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12/14/2014

Demência

Demência é a perda ou redução progressiva das capacidades cognitivas, de forma parcial ou completa, permanente ou momentânea e esporádica, suficientemente importante a ponto de provocar uma perda de autonomia do indivíduo.
Dentre as causas potencialmente reversíveis estão disfunções metabólicas, endócrinas e hidroeletrolíticas, quadros infecciosos, déficits nutricionais, distúrbios psiquiátricos, como a depressão (pseudodemência depressiva) e as doenças passíveis de tratamento neurocirúrgico, principalmente a hidrocefalia do idoso (hidrocefalia de pressão normal), hematoma subdural crônico, higroma e tumores cerebrais.
Tipicamente, essa alteração cognitiva provoca a incapacidade de realizar atividades da vida diária. Os déficits cognitivos podem afetar qualquer das funções cerebrais, particularmente as áreas da memória, a linguagem (afasia), a atenção, as habilidades visuo construtivas, as práxis e as funções executivas, como a resolução de problemas e a inibição de respostas.
A demência pode afetar também a compreensão, a capacidade de identificar elementos de uso cotidiano, o tempo de reação e os traços da personalidade. Durante a evolução da doença, pode-se observar a perda de orientação espaço-temporal e de identidade. À medida que a doença avança, os dementes também podem apresentar traços psicóticos, depressivos e delírios ou alucinações.
Embora a alteração da memória possa, em poucos casos, não ser um sintoma inicialmente dominante, é alteração típica da atividade cognitiva nas demências - sobretudo para a mais frequente delas, ligada à doença de Alzheimer -, e sua presença é condição essencial para o diagnóstico. A depender da origem etiológica, a demência pode ser reversível ou irreversível.
Prevalência
O envelhecimento da população leva a um aumento das doenças crônicas e degenerativas, acarretando um maior custo-paciente na área de saúde e a necessidade de inúmeras adaptações sociais, ambientais e econômicas. É provável que em 2025, o Brasil se torne o 6o país com mais idosos no mundo então é importante começar o trabalho preventivo o mais cedo possível.
O número de vítimas de demências aumenta exponencialmente com a idade afetando apenas 1,1% dos idosos entre 65 e 70 anos e mais de 65% depois dos 100 anos. A doença de Alzheimer, o tipo de demência mais comum, é mais comum em mulheres enquanto as demências vasculares, segundo tipo mais comum, são mais comuns em homens.
A prevalência média de demência, acima dos 65 anos de idade, é de 2,2% na África, 5,5% na Ásia, 6,4% na América do Norte, 7,1% na América do Sul e 9,4% na Europa.
Tipos
A demência é um termo geral para várias doenças neurodegenerativas que afetam principalmente as pessoas da terceira idade. Todavia a expressão demência senil, embora ainda apareça na literatura, tende a cair em desuso. A maior parte do que se chamava demência pré-senil é de fato a doença de Alzheimer, que é a forma mais comum de demência neurodegenerativa em pessoas de idade.
Embora existam casos raros diagnosticados de pessoas na faixa de idade que vai dos 17 anos aos 50 anos e a prevalência na faixa etária de 60 aos 65 anos esteja abaixo de 1%, a partir dos 65 anos ela praticamente duplica a cada cinco anos. Depois dos 85 anos de idade, atinge 30 a 40% da população. Segundo a Organização Mundial da Saúde a exposição aos disruptores endócrinos poderá desencadear a doença deAlzheimer.
A demência pode ser descrita como um quadro clínico de declínio geral na cognição como também de prejuízo progressivo funcional, social e profissional. As demências mais comuns são:
* Demência no mal de Alzheimer;
* Demência vascular e;
* Demência com corpos de Lewy.
No dicionário internacional de doenças outras demências são classificadas como:
CID 10 - F02.0 Demência da doença de Pick
CID 10 - F02.1 Demência da doença de Creutzfeldt-Jakob
CID 10 - F02.2 Demência da doença de Huntington
CID 10 - F02.3 Demência da doença de Parkinson
CID 10 - F02.4 Demência da doença pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV)
Esses diagnósticos não são exclusivos sendo possível, por exemplo, a existência de Alzheimer simultaneamente com uma demência vascular. Outras classificações incluem a demência na Síndrome de Korsakoff.
Demência reversiva
Há fatores que podem causar demência e que podem ser revertidos.
O uso de drogas
Depressão
Hipotiroidismo, encefalite de Hashimoto
Perda progressiva de visão e audição
Infecções , SIDA, sífilis
Deficiência de vitamina b12, ácido fólico: anemia.
Tumores, hidrocefalia
Reações tóxicas a medicamentos: antidepressivos, antihistaminicos, anticonvulsivos, corticosteroides, sedativos, antiparkinsonianos, anticonvulsivos, antiansiolíticos
Tratamento integrativo
O tratamento integrativo que pretendemos avaliar foi proposto no estudo de. A amostra do estudo foi formada por 35 pacientes (20 do sexo masculino, 15 do feminino) com uma idade média de 71 anos, diagnosticados com demência moderada e depressão. O tratamento proposto pelos autores incluiu: antidepressivos (sertralina, citalopram ou venlafaxina XR, apenas ou em combinação com bupropiona XR), inibidores de colinesterase (donepezil, rivastigmine ou galantamine), como também vitaminas e suplementos (multivitaminas, vitamina E, ácido alfa lipóico, omega-3 e coenzima Q-10).
As pessoas participantes do estudo foram encorajadas a modificar a sua dieta e estilo de vida bem como a executarem exercícios físicos moderados. Os resultados do estudo demonstraram que a abordagem integrativa não apenas diminuiu o declínio cognitivo em 24 meses, mas até mesmo melhorou a cognição, especialmente a memória e as funções executivas (planejamento e pensamento abstrato).
Memória Reconstrutiva
Um estudo publicado no "Journal of Experimental Psychology: Learning, Memory and Cognition" conclui que os declínios que se verificam na memória reconstrutiva são indicio de um comprometimento cognitivo leve e de demência de Alzheimer, e não se verificam no envelhecimento saudável. "A memória reconstrutiva é muito estável em indivíduos saudáveis??, de modo que um declínio neste tipo de memória é um indicador de comprometimento neurocognitivo" revela Valerie Reyna.
Exercícios Mentais
O exercício mental tem um papel fundamental na preservação de uma boa saúde mental. Os exercícios deverão ser variados, com um certo grau de complexidade, ensinar algo de novo e devem ser agradáveis e feitos com regularidade. Deve-se treinar o cálculo mental, ler em voz alta, aprender uma língua nova e treinar as imagens mentais (imagery),e também treinar os sentidos: da audição da visão e do cheiro. A perda da sensibilidade do cheiro, relacionada com o primeiro nervo craniano, é uma dos primeiras capacidades a serem afetados pela demência.
Um estudo do Wellcome Trust Centre for Neuroimaging do UCL demonstrou que o treino intensivo de aprendizado levado a cabo pelos taxistas de Londres para obterem o certificado de motorista de táxi altera a estrutura do cérebro aumentando o volume da matéria cinzenta na área do hipocampo posterior. O estudo revela que o cérebro mantém a plasticidade mesmo em adultos e o treino mental intenso é fundamental para a criação de novos neurônios.
Videogames
Jogos multitarefa
Uma pesquisa, publicada na revista Nature, revela que pessoas idosas com dificuldades cognitivas podem treinar a mente e melhorar a atenção (o foco de longo prazo) e a memória de curto prazo. Os neurocientistas revelam que alguns dos idosos de 80 anos que participaram da pesquisa conseguiram melhorar o seu desempenho e apresentar um padrão neurológico igual ao de um jovem de 20 anos.
O treino com o jogo multi-tarefa, NeuroRacer, um jogo muito simples, desenvolvido por uma equipa da Universidade da Califórnia permitiu ainda registar a alteração que se processa ao nível das ondas cerebrais.
Jogos de estratégia
Um outro estudo da UCL e Queen Mary University of London, usando o jogo StarCraft, também revela que após várias horas de treino há uma melhoria na flexibilidade cognitiva. O Jogo Halo também foi objeto de estudo, e revela que é capaz de melhorar a capacidade de decisão ao torná-la mais rápida.
Tiro em primeira pessoa
Um estudo da universidade dos Países Baixos indica que os jogos de Tiro em primeira pessoa melhoram a memória de curto prazo e a agilidade mental. Há ainda a possibilidade do habito de jogar determinados tipos de jogos melhorar o bem estar e diminuir a possibilidade de ter depressão.
Segundo o Dr Adam Gazzaley "Isso confirma nossa compreensão de que os cérebros de adultos mais velhos, como os dos jovens, são 'plásticos' - o cérebro pode mudar em resposta ao treinamento focado".
Um estudo revelou que jogar o jogo “Super Mario 64” provocava aumento nas regiões do cérebro responsáveis pela orientação espacial, pela formação da memória e planejamento estratégico, bem como uma melhoria das capacidades motoras finas das mãos.
Jogar jogos diferentes, cada jogo focado no desenvolvimento específico de uma capacidade cognitiva distinta, e não apenas um só tipo de jogo, treina e desenvolve um leque mais vasto de capacidades cognitivas.
Exercícios físicos
Em questão aos exercícios físicos, segundo Pérez e Carral (2008), estes apresentam um potencial de melhorar a plasticidade do cérebro, reduzindo as perdas cognitivas ou minimizando o curso progressivo da demência. A importância dos exercícios físicos no tratamento da demência pode ser apoiada por outros estudos.
O levantamento de pesos, comparado com outros exercícios revelou melhores resultados embora um conjunto de exercícios envolvendo levantamento de pesos, aeróbica e equilíbrio tivesse melhorado as capacidades linguísticas.
Alimentação
Uma dieta funcional e exercícios físicos associados também demonstraram serem protetivos contra o desenvolvimento da demência ou para diminuir o curso progressivo dessa patologia. Não obstante, pessoas com tendência a demência que utilizaram vitaminas antioxidantes (vitaminas C e E, por exemplo) apresentaram menor perda cognitiva que pessoas que não utilizaram tal recurso. A deficiência de vitamina D está associada a um risco significativamente maior do desenvolvimento de demências incluindo a doença de Alzheimer.
Pessoas com demência tenderam a ter uma alimentação mais pobre em macronutrientes, cálcio, ferro, zinco, vitamina K, vitamina A e ácidos gordurosos, o que pode acentuar o curso degenerativo da doença. Aspecto que justifica a administração de suplementos alimentares para essa população, devido à dificuldade de se alimentar, um dos sintomas que tendem a fazer parte do quadro de demência.
Em relação ao ácido alfalipóico e à coenzima Q10, potentes antioxidantes cerebrais, ou seja, redutores dos radicais livres, existem evidências em estudos que essas substâncias também contribuem significativamente para a redução da progressão das perdas cognitivas em pessoas com demência, além de serem agentes protetivos. Tais substâncias são produzidas naturalmente pelo organismo, mas essa produção tende a reduzir-se com a idade.
Comportamentos saudáveis
Metade das demências podem ser prevenidas ou pelo menos adiadas mantendo uma vida social, intelectual e profissional ativa. Uma vida com compromissos e ativa também revelou melhorar as perdas cognitivas em demências mais moderadas. O uso do fumo também pode vulnerabilizar as pessoas para a demência. Desse modo, a mudança do estilo de vida é um fator fundamental para minimizar o curso das perdas evidenciadas na demência.
Portanto, podemos observar que, no estudo de Bragin et al. (2005), foram utilizados como tratamento da demência vários recursos disponíveis para tanto. Ocorreu uma melhora significativa em funções cognitivas importantes, prejudicadas pela demência moderada.
Assim, o diagnóstico precoce da demência é um aspecto importante para que os tratamentos existentes possam diminuir a progressão das perdas cognitivas, funcionais, sociais e profissionais em pessoas com essa patologia. Conforme demonstrou o estudo de Bragin et al. (2005), o tratamento deve ser integrativo, envolvendo uma equipe multidisciplinar, com medicações específicas e suplementação alimentar, além de uma mudança do estilo de vida que inclui exercícios físicos moderados, cessação do uso do fumo, uma alimentação adequada e uma vida com o máximo possível de atividades.
Uma abordagem integrativa pode reduzir o curso das perdas cognitivas da demência, porém, ainda não existem tratamentos que possam "curar" integralmente essa patologia. Assim, a prevenção ao longo da vida é o melhor recurso existente. É importante durante a vida manter uma alimentação saudável e exercícios físicos regulares; bem como, na aposentadoria, torna-se imprescindível manter um estilo de vida ativo.
Psicoterapia

É frequente a comorbidade entre depressão, transtornos de ansiedade, distúrbios comportamentais e transtornos delirantes e demências, por isso é importante o acompanhamento psicológico regular. Esse acompanhamento inclui os familiares pois a demência causa grande impacto nos cuidadores, especialmente na família nuclear, os deixando vulneráveis a transtornos psicológicos como síndrome de Burnout (exaustão física e psicológica). São necessárias mais políticas públicas de apoio aos cuidadores pois, quando exaustos, tendem a colocar os idosos em asilos aumentando seriamente as despesas do governo.

Demência

A demência é um transtorno cognitivo em que ocorre uma deterioração gradual do funcionamento do cérebro afetando a memória, o julgamento, a linguagem e outros processos cognitivos avançados. A demência pode ocorrer em qualquer período da vida do indivíduo, mas é mais comum e freqüente em idosos.

Tendo ainda de ser acompanha pelo menos de uma perturbação cognitiva (afasia, apraxia, agnosia ou perturbação do funcionamento executivo), grave comprometimento do funcionamento ocupacional ou social, e um declínio em relação a um nível anteriormente superior de funcionamento.

A demência pode ser causada por diversas doenças: o abuso de álcool e drogas que resultam em mudanças prejudiciais no funcionamento cognitivo; doenças infecciosas ou depressão também podem causar demência, mas essa pode ser reversível por meio de tratamento da doença principal. No entanto há outros transtornos que são irreversíveis como, por exemplo, a doença de Alzheimer.

A demência e o delirium se diferenciam em dois aspectos: o delirium tem início agudo e a demência avança gradativamente; as pessoas com demência não ficam desorientadas ou confusas no estágio inicial, no delirium sim.

Mas se igualam em causas incluindo trauma cerebral, como o derrame (destrói os vasos sanguíneos), doenças infecciosas (sífilis e HIV), lesão grave na cabeça, introdução de certas substancias tóxicas ou venenosas, e doenças, como o Parkinson e a mais comum da demência, a doença de Alzheimer.

As demências podem ser de vários tipos: Demência do Tipo Alzheimer, Demência Vascular, Demência Devida à Doença do HIV, Demência Devida a Traumatismo Craniano, Demência Devida à Doença de Parkinson, Demência Devida a Doença de Pick, Demência Devida à Doença de Creutzfeldt-Jakob, Demência Devida a Outras Condições Médicas Gerais e Demência Persistente Induzida por Substância.

Insanidade mental

A insanidade mental e a neurastenia

Representando o estado normal do ego por uma linha horizontal as divergências que ocorrem nesta linha mental de “normalidade” são classificadas por graus de alienação na seguinte ordem de grandeza crescente, ou seja: demência precoce, paranoia, insanidade maníaco-depressiva, melancolia, psicoses e psicoses tóxicas e/ou por exaustão.

A insanidade na puberdade e adolescência, ocorre antes da idade de 20 anos, às vezes pode entrar em silêncio e insidiosamente com um longo período de pseudo-neurastenia.

A paranoia é uma forma de grave e progressivo transtorno mental que vem depois da adolescência e tem uma tendência a um curso cíclico em que co-existem na primeira depressão com mau humor, desconfiança, egoísmo, e um sentido de ser mal tratado, em seguida com delírios sistematizados e às vezes, explosões de excitação ativa. O curso é longo, mas a tendência é menor para a demência, pois, embora o grau de alienação é grande a deterioração orgânica do cérebro é quase desprezível.

A condição conhecida como insanidade maníaco-depressiva, é mais difícil de se reconhecida. Percebemos com maior facilidade alguns sintomas, mas a melancolia da mania aguda é um fato verdadeiro e raro.

Mas há uma insanidade depressiva que começa cedo na vida, freqüentemente se desenvolve por pequenas causas e se repete uma e outra vez, com ligeira tendência para a demência. A melancolia crônica de meia-idade e mais tardia e muitas vezes é anunciada por um “histórico de prostração nervosa ou do obscuro ataques nervosos a partir dos 20 anos ou mais tarde”.

Esta melancolia pode ser facilmente entendida por uma psicose pura, ou como se chama vulgarmente de loucura maníaco-depressiva na juventude que pode se tornar crônica com complicações e alterações degenerativas da vida adulta.

12/11/2014

Loucura

Louco, eu?
A visão da medicina e da sociedade sobre pacientes mentais evoluiu muito nos últimos anos. Mas uma pergunta continua sem resposta: qual é a linha que separa a lucidez da loucura?

por Bárbara Soalheiro

David Rosenhan resolveu fingir-se de louco. Em 1972, ele se dirigiu a um hospital psiquiátrico americano alegando escutar vozes que lhe diziam as palavras “oco” “vazio” e o som “tum-tum”. Essa foi a única mentira que contou. De resto, comportou-se de maneira calma e respondeu a perguntas sobre sua vida e seus relacionamentos sem mentir uma única vez sequer. Outros oito voluntários sãos fizeram a mesma coisa, em instituições diferentes. Todos, exceto um, foram diagnosticados com esquizofrenia e internados.

Assim que foram admitidos, os pacientes passaram a agir normalmente. Observavam a tudo e faziam anotações em suas cadernetas. No começo, as anotações eram feitas longe do olhar dos funcionários, mas logo eles perceberam que não havia necessidade de discrição. Médicos e enfermeiros passavam pouquíssimo tempo com os pacientes e nem ao menos respondiam às perguntas mais simples. “Apesar de seu show público de sanidade, nenhum deles foi reconhecido”, escreveu Rosenhan no artigo On Being Sane in Insane Places (“Sobre Ser São em Locais Insanos”), publicado na conceituada revista Science, em janeiro de 1973. Ironicamente, os pacientes reais duvidavam com freqüência da condição dos novos colegas. “Você não é louco. Você é um jornalista ou um professor checando o hospital”, disseram diversas vezes.

Os pacientes estavam certos. Rosenhan era mesmo um acadêmico e sua internação, assim como a dos outros voluntários, era parte de um estudo pioneiro para avaliar a capacidade médica de diagnosticar distúrbios mentais. Hoje, ele é professor emérito das Faculdades de Psicologia e Direito da Universidade de Stanford.

Os falsos pacientes foram mantidos nos hospitais por períodos que variaram de 7 a 52 dias. Foram medicados (assim como boa parte dos internados reais, eles escondiam as pílulas sob a língua e as jogavam fora quando já não estavam mais na presença dos funcionários) e liberados com o diagnóstico de “esquizofrenia em remissão”, uma expressão médica usada para dizer que o paciente está livre dos sintomas.

Já de volta à sua identidade real, os pesquisadores requisitaram os arquivos sobre suas estadas nos hospitais. Em nenhum dos documentos havia qualquer menção à desconfiança de que estivessem mentindo ou que aparentassem não ser esquizofrênicos. A conclusão que David Rosenhan escreveu para o estudo desconcertou a psiquiatria americana. “Agora sabemos que somos incapazes de distinguir a insanidade da sanidade.”

LOUCURA EXISTE!

A conclusão de Rosenhan não era de todo uma novidade para a comunidade médica. Desde a Segunda Guerra Mundial, quando a porcentagem de homens liberados pelo exército por razões psicológicas variava de 20% a 60% entre estados, os americanos começaram a desconfiar de que seus diagnósticos tinham a precisão científica de uma cartomante. Para piorar, pesquisas começaram a mostrar que os Estados Unidos estavam diagnosticando um número muito maior de esquizofrênicos do que a Inglaterra. Seria o chá das cinco um remédio tão eficiente contra distúrbios mentais?

O estudo de Rosenhan deixava claro que o problema não eram as mentes dos ingleses e sim a maneira pouco eficiente de se fazer diagnósticos nos Estados Unidos. O instrumento usado por médicos e psiquiatras nessa tarefa era (e continua sendo) o Manual de Diagnóstico e Estatística dos Distúrbios Mentais (DSM, na sigla em inglês). O manual é reconhecido pela Associação Americana de Psiquiatria como a lista oficial de doenças mentais e é usado em hospitais e consultórios psiquiátricos do mundo inteiro.

Mas em 1973, o DSM ainda estava em sua segunda versão e os diagnósticos dados usando o livro de cem páginas variavam de forma absurda. Um mesmo paciente poderia ser descrito como histérico ou hipocondríaco, dependendo apenas de quem o avaliasse. E essa era uma das questões centrais do estudo de Rosenhan. “Será que as características que levam alguém a ser tachado de louco estão mesmo no paciente ou estão no ambiente e contexto em que o observador está inserido?”, escreveu ele em On Being Sane....

Essa pergunta faz ainda mais sentido quando comparamos os diferentes conceitos de loucura ao longo da história. Homens cujo estado de espírito difere drasticamente da média dos demais existem desde as épocas mais remotas – assim como tratamentos para curá-los. No entanto, por séculos, acreditava-se que a loucura era causada pela vontade dos deuses sendo, portanto, parte do destino de alguns. 

Fosse para punir ou até mesmo para recompensar – o Alcorão conta como Maomé achava veneráveis os loucos, já que tinham sido abençoados com loucura por Alá, que lhes tirava o juízo para que não pecassem – fato é que a loucura estava associada com a idéia de destino e participava da vida social assim como outras formas de percepção da realidade. “A definição de loucura em termos de ‘doença’ é uma operação recente na história da civilização ocidental”, escreveu João Frayze-Pereira, no livro O que é a loucura.

E mesmo vista como doença mental, a relação que se desenvolve com ela pode variar muito de cultura para cultura. Na Malásia, é comum mulheres mais velhas apresentarem um quadro psíquico conhecido como latah. É uma condição que faz com que a pessoa fique completamente alterada por um bom tempo, gritando e falando palavrões. Mas, no lugar de serem excluídas socialmente, essas pessoas são celebradas e costumam animar reuniões sociais com seu pequeno show de excentricidades.

Os próprios exemplos do que configura um estado alterado de consciência mudam radicalmente de acordo com o lugar, o tempo ou a cultura. Só para citar um exemplo, em 1958, um jovem negro americano foi levado a um hospital psiquiátrico depois de se inscrever para a Universidade do Mississippi. Qualquer negro que pensasse que pudesse estudar ali estava, obviamente, louco.

Ora, se a loucura – suas razões, interpretações e definições – pode mudar tão drasticamente diante de conceitos como geografia e tempo, como é possível afirmar que a loucura seja um distúrbio da mente e não apenas um desvio social? Será que Thomas Szars, um dos líderes do movimento antipsiquiatria no mundo, está certo quando diz que a psiquiatria não passa de uma polícia moral disposta a impedir pensamentos e condutas que não são agradáveis à sociedade?

A CIÊNCIA FALA

Hoje, a ciência faz uma distinção clara entre loucura e doenças mentais. “Talvez pareça desconcertante, mas os psiquiatras não se utilizam de termos como louco ou loucura e nenhuma das atuais classificações dos distúrbios psiquiátricos os inclui”, diz Sérgio Bettarello, do Instituto de Psiquiatria da USP. 

Os absurdos classificatórios de alguns anos atrás, como chamar uma mulher que se apaixona por um homem mais novo de louca, minguaram. “A loucura como estado de ampliação da existência é positiva. Você costuma sair enriquecido depois de uma experiência dessas. Já as doenças mentais são o oposto disso. No lugar de liberdade, elas te dão uma restrição da autonomia”, diz Bettarello.

A loucura que a psiquiatria trata é chamada de psicose, uma distorção do pensamento e do senso de realidade, que pode prejudicar drasticamente a vida do paciente. De fato, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, cinco entre as dez maiores causas de incapacidade no mundo são problemas mentais. O ranking é feito levando em conta dois quesitos: número de anos de vida e número de anos produtivos que a doença rouba do paciente. 

E, no caso das doenças mentais, há pouca concorrência em relação ao segundo quesito. “Seja pelo estigma que carrega, seja pelos transtornos que traz à rotina da pessoa, distúrbios mentais podem levar a péssima qualidade de vida”, diz o psiquiatra Roberto Tynakori. Qualquer pessoa com depressão crônica ou com um parente próximo que sofra de esquizofrenia sabe bem disso.

Quando surgiu, no século 18, a psiquiatria era vista como uma prática menor, sem a objetividade necessária às coisas tratadas pela ciência. Se a própria definição de seu objeto de estudo era nebulosa, como seria possível propor diagnósticos e tratamentos confiáveis? A busca desesperada por explicações lógicas e maneiras científicas de tratar os males da mente produziu algumas das práticas mais macabras na história da ciência (veja quadros abaixo) e não teve muito sucesso até a metade do século 20. 

Somente quando o neurocientista português Egas Moniz ganhou o Prêmio Nobel de Medicina pela invenção da lobotomia – uma cirurgia de danificação dos lobos frontais que é vista hoje como um dos exemplos mais bem-acabados da crueldade enfrentada em hospitais psiquiátricos – é que a psiquiatria viu-se, finalmente, aceita entre os homens da ciência. “Pode-se dizer que uma nova psiquiatria nasceu em 1935 quando Moniz deu o primeiro passo corajoso em direção ao campo da psicocirurgia”, escreveram os editores do New England Journal of Medicine em 1949. A psiquiatria havia, finalmente conquistado a credencial necessária para vestir o jaleco da medicina.

A segunda revolução nos tratamentos veio algum tempo depois, com a criação dos remédios antipsicóticos. Agora era possível tratar pacientes mentais dispensando a internação – uma condição fundamental para a revolução que teria início na década de 1960: o fim dos manicômios. A invenção facilitou a vida de muitos pacientes, piorou a de outros (os efeitos colaterais costumam ser graves) e trouxe muito dinheiro para a indústria farmacêutica (só para citar um exemplo, o antipsicótico olanzapine é o terceiro remédio mais vendido do mundo).

Mas o avanço nos tratamentos não resolvia a questão mais fundamental no processo: a precisão do diagnóstico. Há casos muito claros de perturbação mental, mas há outros em que é quase impossível determinar a linha que separa a simples imaginação humana da falta de lucidez restritiva típica das manias ou psicoses. David Rosenhan é uma prova disso.

Quando seu artigo foi publicado, Rosenhan recebeu críticas duras de diversos psiquiatras. Muitos o acusaram de não ser suficientemente científico, afinal era impossível provar como os pacientes realmente haviam se comportado (Rosenhan nunca divulgou o nome das instituições em que foram internados já que, dizia, não era sua intenção atacar pessoalmente esse ou aquele hospital). 

Um dos grandes críticos do trabalho dele foi Robert Spitzer, que na época trabalhava no Centro de Pesquisa e Treinamento Psicanalíticos da Universidade Columbia, nos Estados Unidos. Spitzer acredita que o fato de terem sido liberados com o diagnóstico de esquizofrenia em remissão é uma prova de que os funcionários do hospital conseguiram sim distinguir a sanidade da insanidade. 

Ainda assim, Spitzer resolveu revisar o Manual de Diagnóstico vigente e logo percebeu que havia pouquíssimas provas científicas embasando os diagnósticos. Ele montou grupos de pesquisadores e foi atrás de pesquisas e evidências. Em 1974, lançou a terceira edição do DSM, um calhamaço de 480 páginas e quase 300 diagnósticos catalogados.

OS LOUCOS FALAM

Durante sua temporada no hospital psiquiátrico, David Rosenhan percebeu que “uma vez marcado como esquizofrênico, não há nada que o paciente possa fazer para superar essa etiqueta. A etiqueta muda completamente a percepção que os outros têm dele e de seu comportamento”. Características normais, relatadas pelos pseudopacientes, foram interpretadas pelos enfermeiros como sinais da doença. 

A aproximação de um dos pais durante a adolescência, por exemplo, transformou-se em “ausência de estabilidade emocional” no relatório médico. E a irritação dos pacientes com a falta de atenção dos funcionários era vista como mais um sintoma da doença e não como reação aos maus tratos.

Ao lutar por seu lugar entre as práticas da ciência, a psiquiatria moderna havia instituído uma relação com os doentes que ficou famosa na definição do filósofo francês Michel Foucault: o monólogo da razão sobre a loucura. A idéia de que pacientes mentais eram desprovidos de razão e, portanto, não tinham direito a opinar sobre sua vida e tratamento legitimou vários abusos da medicina. 

Esterilização forçada e proibição de casar são só dois exemplos do que era visto como verdade incontestável quando o assunto era a vida dos doentes mentais. Um dos jornais mais respeitados do mundo, The New York Times, escreveu em seu editorial, em 1923, que “é uma certeza que o casamento entre dois doentes mentais tem de ser proibido”.

A obra de Foucault transformou-se em inspiração para os movimentos que começavam a tomar corpo na década de 1960: a luta antimanicomial e a antipsiquiatria. Em todo o mundo, ex-pacientes de hospitais psiquiátricos começaram a se organizar contra os abusos da razão sobre a loucura. O objetivo era um só: dar “ao indivíduo a tarefa e o direito de realizar sua loucura”, como escreveu Foucault.

Mas até que ponto vai a liberdade do indivíduo de realizar sua loucura? Para a maior parte dos governos, o limite é o risco de morte. Foi exatamente por isso que Rosenhan e seus companheiros foram internados. Naquela época, acreditava-se que ouvir uma voz dizendo palavras como “oco” e “vazio” era um sinal de que, inconscientemente, aquela pessoa acreditava que sua vida era oca, que não valia a pena. Dali para o suicídio, seria um pulo, acreditavam os médicos. 

Mas nem todo mundo concorda que o tratamento deve ser obrigatório quando há risco de morte. “Qualquer tratamento forçado é ilegal”, diz David Oaks, ex-paciente de hospitais psiquiátricos e fundador da organização Mind Freedom, uma organização que tem como um de seus lemas “psiquiatria cura discórdia, não doença”.

O fato de o tratamento ser imperativo quando existe risco de morte impede que, para algumas doenças, estudos sejam feitos usando dois grupos de pacientes: um medicado e outro não medicado. Sem provas de que o medicamento funciona melhor do que nenhum tratamento, a psiquiatria vira alvo de diversas críticas, principalmente no que diz respeito aos efeitos colaterais de seus medicamentos. “O que se espera da psiquiatria é que ela seja 100% eficaz e que não tenha nenhum efeito colateral. 

Obviamente, ela não atinge esse objetivo”, diz Bettarello. Mas nem todo mundo diz esperar 100% de eficácia. “No topo da minha lista de desejos está um simples pedido de honestidade”, escreveu o jornalista médico Robert Whitaker no livro Mad in America (“Louco na América”, sem edição em português). O livro faz um balanço das pesquisas sobre tratamentos psiquiátricos nos últimos anos e mostra como não existem evidências concretas para a maior parte das declarações de eficácia feitas pela indústria farmacêutica e, conseqüentemente, dentro dos consultórios psiquiátricos.

Honestidade também é o que pedem os participantes do Mad Pride (Orgulho Louco), um movimento de combate ao preconceito contra pacientes psiquiátricos e de celebração da cultura Louca (com L maiúsculo mesmo). Uma das ações do movimento é a passeata anual de loucos, inspirada nas paradas gays que já existem em diversas cidades do mundo. A idéia é desestigmatizar os doentes mentais e mostrar que existe sim vida normal entre eles.

No Brasil, o movimento da luta antimanicomial cresceu nos anos 80 e, inspirado em projetos bem-sucedidos dos Estados Unidos e Europa, idealizou centros de apoio a pacientes mentais organizados e administrados pelos próprios usuários, em conjunto com médicos e seus familiares. “A inserção não é algo que você concede a alguém. Ela precisa ser conquistada. O doente faz parte da sociedade e a relação que ele tem com sua doença é a mesma que a sociedade propõe”, diz o psiquiatra Tykanori, um dos expoentes do movimento no Brasil. 

A luta antimanicomial transformou o atendimento público de saúde mental com a criação dos Caps, Centros de Apoio Psicossocial, e abriu caminho para a aprovação, em 2001, da lei que prevê a extinção progressiva dos manicômios no Brasil. E incluiu efetivamente os pacientes em sua batalha. “Nós entendemos que podemos colaborar na construção teórica de um saber e nas práticas de reabilitação psicossocial”, escreveu a usuária Graça Fernandes no artigo “O avesso da vida. Como pode a assistência se transformar?”. Os pacientes, finalmente, rompiam o monólogo da razão e estabeleciam um diálogo sobre sua própria condição. “A sociedade percebeu que a participação dos doentes mentais enriquece-nos muito mais que o seu isolamento”, diz Tykanori.

O QUE É NORMAL?

Com os avanços da ciência, a baixa popularidade dos manicômios e a força dos movimentos organizados contra abusos psiquiátricos, é de se pensar que, se o experimento de Rosenhan fosse realizado nos dias de hoje, ele teria um resultado bem diferente do que o internamento imediato dos anos 70. Certo? Era isso que a psicóloga americana Lauren Slater queria descobrir quando decidiu procurar, em janeiro de 2004, oito prontos-socorros de saúde mental e afirmar que vinha ouvindo o som “tum-tum”. Ela conta que, exatamente como Rosenhan e seus colegas, a voz foi o único sintoma falso que apresentou.

Slater não foi tachada de esquizofrênica nem internada. No entanto, nos oito hospitais em que esteve, foi diagnosticada com depressão e recebeu pílulas de risperidone, um antipsicótico bem popular que, na época, era tido como um remédio leve (seis meses depois da experiência, o fabricante divulgou uma nota confessando ter minimizado os riscos do uso do medicamento nos materiais promocionais enviados a médicos). 

“Eu acredito que a ânsia de prescrever remédios dirige hoje o diagnóstico da mesma forma que a necessidade de enquadrar o paciente como doente fazia nos anos 70”, escreveu Lauren no artigo Into the cuckoo·s nest (“Dentro do ninho do louco” uma referência a One Flew Over the Cuckoos’s Nest, o título em inglês do filme “Um Estranho no Ninho”), publicado no jornal britânico The Guardian e, mais tarde, no livro Mente e Cérebro.

O médico Spitzer soube, pela própria Slater, do resultado do experimento. “Acho que médicos simplesmente não gostam de dizer eu não sei”, disse a ela pelo telefone, depois de um longo silêncio. A recusa em confessar ignorância não é uma particularidade da psiquiatria. “O problema é que o objeto dessa ciência somos nós mesmos e nossa normalidade. 

Ou seja, nossa natureza básica”, escreveu Lawrence Osbourne, no livro American normal: the hidden world of Asperger syndrome (“Normalidade americana: o mundo secreto da síndrome de Asperger”, não lançado no Brasil), que reúne informações sobre Asperger, uma doença cada vez mais comum nos Estados Unidos.

A síndrome de Asperger foi incluída no DSM-IV – a edição do manual, de 1994, com 884 páginas e 365 diagnósticos. Como o manual descreve os distúrbios a partir de seus sintomas, lista uma variedade imensa de emoções humanas, condutas e regras de relacionamento como desvios patológicos. Sentir-se angustiado depois do fim de um relacionamento, comer muito, comer pouco ou comportar-se mal na sala de aula são alguns exemplos de ações que aparecem na lista. É quase impossível não se reconhecer ali e se perguntar: mas, afinal, o que é normal?

Das duas uma: ou estamos mesmo ficando menos equilibrados – o que poderia ser explicado pelo ritmo e modos de vida do mundo moderno – ou nos viciamos em diagnósticos psiquiátricos. “Estamos transformando todo comportamento humano em patologia. Fazendo isso, criamos um sistema verdadeiramente louco, em que todos estão doentes”, diz o psiquiatra Mel Levine, diretor do Centro Clínico de Estudos sobre Desenvolvimento e Aprendizado, da Univerdade da Carolina do Norte. 

Nos Estados Unidos, o uso de medicamentos psiquiátricos está atingindo níveis altíssimos. Crianças de 2 anos recebem prescrição de remédios cujos efeitos a longo prazo são completamente desconhecidos. “É muito mais fácil encaixar a criança difícil em uma categoria e medicá-la, do que deixar que ela desenvolva naturalmente suas habilidades sociais”, diz Levine.

E, como quase tudo na vida, o mais fácil nem sempre é o melhor. “Mais do que tudo, o aumento de diagnósticos psiquiátricos representa um aumento gradual do preconceito em nossa cultura”, diz o psicólogo Richard DeGrandpre. Talvez seja a hora de começarmos a lidar melhor com as nossas próprias neuroses, manias e loucuras. E, sobretudo, aceitarmos nossas diferenças.

Médicos e loucos

Tratamentos usados para curar a loucura revelam algumas das convicções médicas ao longo da história

Furos no crânio (século 5 a.C.)

O que é: Fazer buracos no couro cabeludo do paciente
Justificativa: Os buracos permitem que os demônios, que provocam a loucura ao ocupar o corpo do paciente, possam abandoná-lo

Disciplina total (século 17)
O que é: Thomas Willis, um dos primeiros médicos a escrever sobre loucura, dizia que “disciplina, ameaças, algemas e bofetadas são tão necessárias quanto tratamento médico”
Justificativa: É a razão que separa os homens dos animais. Loucos são, portanto, como bichos e, para se recuperarem, precisam aprender a ter medo e respeito

Dor (início do século 18)
O que é: São empregadas diversas técnicas com o objetivo de machucar o paciente. A mais comum consiste em provocar bolhas no crânio e genitálias, usando soda cáustica
Justificativa: As dores obrigam a mente do louco a focar-se nessa sensação, deixando de lado pensamentos raivosos

Indução de vômito (1715)
O que é: Durante vários dias, diferentes tipos de purgantes são ministrados ao paciente
Justificativa: “Enquanto a náusea durar, alucinações constantes serão suspensas e, algumas vezes, removidas. Até o mais furioso vai se tornar tranqüilo e obediente”, dizia o médico George Man Burrows

Sangramento (1790)
O que é: Retirada de até quatro quintos do sangue do corpo
Justificativa: Danos cerebrais, masturbação ou muita imaginação podem levar à circulação irregular nas veias que irrigam o cérebro, que é a causa da loucura. A retirada do sangue poderia normalizar o fluxo

Afogamento (1828)
O que é: O paciente é colocado dentro de um caixão com furos e imerso na água. Deve ficar submerso até que “bolhas de ar parem de subir”. Depois é retirado e reavivado
Justificativa: O método leva à suspensão das funções vitais e possibilita que o paciente volte à vida com maneiras mais ajustadas de pensar

Cirurgias ginecológicas (1890)
O que é: Amputação do clitóris e retirada do útero
Justificativa: A vagina e o clitóris têm grande influência na mente feminina. A loucura pode ser resultado da agitação provocada por esses órgãos

Hidroterapia (1896)
O que é: O paciente é enrolado em uma rede e mantido dentro de uma banheira encoberta por uma lona (com um buraco para a cabeça) por horas ou até dias. Água gelada e água fervente são usadas alternadamente para encher a banheira
Justificativa: O banho prolongado induz à fadiga psicológica e estimula a produção de secreções da pele e dos rins, que podem reestruturar as funções do cérebro

Terapias endócrinas (1899)
O que é: Injeção de extratos dos ovários, testículos, glândulas pituitárias e tireóides de diversos animais
Justificativa: Os extratos modificam a nutrição das células do corpo e, portanto, levam à cura permanente

Esterilização (1913)
O que é: Esterilização forçada nos homens
Justificativa: A operação viabiliza a conservação do esperma, o elixir da vida, ajudando na melhoria do quadro

Extração de dentes (1916)
O que é: Remoção de dentes que apresentam problemas. A terapia não é aconselhada para pacientes num estágio avançado da doença
Justificativa: Bactérias são a causa de várias doenças crônicas e costumam ficar escondidas perto dos dentes. Elas podem seguir até o sistema circulatório e chegar ao cérebro, causando doenças mentais

Hibernação (1920)
O que é: O paciente permanece entre “cobertores” congelados por até três dias, para que a temperatura do corpo caia 12 C ou menos
Justificativa: O choque térmico pode fazer com que o paciente recobre parte das funções mentais

Coma provocado (1933)
O que é: O paciente recebe uma dose de insulina suficiente para levá-lo ao estado de coma. Depois de um tempo (de 10 a 120 minutos), é reavivado com uma solução de glucose
Justificativa: A hipoglicemia pode matar ou silenciar as células doentes e sem possibilidade de restauração. Os pacientes voltam do coma agindo como bebês de 5 anos o que é, sem dúvida, uma prova de sua recuperação

Convulsão (1934)
O que é: O paciente recebe uma injeção de metrazol e entra em forte convulsão, correndo o risco de quebrar ossos e dentes e ter hemorragias
Justificativa: A convulsão pode restaurar as funções mentais. Ou isso, ou o temor do paciente diante da terapia causa um choque cerebral tão forte que provoca a cura. De todo modo, a terapia é válida

Eletrochoque (1937)
O que é: Uso da eletricidade diretamente na cabeça para provocar o ataque de epilepsia
Justificativa: A convulsão produz danos cerebrais, eficientes na recuperação do paciente. A perda de memória, outra conseqüência do choque, é benéfica já que torna impossível a lembrança de eventos que lhe causem preocupação ou angústia.

Lobotomia (1940)
O que é: Aprimorada pelo neurologista português Egas Moniz, a cirurgia, que já vinha sendo realizada de diferentes maneiras desde o século 19, consiste em danificar os lobos frontais do cérebro.
Justificativa: Distúrbios acontecem porque pensamentos patológicos “fixam-se” nas células cerebrais, especialmente nos lobos frontais. Para curar o paciente, é preciso destrui-las

As faces da loucura

Alguns estereótipos fazem parte da imaginação de todos nós e ajudam a construir nossa idéia do que é a loucura

O profeta

O profeta Gentileza abandonou seu trabalho e sua família para andar pelas ruas do Rio de Janeiro pregando o amor e a paz. “Louco é o homem que preferiu enlouquecer, no sentido em que socialmente se entende a palavra, a trair sua idéia de honra humana”, escreveu o artista francês Antonin Artaud

O gênio

Van Gogh é só um dos exemplos da combinação entre talento extraordinário e distúrbios mentais. “Quando um intelecto superior se une a um temperamento psicopático, criam-se condições para aquele tipo de genialidade que entra para os livros de história”, dizia o filósofo inglês William James

O Melancólico

Um tipo comum no mundo moderno, o deprimido é o homem que perde o interesse pela realidade e passa a viver “no escuro”, abandonando progressivamente a relação consigo mesmo

O delirante

Dom Quixote é o exemplo mais famoso do herói sonhador, que passa a viver dentro de seus próprios sonhos. Seus delírios, como enxergar gigantes em moinhos de vento, criam uma realidade própria, que, para ele, é a verdadeira realidade

O violento

Edward Gein, um dos serial killers mais famosos do século 20, foi preso em 1957 quando a polícia achou corpos de mulheres esquartejados em sua casa. A história inspirou filmes como O Massacre da Serra Elétrica e reforçou a imagem que liga loucura e violência

O ilógico

Twiggy, modelo famosa nos anos 60, inaugurou o ideal de magreza exagerada. Vítima de anorexia nervosa, não enxergava o que parecia óbvio aos demais. Olhava o corpo esquelético no espelho e enxergava-se gorda

Loucura

A loucura através da história: o que é ser louco? – Considerações acerca da definição da loucura.

Existe um monólogo da razão sobre a loucura, já dizia Michel Foucault. A loucura tem sido, há muito tempo, silenciada pelo discurso racional: partimos do pressuposto de que o louco não tem o que acrescentar, pois sua experiência, muitas vezes, não faz parte da realidade compartilhada por nós, pessoas “normais”.

Porém, é importante ter em mente que, como qualquer fenômeno humano, a loucura é historicamente construída. De acordo com cada época, com cada contexto sociopolítico, a loucura é definida e compreendida. Entretanto, temos a tendência a pensar que falar em loucura é falar em psiquiatria. 

Uma análise da história da loucura nos mostra, entretanto, que a doença mental como expressão da loucura começou a existir apenas em um determinado momento histórico. A constituição da loucura não se dá a partir da psiquiatria, mas sim da divisão entre razão e não razão. Inclusive, é por causa da loucura que a própria psiquiatria pode existir.

Durante a Idade Média, a loucura era tida como parte da vida cotidiana, circulava livremente pelas ruas. Após a epidemia de lepra e seu desaparecimento depois das Cruzadas, os leprosários passam a conter pobres, vagabundos e “cabeças alienadas”, dando início à tradição de excluir os loucos da sociedade. 

No Renascimento, as conhecidas “Naus dos Loucos” navegavam com loucos a bordo dos navios, levando-os para diversos lugares numa tentativa de mandar a loucura para longe. No século XVII, a loucura se fixa no hospital. É importante lembrar, contudo, que o hospital não tem o mesmo valor de “local de cura” que temos hoje. Ele era um depósito no qual ficavam as pessoas indesejadas – dentre elas, os loucos.

O pensamento moderno, estruturado na sociedade burguesa que é voltada para a razão, aprisiona filosoficamente a loucura; na filosofia cartesiana que embasa essa sociedade, o eu que não pensa não existe, e, se o louco não é dotado de razão, não existe e pode ser excluído, jogado num Hospital Geral – estrutura semi jurídica que decide, julga e executa. 

Nessa época, a religião se apropria da loucura de maneira ambígua, explicitada no binômio desejo de ajudar x necessidade de punir, dando a ela um caráter moral que justifica os trabalhos forçados nos hospitais. O objetivo desses trabalhos era criar um “sábio arrependimento” que auxiliasse na superação da condição de loucura, mas sempre dialogando fortemente com ideias de repressão.

No século XVIII, a loucura fica melhor delineada como manifestação do não ser. A sociedade teme que esse desatino a contamine e continua acorrentando seus loucos aos hospitais gerais, com o objetivo de proteger a sociedade da possível ameaça da loucura. Creio que esse tenha sido o período histórico em que a loucura foi tratada de maneira mais grotesca, expondo-a em um espetáculo: a ideia era mostrar a animalidade da loucura, na tentativa de atender a um desejo da burguesia de exaltação da moral e da razão.

É somente no século XIX que a loucura passa a ser objeto da psiquiatria. Até esse momento, os loucos eram literalmente acorrentados nos hospitais, vivendo em condições desumanas de saneamento e higiene. Médicos como Philippe Pinel foram responsáveis por desacorrentar os loucos, entendendo que o louco é um doente, sendo, portanto, objeto de estudo da medicina. 

Porém, é importante ressaltar que, apesar de a situação física em que viviam os loucos ter sido muitíssimo melhorada a partir do entendimento do louco como um ser humano com dignidade, começa-se a criar em torno do louco asilado um círculo invisível de julgamentos morais. O hospital passa a ser um espaço de observação, diagnóstico e terapêutica, mas não deixa de ser também um espaço social onde o doente sofre um processo de acusação, julgamento e condenação. 

O louco sente remorso por ser o que é, e assim não desacredita do discurso da medicina que, dentro da lógica da exaltação da razão, silencia a loucura como possibilidade de existência e apreensão do mundo – apesar de, em muitos casos, ser boa a intenção do médico que quer curar o louco. O louco, por ser considerado incapaz, delega ao médico o cuidado de si, ou seja, delega o saber sobre si mesmo a outra pessoa, um especialista que, supostamente, sabe mais sobre sua loucura do que ele próprio.

Como foi dito, a concepção de loucura varia de acordo com o contexto histórico. Quando falamos em loucura, percebe-se claramente que não há uma definição clara sobre o que é ser louco. João Frayze-Pereira, em seu livro “O que é loucura?”, traz dados de uma pesquisa que fez com seus alunos de psicologia sobre o que é a loucura. 

A loucura é vista de diversas formas: como perda da consciência-de-si-no-mundo, como uma doença, como um distúrbio orgânico ou desequilíbrio emocional que levam a um desvio de comportamento, como distúrbio emocional cuja origem é o desajustamento social do indivíduo, como desvio comportamental em relação a uma norma socialmente sancionada, como estado de desligamento da realidade ou, por fim, como tomada de consciência de si e do mundo. 

Eu, particularmente, vejo a loucura como uma possibilidade de ver o mundo. A realidade existe para todos nós, mas cada um se apropria dela de uma forma, de acordo com as experiências que tem no mundo e com os outros. Muitas vezes, a loucura é a coragem da verdade de que Foucault fala: é deixa-se Ser, independentemente das normas pré-concebidas; é “não ter medo de mostrar as verdades para o mundo”, como diz Frayze-Pereira. 

Obviamente, essa forma de ser traz sofrimento, uma vez que se espera que o louco compartilhe da maneira de apreender o mundo que entendemos como “normal”. A ele é negada sua maneira de existir, o que faz com que surja um sentimento de que ele não pertence a lugar nenhum – sentimento esse que é reforçado a cada vez que não reconhecemos o louco como um agente de sua própria história e da história da sociedade, dizendo que a loucura é somente uma doença que deve ser curada.

Não podemos esquecer o que Foucault fala sobre a loucura no livro “Doença mental e psicologia”:“A doença só tem realidade e valor de doença no interior de uma cultura que a reconhece como tal.” Desta forma, é imprescindível ter sempre em mente que da mesma forma que a loucura não existe sem a razão, nossa tão querida e cultuada razão também não existe sem a loucura; as duas coexistem, em relação. 

A loucura está dentro da razão, pois se caracteriza não pelos comportamentos do louco, mas pela quebra das regras do que é considerado “normal”. Assim, o erro na conceituação da loucura feita pelo discurso científico está em tomá-la como um fato em si quando, na realidade, ela é essencialmente relacional e varia de acordo com o contexto histórico.

Autora: Luisa Bertrami D'Angelo

11/27/2014

Loucura



A loucura ou insânia é segundo a psicologia uma condição da mente humana caracterizada por pensamentos considerados anormais pela sociedade. É resultado de doença mental, quando não é classificada como a própria doença. A verdadeira constatação da insanidade mental de um indivíduo só pode ser feita por especialistas em psicopatologia.

Algumas visões sobre loucura defendem que o sujeito não está doente da mente, mas pode simplesmente ser uma maneira diferente de ser julgado pela sociedade. Na visão da lei civil, a insanidade revoga obrigações legais e até atos cometidos contra a sociedade civil com diagnóstico prévio de psicólogos, julgados então como insanidade mental.

Na profissão médica, o termo é agora evitado em favor de diagnósticos específicos de perturbações mentais, a presença de delírios ou alucinações é amplamente referida como a psicose. Quando se discute a doença mental, em termos gerais, psicopatologia é considerada uma designação preferida.

As significações da loucura mudaram ao longo da história. Na visão de Homero, os homens não passariam de bonecos à mercê dos deuses e teriam, por isso, seu destino conduzido pelos "moiras", o que criava uma aparência de estarem possuídos, ao qual os gregos chamaram "mania".

Para Sócrates, este fato geraria quatro tipos de loucuras: a profética, em que os deuses se comunicariam com os homens possuindo o corpo de um deles, o oráculo. A ritual, em que o louco se via conduzido ao êxtase através de danças e rituais, ao fim dos quais seria possuído por uma força exterior. A loucura amorosa, produzida por Afrodite, e a loucura poética, produzida pelas musas.

Philippe Pinel alterou significativamente a noção de loucura ao anexá-la à razão. Ao separar o louco do criminoso, afastou o aspecto de julgamento moral que constituía até então o principal parâmetro da definição da loucura.

Hegel afirmou que a loucura não seria a perda abstrata da razão: "A loucura é um simples desarranjo, uma simples contradição no interior da razão, que continua presente". A loucura deixou de ser o oposto à razão ou sua ausência, tornando possível pensá-la como "dentro do sujeito", a loucura de cada um, possuidora de uma lógica própria. 

Hegel tornou possível pensar a loucura como pertinente e necessária à dimensão humana, e afirmou que só seria humano quem tivesse a virtualidade da loucura, pois a razão humana só se realizaria através dela. Loucos são pessoas que não tem sanidade alguma, pois possuem distúrbios no cérebro, causando distorções da visão real do mundo.

Hipocrisia o mal do ser humano

A hipocrisia é o ato de fingir ter crenças, virtudes, ideias e sentimentos que a pessoa na verdade não as possui. A palavra deriva do latim hypocrisis e do grego hupokrisis ambos significando a representação de um ator, atuação, fingimento (no sentido artístico). Essa palavra passou mais tarde a designar moralmente pessoas que representam que fingem comportamentos.

Um exemplo clássico de ato hipócrita é denunciar alguém por realizar alguma ação enquanto realiza a mesma ação.

Para o linguista e analista social Noam Chomsky, a hipocrisia, é definida como a recusa de "... aplicar a nós mesmos os mesmos valores que se aplicam a outros", é um dos males da nossa sociedade, que promove a injustiça como guerra  e as desigualdades sociais, num quadro de auto-engano, que inclui a noção de que a hipocrisia em si é um comportamento necessário ou benéfico humano e da sociedade.

François de la Rochefoucauld revelou de maneira mordaz a essência do comportamento hipócrita: "A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude". Ou seja, todo hipócrita finge emular comportamentos corretos, virtuosos, socialmente aceitos.

O termo “hipocrisia” é também comumente usado (alguns diriam abusado) num sentido que poderia ser designado de maneira mais específica como um “padrão duplo”. Um exemplo disso, é quando alguém acredita honestamente que deveria ser imposto um conjunto de morais para um grupo de indivíduos diferente do de outro grupo.

Hipocrisia é pretensão ou fingimento de ser o que não é. Hipócrita é uma transcrição do vocábulo grego "hypochrités". Os atores gregos usavam máscaras de acordo com o papel que representavam numa peça teatral. É daí que o termo hipócrita designa alguém que oculta a realidade atrás de uma máscara de aparência.

11/22/2014

Delírio e loucura


Delírio às vezes denominado delusão é uma falsa crença mantida com grande convicção. É um sintoma que ocorre com frequência em transtornos psicóticoscomo na esquizofrenia no transtorno delirante persistente, nos episódios maníacos do Transtorno Bipolar ou na depressão psicótica. Podem ser classificados como delírios persecutórios, delírios de grandeza, ciúme patológico, delírios somatoformes, delírios amorosos ou um misto desses.

Delírios ocorrem tipicamente no contexto de doenças mentais ou neurológicas, embora não estejam ligados a qualquer moléstia em particular e tenham sido encontradas no contexto de muitos estados patológicos (tanto físicos quanto mentais). Todavia, elas são de particular importância no diagnóstico de desordens psicóticas e particularmente na esquizofrenia.

11/17/2014

Loucura

A loucura, longe de ser uma anomalia, é a condição normal humana. Não ter consciência dela, e ela não ser grande, é ser homem normal. Não ter consciência dela e ela ser grande, é ser louco. Ter consciência dela e ela ser pequena é ser desiludido. Ter consciência dela e ela ser grande é ser gênio.

Fernando Pessoa

Loucura

A psicologia nunca poderá dizer a verdade sobre a loucura, pois é a loucura que detém a verdade da psicologia...