Escolha o Idioma

2/21/2014

A Mulher e o Álcool


“Marie cresceu no seio duma família que gostava de se divertir e a bebida fazia parte do divertimento. Casou com um homem amigo da bebida, dado a festas e frequentemente eles continuavam bebendo depois da festa terminar, indo para a cama embriagados”.
"Eu bebia como um homem, nunca ficava atordoada e tinha orgulho nisso". Só quando chegou ao ponto de necessitar de duas ou três bebidas antes da festa e começar a ter cuidado em ocultar o que bebia, ela se deu conta que a sua maneira de beber era diferente da maior parte das pessoas. "Eu sentia-me culpada e embaraçada, mas nem por isso parei."
Mais tarde, tinha ela vinte e poucos anos, o seu casamento rompeu-se. "Tudo o que eu precisava" dizia ela "para uma desculpa para beber, era do tipo ‘coitadinha de mim’. Eu julgava que bebia por ter problemas, mas, de fato, tinha problemas porque bebia. Apenas cerveja, nada forte..." dizia a ela própria: "Cerveja era suficiente"; racionalizava; "mereço uma bebida porque estou sozinha com as crianças o dia todo".
"Apenas tomo uma cerveja porque se torna mais fácil descascar as batatas". "Apenas uma bebida para me acalmar". Quando os filhos estavam na escola, por vezes, dormia as suas sonecas, no tapete da sala!
Agora ela já tinha passado ao grau seguinte do alcoolismo, a fase de beber sozinha. Quando os amigos apareciam, ela escondia a lata da cerveja. Se um amigo lhe oferecesse uma bebida, ela perguntava-lhe as horas. Aos vinte e oito anos ela já estava irremediavelmente viciada. Se para um homem embebedar-se é mau, diz-nos agora Marie, para uma mulher alcoólica é dez vezes pior.
Verifica-se um estado de grande solidão porque uma mulher não pode confiar em ninguém, ficar à porta dos bares por não conseguir regressar a casa ou acordar com homens que não conhece. Um homem pode deixar-se na sarjeta, levantar-se, recuperar e voltar a ser um cavalheiro. A mulher alcoólica, mesmo quando está sóbria, verifica que é repugnada por todos.
Começa a fase da alcoólica se esconder, não quer sair à rua. Passado algum tempo isso assustou Marie e ela reagiu. Tentou parar de beber e esteve dois ou três dias sem beber - sentiu os sintomas de ressaca, convulsões, tremuras e os nervos descontrolados. Para tentar fechar o ciclo, regressou ao trabalho. Arranjou um bom emprego, que implicava bastante responsabilidade.
"Eu pensei que a trabalhar não iria ter tempo para beber. Mas em vez disso começava a beber mal chegava a casa. Dizia a mim própria que, depois dum dia de trabalho merecia uma bebida para relaxar; afinal não é verdade que muita gente que trabalha bebe os seus drinques quando chega a casa?"
A Marie voltou a casar. "Foi amor à primeira bebida. A sua única condição era que esperasse para abrir a primeira cerveja até que ele chegasse a casa. Um grande problema das mulheres alcoólicas é que os seus maridos não querem que elas deixem de beber completamente, mas que, apenas bebam menos. Eles querem ter uma parceira para a bebida".
O seu marido ficava pedrado e ia cedo para a cama. Mas ela não mesmo depois de ter estado a beber furtivamente todo o dia e de ter acompanhado o marido à noite. Sozinha, continuava a beber e enquanto via televisão, pensando que estava a fazer o que toda a gente faz. Mudaram-se para os subúrbios e ela comprou dois frigoríficos para as suas cervejas. Nem mesmo o nascimento dum terceiro filho a fez abrandar.
Aos trinta e poucos anos, Marie atingiu o estado das grandes falhas de memória. Ela tinha regressado ao trabalho e estava começando a "almoçar" cada vez mais cedo, primeiro às 11.30 h, depois às 11.00 h e escolhendo para cada dia da semana um restaurante diferente a fim de que pessoas não dessem conta. Vomitava frequentemente e dizia a si própria, que quem bebe, vomita.
Esquecia-se das coisas com facilidade e dizia a si própria que quem bebe, esquece. Era capaz de servir um jantar de festa completo e acordar na manhã seguinte sem mesmo se lembrar de que tinha havido esse jantar. Certa vez, acordou, depois de cinco dias de amnésia e deu consigo num banco a receber um cheque avultado da empresa. Em pânico, ligou finalmente para uma organização que ajuda alcoólicos.
Faz agora dez anos que Marie está sóbria. De princípio ela vivia com o receio de que alguém no seu emprego viesse a saber que ela tinha sido uma alcoólica. "Os patrões não gostam de ter alcoólicos por perto, nem mesmo alcoólicos em recuperação. Todos sabem que em cada quatro, um deles não vai conseguir manter-se no bom caminho e ninguém quer dar uma oportunidade a essas exceções".
Mas uma vez, quando ela não estava necessitando muito do seu próximo emprego, ela declarou a sua doença na ficha de candidatura. Para sua surpresa, ela não só foi contratada como lhe foi solicitado que ajudasse a aconselhar uma alcoólica. Há seis anos que ela ajuda alcoólicos e fá-lo agora profissionalmente, como conselheira para problemas de alcoolismo, num grande hospital da sua cidade. "Só vivo um dia de cada vez", diz Marie. "E dia-a-dia esculpi uma vida nova".
______________________**_____________________
Aos vinte e três anos Pat era divorciada, mãe de dois filhos e uma alcoólica desesperada. O vício da Pat começou na sua adolescência. Os seus pais eram alcoólicos e à noite, quando lhes trazia cerveja ou bebidas fortes depois do jantar, permitiam que ela também bebesse num pequeno cálice, cheio.
"Descobri rapidamente que o álcool me fazia parecer como eu desejava ser, inconsciente, bem humorada, esperta, capaz de me enfurecer e dizer tudo o que queria." Entre as colegas da escola secundária ela encontrou muitos que também bebiam. Da forma como a maior parte das raparigas sonham em ser famosas e encontrarem um verdadeiro amor, ela e as suas colegas sonhavam em ser crescidas, andarem bem vestidas e irem juntas a bares de classe, beber "drinques"!
Apesar de Pat nunca ter pegado num livro, concluiu o curso secundário aos dezesseis anos. ("Calculem o que eu podia ter sido se não fosse uma alcoólica! Em vez disso eu ganhei a reputação de ser uma rapariga que vomitava, fazia figuras parvas, tinha "falhas" de memória e ria-me disso no dia seguinte.")
Casou-se com um "quase desconhecido" assim que acabou o curso, a fim de "poder fazer o que me apetecesse". Mas o que lhe apetecia era beber e vida agitada. O marido não bebia e esperava que ela cozinhasse, tratasse da casa e dos filhos. Ela tinha os filhos bem tratados e ia prometendo deixar de beber. Mas, sem força ou motivação para manter a promessa, mentia, mendigava crédito e roubava no supermercado do bairro a fim de manter a sua reserva de cerveja. Ela foi sempre bebendo durante cinco anos, enquanto os seus pais, talvez ingenuamente a ajudavam a tomar conta dos netos.
Por fim, foi aconselhar-se com uma conselheira matrimonial. “Eu disse-lhe que tinha um problema de bebida, mas ela concentrou-se no casamento”. Se ela tivesse sugerido os AA ou similar, eu talvez pudesse ter ido procurar ajuda nessa altura. "Eu estava tão em baixo". Em vez disso tentou o suicídio, bebendo desinfetante. Depois duma noite passada no hospital, foi mandada para casa.
"Eu estava implorando auxílio através das minhas ações, mas ninguém se apercebeu disso". Desta vez ela tentou suicidar-se com gás do fogão e mais uma vez ela foi salva de uma morte rápida, mas não da morte lenta que o alcoolismo estava operando nela.
O divórcio chegou, com ele a solidão e mais razões para beber. Sóbria, ela era uma boa mãe; quando embriagada, gritava com os filhos e atirava-lhes com coisas.
Subitamente a Pat entrou numa nova fase de bebida. Tendo voltado a casar, reuniu todas as suas forças para agradar ao novo marido. Aos fins de semana eles enchiam-se de vinho porque o vinho "aliviava a úlcera dele". Durante a semana, enquanto ele ia para o seu bem/pago emprego, ela bebia o suficiente para aliviar a dor, sem desfalecer ou ter crises de amnésia. Um ano depois teve a sua terceira filha.
Parou de beber completamente nos últimos dois meses da sua gravidez, porque lhe provocava náuseas, mas quando voltou para casa com a filha, o médico cometeu o erro terrível de sugerir-lhe que tomasse um pouco de vinho para ajudá-la a dormir. "Foi uma licença para voltar a beber."
Desta vez a progressão foi mais rápida: sentia-se aterrorizada de manhã e durante a noite, tinha alucinações visuais e auditivas. "Eu só saía de casa para comprar cerveja e vinho". A minha vizinha passava lá por casa uma vez por dia para se assegurar que a minha filha estava bem. Um dia feri-me no pé e estive a sangrar todo o dia. Eu apenas fiquei sentada, a beber, e a ver o meu pé sangrar. Nessa altura perdi toda a esperança de voltar a estar sóbria. Eu pensava que não era capaz de enfrentar a vida sem álcool.
Então, ela e o marido encontraram uma pessoa numa convenção de negócios e vieram a saber que ele era um alcoólico recuperado. Ele disse-lhes sem rodeios o que tinha sido o seu caminho. Saíram dali juntos para a organização que o tinha ajudado, a qual passou também a ajudar também a Pat e seu marido.
Pat tem estado sóbria por mais de quinze anos. Durante muito tempo ela trabalhou como secretária, sempre com receio que alguém viesse a saber o seu passado e a despedisse. "Ninguém quer empregar um ex-alcoólico, especialmente uma mulher." Há cerca de um ano ela teve a oportunidade de se tornar conselheira para a reabilitação de alcoólicos no mesmo hospital onde trabalha Marie.
"Infelizmente" diz ela “trabalho principalmente com homens, pois muito poucas mulheres nos vem procurar”. Até alcançar certa idade, uma mulher pode vender o seu corpo para obter dinheiro para vinho ou viver com um homem que lhe dê abrigo e lhe vá mantendo o fornecimento de bebidas.
Por causa de ter sido protegida durante tanto tempo, uma mulher atinge frequentemente situações muito mais graves do que os homens. Ninguém se dá conta da sua cara, da sua fealdade e degradação até ser demasiado tarde, quando a única solução é o asilo para mulheres.
"Tenho visto mulheres nesses asilos, com o cérebro tão danificado pelo álcool que são autênticas mortas-vivas. Eu também vou a esses lugares, mas pela graça de Deus".


Meira da Cunha - In “Novas de Alegria”