“Marie cresceu no
seio duma família que gostava de se divertir e a bebida fazia parte do
divertimento. Casou com um homem amigo da bebida, dado a festas e frequentemente
eles continuavam bebendo depois da festa terminar, indo para a cama
embriagados”.
"Eu bebia como
um homem, nunca ficava atordoada e tinha orgulho nisso". Só quando chegou
ao ponto de necessitar de duas ou três bebidas antes da festa e começar a ter
cuidado em ocultar o que bebia, ela se deu conta que a sua maneira de beber era
diferente da maior parte das pessoas. "Eu sentia-me culpada e embaraçada,
mas nem por isso parei."
Mais tarde, tinha ela
vinte e poucos anos, o seu casamento rompeu-se. "Tudo o que eu
precisava" dizia ela "para uma desculpa para beber, era do tipo
‘coitadinha de mim’. Eu julgava que bebia por ter problemas, mas, de fato,
tinha problemas porque bebia. Apenas cerveja, nada forte..." dizia a ela
própria: "Cerveja era suficiente"; racionalizava; "mereço uma
bebida porque estou sozinha com as crianças o dia todo".
"Apenas tomo uma
cerveja porque se torna mais fácil descascar as batatas". "Apenas uma
bebida para me acalmar". Quando os filhos estavam na escola, por vezes,
dormia as suas sonecas, no tapete da sala!
Agora ela já tinha
passado ao grau seguinte do alcoolismo, a fase de beber sozinha. Quando os
amigos apareciam, ela escondia a lata da cerveja. Se um amigo lhe oferecesse
uma bebida, ela perguntava-lhe as horas. Aos vinte e oito anos ela já estava
irremediavelmente viciada. Se para um homem embebedar-se é mau, diz-nos agora
Marie, para uma mulher alcoólica é dez vezes pior.
Verifica-se um estado
de grande solidão porque uma mulher não pode confiar em ninguém, ficar à porta
dos bares por não conseguir regressar a casa ou acordar com homens que não
conhece. Um homem pode deixar-se na sarjeta, levantar-se, recuperar e voltar a
ser um cavalheiro. A mulher alcoólica, mesmo quando está sóbria, verifica que é
repugnada por todos.
Começa a fase da
alcoólica se esconder, não quer sair à rua. Passado algum tempo isso assustou
Marie e ela reagiu. Tentou parar de beber e esteve dois ou três dias sem beber
- sentiu os sintomas de ressaca, convulsões, tremuras e os nervos
descontrolados. Para tentar fechar o ciclo, regressou ao trabalho. Arranjou um
bom emprego, que implicava bastante responsabilidade.
"Eu pensei que a
trabalhar não iria ter tempo para beber. Mas em vez disso começava a beber mal
chegava a casa. Dizia a mim própria que, depois dum dia de trabalho merecia uma
bebida para relaxar; afinal não é verdade que muita gente que trabalha bebe os
seus drinques quando chega a casa?"
A Marie voltou a
casar. "Foi amor à primeira bebida. A sua única condição era que esperasse
para abrir a primeira cerveja até que ele chegasse a casa. Um grande problema
das mulheres alcoólicas é que os seus maridos não querem que elas deixem de
beber completamente, mas que, apenas bebam menos. Eles querem ter uma parceira
para a bebida".
O seu marido ficava
pedrado e ia cedo para a cama. Mas ela não mesmo depois de ter estado a beber
furtivamente todo o dia e de ter acompanhado o marido à noite. Sozinha,
continuava a beber e enquanto via televisão, pensando que estava a fazer o que
toda a gente faz. Mudaram-se para os subúrbios e ela comprou dois frigoríficos
para as suas cervejas. Nem mesmo o nascimento dum terceiro filho a fez
abrandar.
Aos trinta e poucos
anos, Marie atingiu o estado das grandes falhas de memória. Ela tinha
regressado ao trabalho e estava começando a "almoçar" cada vez mais
cedo, primeiro às 11.30 h, depois às 11.00 h e escolhendo para cada dia da
semana um restaurante diferente a fim de que pessoas não dessem conta. Vomitava
frequentemente e dizia a si própria, que quem bebe, vomita.
Esquecia-se das
coisas com facilidade e dizia a si própria que quem bebe, esquece. Era capaz de
servir um jantar de festa completo e acordar na manhã seguinte sem mesmo se lembrar
de que tinha havido esse jantar. Certa vez, acordou, depois de cinco dias de
amnésia e deu consigo num banco a receber um cheque avultado da empresa. Em pânico,
ligou finalmente para uma organização que ajuda alcoólicos.
Faz agora dez anos
que Marie está sóbria. De princípio ela vivia com o receio de que alguém no seu
emprego viesse a saber que ela tinha sido uma alcoólica. "Os patrões não
gostam de ter alcoólicos por perto, nem mesmo alcoólicos em recuperação. Todos
sabem que em cada quatro, um deles não vai conseguir manter-se no bom caminho e
ninguém quer dar uma oportunidade a essas exceções".
Mas uma vez, quando
ela não estava necessitando muito do seu próximo emprego, ela declarou a sua
doença na ficha de candidatura. Para sua surpresa, ela não só foi contratada
como lhe foi solicitado que ajudasse a aconselhar uma alcoólica. Há seis anos
que ela ajuda alcoólicos e fá-lo agora profissionalmente, como conselheira para
problemas de alcoolismo, num grande hospital da sua cidade. "Só vivo um
dia de cada vez", diz Marie. "E dia-a-dia esculpi uma vida
nova".
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Aos vinte e três anos
Pat era divorciada, mãe de dois filhos e uma alcoólica desesperada. O vício da
Pat começou na sua adolescência. Os seus pais eram alcoólicos e à noite, quando
lhes trazia cerveja ou bebidas fortes depois do jantar, permitiam que ela
também bebesse num pequeno cálice, cheio.
"Descobri rapidamente
que o álcool me fazia parecer como eu desejava ser, inconsciente, bem humorada,
esperta, capaz de me enfurecer e dizer tudo o que queria." Entre as
colegas da escola secundária ela encontrou muitos que também bebiam. Da forma
como a maior parte das raparigas sonham em ser famosas e encontrarem um
verdadeiro amor, ela e as suas colegas sonhavam em ser crescidas, andarem bem
vestidas e irem juntas a bares de classe, beber "drinques"!
Apesar de Pat nunca
ter pegado num livro, concluiu o curso secundário aos dezesseis anos.
("Calculem o que eu podia ter sido se não fosse uma alcoólica! Em vez
disso eu ganhei a reputação de ser uma rapariga que vomitava, fazia figuras
parvas, tinha "falhas" de memória e ria-me disso no dia seguinte.")
Casou-se com um
"quase desconhecido" assim que acabou o curso, a fim de "poder
fazer o que me apetecesse". Mas o que lhe apetecia era beber e vida
agitada. O marido não bebia e esperava que ela cozinhasse, tratasse da casa e
dos filhos. Ela tinha os filhos bem tratados e ia prometendo deixar de beber.
Mas, sem força ou motivação para manter a promessa, mentia, mendigava crédito e
roubava no supermercado do bairro a fim de manter a sua reserva de cerveja. Ela
foi sempre bebendo durante cinco anos, enquanto os seus pais, talvez
ingenuamente a ajudavam a tomar conta dos netos.
Por fim, foi
aconselhar-se com uma conselheira matrimonial. “Eu disse-lhe que tinha um
problema de bebida, mas ela concentrou-se no casamento”. Se ela tivesse
sugerido os AA ou similar, eu talvez pudesse ter ido procurar ajuda nessa
altura. "Eu estava tão em baixo". Em vez disso tentou o suicídio,
bebendo desinfetante. Depois duma noite passada no hospital, foi mandada para
casa.
"Eu estava
implorando auxílio através das minhas ações, mas ninguém se apercebeu
disso". Desta vez ela tentou suicidar-se com gás do fogão e mais uma vez
ela foi salva de uma morte rápida, mas não da morte lenta que o alcoolismo
estava operando nela.
O divórcio chegou,
com ele a solidão e mais razões para beber. Sóbria, ela era uma boa mãe; quando
embriagada, gritava com os filhos e atirava-lhes com coisas.
Subitamente a Pat
entrou numa nova fase de bebida. Tendo voltado a casar, reuniu todas as suas
forças para agradar ao novo marido. Aos fins de semana eles enchiam-se de vinho
porque o vinho "aliviava a úlcera dele". Durante a semana, enquanto
ele ia para o seu bem/pago emprego, ela bebia o suficiente para aliviar a dor,
sem desfalecer ou ter crises de amnésia. Um ano depois teve a sua terceira
filha.
Parou de beber
completamente nos últimos dois meses da sua gravidez, porque lhe provocava
náuseas, mas quando voltou para casa com a filha, o médico cometeu o erro
terrível de sugerir-lhe que tomasse um pouco de vinho para ajudá-la a dormir.
"Foi uma licença para voltar a beber."
Desta vez a
progressão foi mais rápida: sentia-se aterrorizada de manhã e durante a noite,
tinha alucinações visuais e auditivas. "Eu só saía de casa para comprar
cerveja e vinho". A minha vizinha passava lá por casa uma vez por dia para
se assegurar que a minha filha estava bem. Um dia feri-me no pé e estive a
sangrar todo o dia. Eu apenas fiquei sentada, a beber, e a ver o meu pé
sangrar. Nessa altura perdi toda a esperança de voltar a estar sóbria. Eu
pensava que não era capaz de enfrentar a vida sem álcool.
Então, ela e o marido
encontraram uma pessoa numa convenção de negócios e vieram a saber que ele era
um alcoólico recuperado. Ele disse-lhes sem rodeios o que tinha sido o seu
caminho. Saíram dali juntos para a organização que o tinha ajudado, a qual passou
também a ajudar também a Pat e seu marido.
Pat tem estado sóbria
por mais de quinze anos. Durante muito tempo ela trabalhou como secretária,
sempre com receio que alguém viesse a saber o seu passado e a despedisse.
"Ninguém quer empregar um ex-alcoólico, especialmente uma mulher." Há
cerca de um ano ela teve a oportunidade de se tornar conselheira para a
reabilitação de alcoólicos no mesmo hospital onde trabalha Marie.
"Infelizmente"
diz ela “trabalho principalmente com homens, pois muito poucas mulheres nos vem
procurar”. Até alcançar certa idade, uma mulher pode vender o seu corpo para
obter dinheiro para vinho ou viver com um homem que lhe dê abrigo e lhe vá
mantendo o fornecimento de bebidas.
Por causa de ter sido
protegida durante tanto tempo, uma mulher atinge frequentemente situações muito
mais graves do que os homens. Ninguém se dá conta da sua cara, da sua fealdade
e degradação até ser demasiado tarde, quando a única solução é o asilo para
mulheres.
"Tenho visto
mulheres nesses asilos, com o cérebro tão danificado pelo álcool que são
autênticas mortas-vivas. Eu também vou a esses lugares, mas pela graça de
Deus".
Meira da Cunha - In “Novas de Alegria”







