo após seis meses de abstinência. Nesta fase, são encontrados ainda problemas na atenção, concentração, novas aprendizagens, memória visual e verbal, fluência verbal e integração viso-motora, assim como na perfusão (circulação sanguínea) cerebral (Strickland et al., 1993). 

Por outro lado, em estudo realizado com três anos de abstinência à cocaína, não foram encontradas alterações, o que sugere que após um longo período de abstinência, é possível que a atividade neuroquímica e cerebrovascular retorne aos níveis anteriores de funcionamento, e desta forma as capacidades neuropsicológicas também (Selby e Azrin, 1998).

Alterações na tomada de decisões em dependentes de cocaína

De acordo com a Associação Psiquiátrica Americana (APA), a principal característica do dependente químico é a recorrência do comportamento de uso da droga, a despeito de suas conseqüências negativas, sejam na área social, psicológica ou legal (APA, 1994). O indivíduo apresenta uma série de comportamentos, que acabam levando-o a um processo de “autodestruição”, muitas vezes sem volta. 

De posse deste conhecimento, pesquisadores passaram a avaliar o comportamento de dependentes de cocaína em um teste inovador, denominado Iowa Gambling Task (IGT), que simula situações de ganhos e perdas na vida real, com o objetivo de avaliar como o indivíduo processa o recebimento de recompensas e punições, tanto de longo como de curto prazo.

O indivíduo deve selecionar as cartas com o mouse, uma por vez, de qualquer um dos conjuntos, até que o jogo chegue ao final (após 100 escolhas). Depois de virar cada carta, a pessoa recebe uma quantia em dinheiro, fato anunciado imediatamente na tela, sendo a quantia variável de acordo com o conjunto escolhido. Depois de virar algumas cartas, os indivíduos recebem dinheiro, mas devem pagar uma penalidade, que também é anunciada após a escolha e varia de acordo com o conjunto. 

Os sujeitos recebem a informação de que: 

1) o objetivo do jogo é ganhar o máximo possível de dinheiro; 

2) eles estão livres para escolher. Enquanto nos conjuntos A e B os ganhos imediatos são maiores, as perdas em longo prazo são mais expressivas ainda. Já as escolhas das cartas provenientes dos grupos C e D levam a ganhos baixos, porém estão associadas a perdas menores em longo-prazo. 

O cálculo da pontuação final é feito através do Netscore, que representa a soma de escolhas dos grupos de cartas “vantajosas”, menos a soma das escolhas das cartas “desvantajosas” [(C+D)-(A+B)]. No total, há um saldo positivo quando o indivíduo escolhe mais cartas nos blocos C e D, ao passo que o saldo se torna negativo se o indivíduo escolher mais cartas oriundas dos blocos A e B. 

O IGT foi inicialmente desenhado com o intuito de examinar o processo de tomada de decisões em pacientes com lesões cerebrais em córtex pré-frontal (CPF) (Bechara et al., 1994). Após lesão em CPF, especialmente em áreas órbito-frontais, indivíduos com personalidade normal tendem a apresentar conduta social desajustada, bem como sérios problemas na tomada de decisões e na execução de ações, que repetidamente levam a conseqüências psicossociais negativas (Damasio et al., 1990). 

Um dos exemplos mais conhecidos deste tipo de infortúnio é Phineas Gage (para maiores detalhes, consultar Damasio, 1996). Tal como Gage e outros pacientes com lesões em CPF, sabe-se que, na maioria das vezes, dependentes de cocaína apresentam alterações de comportamento e personalidade semelhantes. 

Ademais, estudos de neuroimagem estrutural e funcional têm apontado disfunções em CPF em dependentes de cocaína, no período de abstinência, que podem estar na base das alterações comportamentais vivenciadas pelos usuários (Volkow et al., 1988; Fein et al., 2002; Matochik et al., 2003; Bolla et al., 2004; Goldstein et al. 2004).

Alguns pesquisadores já utilizaram o IGT na avaliação de dependentes de drogas, tendo encontrado resultados interessantes e promissores. Grant et al. (2000) estudaram um grupo de 30 abusadores de múltiplas drogas, que tiveram o seu desempenho comparado com 24 sujeitos-controle. 

Após os devidos ajustes estatísticos, o grupo encontrou um desempenho significativamente pior dos abusadores de drogas em relação aos controles no IGT. Bechara et al. (2001) estudaram o desempenho de 41 dependentes de estimulantes e álcool nesta tarefa, comparando-os a 40 sujeitos normais e cinco pacientes com lesão conhecida em CPF. 

Foi encontrado prejuízo significativo nos abusadores em relação aos controles, sendo que 61% deles situaram-se dentro da faixa de desempenho esperada para os pacientes lesionados. Em nosso meio, foram avaliados dependentes de cocaína e os resultados foram similares aos dos estudos internacionais. 

Ao longo das 100 tentativas, enquanto os indivíduos do grupo controle tendiam a escolher cada vez mais cartas dos grupos “vantajosos” (C+D), os dependentes de cocaína falharam em aprender efetivamente com as conseqüências futuras de suas ações, mantendo-se presos aos efeitos imediatos (A+B), o que os levou inevitavelmente a perdas maiores de longo-prazo, algo semelhante ao que ocorria na vida pessoal (Cunha et al., 2005). Entretanto, de acordo com Bartzokis et al. (2000), é provável que a avaliação dos riscos melhore na medida em que o tempo de abstinência à cocaína aumenta.

Impacto dos déficits cognitivos no tratamento 

A maioria dos tratamentos atualmente reconhecidos como eficazes para a dependência se baseia no emprego de estratégias cognitivo-comportamentais, em que o uso do processamento mental é um mediador para a mudança de comportamentos. Assim, aqueles dependentes de cocaína que não conseguem compreender as intervenções (ex: análise funcional, treinamento de habilidades), tendem a obter pouco sucesso ou abandonar o tratamento precocemente. 

Aharonovich et al. (2003) acompanhou 18 dependentes de cocaína, não-deprimidos, durante tratamento baseado em terapia cognitivo-comportamental (TCC), após terem respondido a uma bateria de testes cognitivos por computador. Os resultados indicaram que aqueles que completaram o tratamento de 12 semanas, haviam obtido pontuação melhor no início da avaliação, quando comparados àqueles que desistiram antes de completar o programa. 

Os dados fornecem subsídios para a compreensão de que determinados déficits cognitivos podem afetar a aderência ao tratamento e a abstinência à cocaína. De fato, é razoável e faz sentido pensar que os usuários de cocaína que não conseguem compreender as intervenções da TCC estão mais propensos ao abandono do tratamento (Aharonovich et al., 2003). 

O mesmo grupo de pesquisadores prosseguiu com as investigações, agora com uma amostra maior (n= 56 dependentes de cocaína), e percebeu que os resultados não foram afetados por outros fatores como depressão, dados sócio-demográficos ou intensidade do uso de droga (Aharonovich et al., 2006). 

Os autores defendem a elaboração de estratégias específicas para os pacientes, no sentido de melhorar a aderência ao tratamento. De fato, parece que isso pode dar certo. Maude-Griffin et al. (1998) avaliaram 128 usuários de cocaína (crack), oriundos de programas ambulatoriais e de internação para tratamento de dependência de cocaína e perceberam, no geral, superioridade da TCC quando comparada ao método de 12 passos, utilizado em grupos como os Narcóticos Anônimos (NA). 

Entretanto, quando os pesquisadores analisaram sub-grupos da amostra, perceberam que o sucesso do tratamento parecia depender do funcionamento cognitivo e características individuais dos pacientes. Os dependentes de cocaína que possuíam melhor nível de abstração, por exemplo, tendiam a obter melhores taxas de sucesso na TCC, quando comparados àqueles com pior nível de abstração. 

Estes, por sua vez, tendiam a obter mais sucesso quando submetidos a tratamento baseado em estratégias de NA, quando comparados aos indivíduos com alto nível cognitivo. Tais resultados estão em consonância com os Princípios Gerais de Tratamento das Dependências Químicas do National Institute on Drug Abuse (NIDA, 1999), que defende a utilização de estratégias direcionadas às características individuais de cada paciente.

Conclusões

O uso de cocaína está associado a efeitos prejudiciais, de longo-prazo (crônicos), em várias funções cognitivas, principalmente em atenção, memória, funções executivas e na tomada de decisões. As alterações cognitivas parecem estar associadas predominantemente a problemas de funcionamento do CPF do cérebro, e podem, por sua vez, interferir negativamente na aderência e aumentar as chances de recaída dos pacientes. 

Este complexo de sintomas parece estar na base das dependências, e, por isso, considera-se de extrema valia a busca por adaptações nas técnicas comportamentais e investigação de estratégias farmacológicas mais eficazes para o seu tratamento. Acredita-se que o tratamento voltado para as características individuais dos pacientes, incluindo o funcionamento cognitivo, pode ser muito mais efetivo, por levar à diminuição das chances de recaída e melhorar a aderência ao programa de acompanhamento.

6/26/2015

Álcool, maconha, cocaína, entre outras, agem de formas distintas no nosso corpo e mente


Dr. Persio Ribeiro Gomes de Deus PSIQUIATRA - CRM 31656/SP

Em meu último artigo conversamos um pouco sobre a relação entre o uso de drogas e a incidência de doenças psiquiátricas como a depressão, transtorno de pânico, transtorno bipolar, entre outros. 
Agora iremos abordar os sintomas produzidos pelo uso de algumas dessas drogas e inclusive as doenças psíquicas mais comuns. Vamos iniciar pela maconha: 
  • Os efeitos físicos mais comuns são taquicardia, olhos avermelhados, boca seca, tremores de mãos, além de prejuízo da coordenação motora e da força muscular
  • Os efeitos psíquicos são variáveis e dependem daquilo que abordamos no artigo anterior - quantidade, tempo de uso e qualidade da droga. Pode haver a sensação de relaxamento, letargia, prejuízo no aprendizado e na memória, diminuição da ansiedade, aumento do apetite, euforia, alteração da percepção do tempo, cores, sons e do espaço. Estas alterações podem provocar acidentes automobilísticos graves.
  • Em doses mais altas podem ocorrer delírios, alucinações com perda do sentido de realidade, além de sentimentos de perseguição. É considerada, equivocadamente, uma droga leve. Pesquisas recentes da Chemical Research in Toxicology demonstraram que existem mais substâncias cancerígenas na maconha que no tabaco. Três cigarros de maconha produzem o mesmo efeito cancerígeno que 20 cigarros de tabaco! O Instituto do Câncer de São Paulo emitiu um alerta importante: o aumento do índice de câncer de testículos em jovens usuários de maconha
  • O uso da maconha pode estar associado a quadros de depressão e de síndrome do pânico com maior frequência.
Em relação à cocaína podemos encontrar: 
  • Seus efeitos físicos mais frequentes são: aumento da pressão arterial, temperatura, tremor de extremidades e midríase (dilatação da pupila)
  • Os efeitos psíquicos são variáveis, e dependem da relação do indivíduo com a droga. Entre eles pode haver: sensação de bem-estar, euforia, aumento da autoconfiança, hiperatividade, desinibição, diminuição da fome e da sensação de cansaço. Com aumento do uso e da quantidade pode haver ansiedade, irritabilidade, apreensão, desconfiança, agressividade podendo chegar a casos graves de delírios e alucinações e a fissura? ou necessidade compulsiva do uso da droga
  • Em usuários crônicos foi descrito um quadro de letargia, hipersonia (excesso de sono), irritabilidade, humor depressivo e, em casos graves, a presença de quadros de psicose e além dos casos de overdose, os suicídios são bastante comuns.
Semelhante à cocaína, temos as anfetaminas e metanfetaminas: 
  • As anfetaminas são também muito utilizadas como medicamentos para emagrecimento. Em geral, elas causam efeitos físicos e psíquicos semelhantes à cocaína. Podem frequentemente desencadear ataques típicos de pânico
  • E se tornam muito perigosos quando associados ao álcool. O uso prolongado produz graves problemas de memória, além de poderem causar surtos psicóticos
  • O êxtase é um subtipo dos anfetamínicos - uma metanfetamina. Seu uso se tornou frequente em festas. Exaustão e desidratação são ocorrências comuns e a mistura com o álcool pode se transformar numa verdadeira bomba? que causa não raro paradas cardíacas. A psicose pode também acontecer em indivíduos predispostos ou que chegam a doses elevadas.
Álcool: um perigo a parte!
Finalmente alguns comentários sobre o álcool: sabe-se que muitas pessoas, aliás, muitos povos, têm uma relação saudável com o álcool, ele faz parte de hábitos alimentares e inclusive culturais. Sabe-se também que pequenas quantidades de álcool (no caso do vinho tinto) fazem muito bem à saúde, prevenindo a ocorrência de doenças cardiovasculares. 
No entanto, nem sempre a relação do indivíduo com o álcool é saudável, e aí teremos uma série enorme de problemas para o organismo, para a família e para a sociedade. O álcool é conhecido como a porta de entrada? para as outras drogas, e não temos uma política pública adequada de prevenção ao abuso de álcool direcionado à infância e à adolescência. 
Entre os adolescentes o álcool é a principal droga de abuso, com 1 em cada 7 adolescentes (16%) tendo episódios regulares de excesso de consumo. O padrão de consumo dos adolescentes brasileiros é de ingerir grandes quantidades nos finais de semana, expondo-os a uma série de riscos como: acidentes, gravidez não planejada e também risco de consumir outras drogas ilícitas. 


4/20/2015

Cocaine and pregnancy

Can using cocaine harm your health?Cocaine (also called coke or blow) is a street drug that usually comes as a white powder. It is snorted or mixed with water and then injected with a needle. When cocaine is made into small white rocks, called crack, it can be smoked. No matter how cocaine is used, it’s dangerous. If you use cocaine during pregnancy, it can cause serious harm to your baby.

Yes. Cocaine affects your central nervous system and may change your sense of sight, sound and touch. It can cause stomach pain, nausea, body shakes (tremors) and headaches. It can make you feel restless, scared or angry. 

Using cocaine can cause serious health problems, including: 

  • Heart attack
  • Stroke. This is when a blood clot blocks a blood vessel that brings blood to the brain, or when a blood vessel in the brain bursts open.
  • Respiratory failure. This is when too little oxygen passes from your lungs into your blood or when your lungs can’t remove carbon dioxide from your blood.
  • Loss of appetite
  • Severe weight loss
  • Loss of smell. This can happen when cocaine is snorted.
  • Infections like HIV or hepatitis. Infections can happen when cocaine is injected through a dirty or shared needle.
Can using cocaine cause problems in pregnancy?

Yes. Using cocaine during pregnancy may cause serious problems for your baby, including:
  • Placental abruption. This is a serious condition in which the placenta separates from the wall of the uterus before birth. The placenta supplies the baby with food and oxygen through the umbilical cord. Placental abruption can cause very heavy bleeding and can be deadly for both mother and baby.
  • Premature birth. This is birth that happens too early, before 37 weeks of pregnancy.
  • Low birthweight. This is when a baby is born weighing less than 5 pounds, 8 ounces.
  • Miscarriage. This is when a baby dies in the womb before 20 weeks of pregnancy.
  • Neonatal abstinence syndrome (also called NAS). This is a group of conditions a newborn can have if his mother is addicted to drugs during pregnancy. NAS happens when a baby gets addicted to a drug before birth and then goes through drug withdrawal after birth.

4/05/2015

Álcool, drogas e função sexual

Jordon Peugh 
Steven Belenko 

A visão das drogas como afrodisíacos sempre esteve presente no imaginário popular. No entanto, as conexões entre álcool, drogas e função sexual são mais complexas. As substâncias psicoativas podem afetar a função sexual a partir da alteração de neurotransmissores (especialmente a serotonina, noradrenalina e dopamina); pela ação direta ou indireta na liberação de hormônios capazes de aumentar a libido (testosterona, progesterona e estrógeno); ou por atuarem diretamente sobre o fluxo sanguíneo ou outros mecanismos fisiológicos dos órgãos sexuais. 
Por outro lado, as reações humanas a tais alterações são complexas e influenciadas por fatores psicológicos e sociais. Isso torna difícil a quantificação do papel específico das substâncias sobre a função sexual. No presente artigo, os autores revisaram a literatura trabalhos acerca do tema e os apresentaram seus achados divididos por substância psicoativa, levando em consideração seus efeitos agudos e crônicos. 
Álcool
O consumo difundido do álcool em nosso meio fez deste a substância mais estudada quanto a sua ação no desempenho sexual. Seu consumo sempre esteve associado à facilitação do comportamento e do desejo sexual. Simultaneamente, é considerado prejudicial à potência e ao desempenho sexual. Já foi sugerida que a ação depressora do sistema nervoso central causada pelo álcool contribui, direta ou indiretamente, para a disfunção da ereção, redução da secreção vaginal, redução do desempenho sexual e outras disfunções sexuais. 
Homens
Em doses diminutas, o álcool possui discreta ou nenhuma ação sobre a função sexual masculina. O desejo sexual pode aumentar quando se utilizam baixas doses da substância. Doses elevadas, no entanto, prejudicam a ereção, interferem na ejaculação e causam redução do desejo sexual (libido). Além disso, as expectativas, os estímulos externos e as relações interpessoais também afetam a função sexual e interferem nos resultados observados. 
O consumo crônico e prolongado, no entanto, prejudica todos os aspectos da função sexual masculina, em especial a ereção (quadro 1). Disfunções sexuais chegam a atingir mais de 80% dos dependentes de álcool. 
Quadro 1: Principais complicações sexuais entre os usuários crônicos de álcool do sexo masculino.
·         Piora da ereção (tempo e intensidade)
·         Redução dos níveis de testosterona
·         Redução no número de espermatozoides
·         Piora nos testes de desempenho
Apesar de tais alterações mostrarem-se em parte reversíveis após a abstinência, queixas de disfunção sexuais podem persistir. Pode haver piora da função erétil, em decorrência de lesões neurológicas, prejudicando-a definitivamente. Além disso, o surgimento de complicações, tais como depressão ou a piora do relacionamento conjugal ao longo dos anos, também afetam diretamente a função sexual masculina, tornando difícil isolar o papel exclusivo do álcool sobre esse assunto. 
Mulheres
Muitas mulheres afirmam que o álcool aumenta seu prazer sexual. Por outro lado, estudos com marcadores fisiológicos apontam para o sentido aposto, isto é, quanto maior a quantidade de álcool, menor o prazer sexual e a capacidade de atingir o orgasmo.
Há algumas explicações para tal contradição:
·         [1] o impacto da desinibição desencadeada pelo consumo,
·         [2] a interpretação das modificações corporais induzidas pelo álcool como aumento do prazer sexual,
·         [3] a influência das expectativas acerca dos efeitos do álcool,
·         [4] mensuração inadequada dos marcadores fisiológicos do prazer sexual. 
O consumo crônico de álcool traz às mulheres disfunções sexuais e problemas ginecológicos. A disfunção sexual, por seu turno, também pode ser uma possível causa de alcoolismo entre elas. Dado a noção cultural de que o álcool aumenta o prazer, mulheres com disfunção sexual frequentemente buscam no álcool uma forma de sanar tais deficiências. 
Quadro 2: Principais complicações sexuais entre os usuários crônicos de álcool do sexo feminino.
·         Inexistência de orgasmo
·         Piora da lubrificação vaginal
·         Intercurso sexual doloroso
Tabaco 
Não há na literatura estudos que demonstrem piora ou melhora aguda da função sexual secundária ao consumo de nicotina. Alguns estudos detectaram redução de testosterona e piora da capacidade de ereção em fumantes crônicos. Quanto às mulheres, estudos apontam para a piora dos sintomas menstruais (dor, depressão, irritabilidade, dor de cabeça, dentre outros). Não há estudos acerca dos efeitos da nicotina sobre a função sexual feminina. 
Cocaína & Crack 
Os achados acerca dos efeitos agudos da cocaína sobre a função sexual são controversos. Há indivíduos que relatam que a cocaína é dotada de propriedades afrodisíacas, capazes de induzir com mais facilidade a ereção e a ejaculação e facilitar orgasmos múltiplos. Por outro lado, há aqueles que relatam piora em todos os aspectos relacionados à função sexual. Isso se deve principalmente à dose administrada, às expectativas relacionadas ao consumo, ao efeito das impurezas, além de outros. 
Cronicamente, o consumo de cocaína parece reduzir ou não possuir qualquer ação sobre a função sexual. Entre os homens, pode haver problemas para manter a ereção e na ejaculação (podendo essa ser tardia ou precoce), que persistem por algum tempo após a abstinência. A associação frequente de cocaína e álcool dificulta o entendimento específico da cocaína neste processo. 
Para muitos, o crack está associado ao aumento da atividade sexual, provavelmente pelos relatos de prostituição para a aquisição da substância, atitude mais frequente entre esses usuários do que entre os consumidores de outras substâncias. No entanto, os estudos demonstram justamente o contrário: a maioria dos usuários da substância relata que o consumo de crack diminui a libido e causa disfunções sexuais em ambos sexos. O aumento da atividade sexual entre esses usuários está relacionado a circunstâncias socioculturais e ambientais onde o consumo da substância se dá. 
Anfetaminas & MDMA (Ecstasy) 
Em baixas doses, as anfetaminas estão associadas ao aumento da libido, retardo do orgasmo ou a ocorrência de orgasmos múltiplos. Alguns usuários, no entanto, relatam dificuldade ou inabilidade de alcançar o orgasmo sob o efeito da substância. Os usuários de anfetamina injetável relatam grande associação com aumento do desejo sexual, mas uma inabilidade de para atingir a ereção completa.
Em doses elevadas e com o uso crônico, as anfetaminas estão associadas a problemas de ereção e atrasos na ejaculação entre os homens e atraso no orgasmo entre as mulheres. Apesar de atuar sobre a dopamina e a noradrenalina, o uso crônico de anfetaminas reduz a disponibilidade dessas substâncias, repercutindo na libido. Seus prejuízos parecem ser menos intensos do que entre os usuários crônicos de cocaína. 
O ecstasy foi batizado a "droga do amor" e parece possuir impacto direto sobre o aumento da sensualidade e do desejo sexual. Em contrapartida, o mesmo não parece ocorrer com a função sexual. Apesar de atuar sobre o desejo, os usuários com frequência relatam que a substância impede a ereção e o orgasmo durante o ato sexual. 
Opiáceos 
A administração de opiáceos inibe a liberação de gonadotrofinas, hormônios responsáveis pelo controle do funcionamento dos ovários e testículos. Isso resulta numa redução do desejo sexual em ambos sexos. Há, também, alteração (e redução) do fluxo sanguíneo para os órgãos genitais, contribuindo para a disfunção da ereção.
Em baixas doses, o consumo de heroína pode aumentar o desejo sexual. Devido a suas propriedades relaxantes e analgésicas, sugere-se que parte dos usuários utiliza-a como forma de 'automedicação' para disfunções sexuais, tais como ejaculação precoce entre os homens e dispareunia (dor no intercurso sexual) entre as mulheres. O uso crônico está associado à redução da libido, distúrbios da ejaculação e do orgasmo. A ação inibitória sobre as gonadotrofinas e a redução do fluxo sanguíneo peniano parecem ser o substrato neurobiológico para tais fenômenos. 
Maconha 
A maconha é historicamente considerada um afrodisíaco. No entanto há poucas evidências fisiológicas acerca desta propriedade, da mesma forma que há poucas evidências sobre a redução do desejo sexual entre esses usuários. A maioria dos usuários relata aumento do prazer sexual, mas as bases fisiológicas para tal fenômeno permanecem incertas. Provavelmente, deve estar relacionada com o aumento da sensibilidade perceptiva. 
Cronicamente, o consumo de maconha parece prejudicar o sistema reprodutor. O consumo de maconha parece reduzir os níveis de testosterona e outros hormônios, mas os resultados são inconsistentes e o impacto em longo prazo, incerto. Há pouca e contraditórias informações acerca dos efeitos da maconha à função sexual feminina. 
LSD 
Não há estudos de qualidade acerca dos efeitos agudos e crônicos do LSD sobre a função sexual. 
Nitritos Voláteis 
Nitritos voláteis são utilizados recreacionalmente para aumentar o prazer sexual. Os principais efeitos dessas substâncias são o relaxamento muscular e a vasodilatação, seguidos por breve euforia. Alguns usuários relatam utiliza-lo para prolongar o tempo e a percepção do orgasmo. Os usuários acreditam que os nitritos são capazes de relaxar a musculatura esfincteriana, facilitando o intercurso sexual. No entanto, estudos com estes usuários apontam para uma dificuldade em conseguir a ereção e redução da libido. Os usuários referiram nestes estudos que o consumo está mais associado à busca de seus efeitos psicológicos, do que a melhora do desejo ou desempenho sexual. 
Gama-Hidroxibutirato (GHB) & Gama-Butirolactona (GBL) 
O GHB é uma agonista dopaminérgico e depressor do sistema nervoso central, cuja estrutura se assemelha ao neurotransmissor GABA. Também conhecido como "ecstasy líquido" ou "líquido X" é utilizado por adultos e adolescentes devido aos seus efeitos euforizantes, nas raves e casas noturnas. Há relatos de que a substância é afrodisíaca. Também utilizado com o mesmo propósito e nos mesmos locais, o GLB é tido pelo público que o utiliza como afrodisíaco. Não há, no entanto, pesquisa sistemática sobre os efeitos de ambos na função sexual. 
Fenciclidina (PCP) 
A fenciclidina não está associada ao aumento da atividade sexual. Entre usuários que a utilizam com tal propósito, o consumo parece objetivar a redução da dor, a desinibição e nas fantasias sexuais. O uso crônico produz prejuízos a função cortical e ao sistema límbico, causando redução do interesse sexual. Frequentemente esses usuários desenvolvem quadros depressivos e alterações cerebrais, que pioram ainda mais a função sexual. 
Os autores revelam algumas dificuldades na análise dos estudos acerca do efeito das drogas sobre a função sexual. Em primeiro, há carência de estudos controlados e com populações diversificadas. A única substância que possui estudos de qualidade é o álcool. Ainda assim, restritos a populações específicas (homens, mulheres, estudantes, dentre outros). 
Em segundo, fatores psicológicos, fisiológicos e ambientais podem estar associados ao consumo de tais substâncias e desempenhar efeitos sobre a função sexual, independentemente da substância utilizada. Dentre esses fatores, destacam-se a personalidade, as expectativas com relação aos efeitos da droga e da ocorrência da relação sexual, o estilo de vida, o status mental e físico e o nível socioeconômico. Qual seria o efeito do ecstasy sobre a sexualidade, se ao invés de uma rave, o indivíduo se dirigisse à missa das oito da manhã? Desse modo, tais fatores tornam ainda mais confusas as conclusões sobre os efeitos específicos dessas substâncias sobre a função sexual.

Por fim, a maioria dos estudos baseou-se em relatos de indivíduos sobre experiências passadas (não há estudos de campo). O consumo de mais de uma substância a um só tempo também traz dificuldades para as conclusões. Ainda assim, os estudos disponíveis parecem sugerir que o consumo agudo e crônico de drogas está frequentemente associado a efeitos deletérios à função sexual. O uso moderado de álcool e as experiências iniciais com drogas ilícitas facilitam ou aumentam o prazer sexual. Porém, doses mais elevadas e o uso crônico pioram o desempenho, reduzem o desejo e contribuem para disfunções sexuais.