Dilma Franco
Fátima
de
Assis *
Norida Teotônio
de
Castro**
Assistente Social do Programa de Atenção aos Portadores de Transtornos Mentais relacionados ao Uso de Álcool e outras
Drogas –
PROAD/Poços
de Caldas/MG; Professora
na
Faculdade
de Ciências Humanas de
Aguaí/SP, Curso de
Serviço Social; Mestranda no
Curso de
Saúde Coletiva
pela Universidade do
Vale do Sapucaí – UNIVÁS, Pouso Alegre
– MG/Brasil.
E-mail: dilmafranco@oi.com.br.
** Psicóloga/UFMG,
Mestre em Psicologia
Clínica/PUCCAMP; Doutora
em Comunicação
e Semiótica/PUCSP; Docente na
Universidade do Vale do Sapucaí – UNIVÁS, Pouso Alegre – MG/Brasil. E-mail: norida@uol.com.br.
Submetido
em: março/2010. Aprovado em: junho/2010.
Vários estudos (CEBRID,
2001, 2005; SILVEIRA et al.,
2007) mostram as diferenças de gênero na incidência e prevalência no uso de álcool, sendo que as mulheres apresentam menor prevalência
no uso de
substâncias psicoativas, incluindo
o álcool. Porém esta
diferença tem diminuído
consideravelmente (ALMEIDA-FILHO, 2004; BARROS; LEHFEL,
2007),
o que pode
ser atribuído à conquista
da
igualdade de direitos
entre homens e mulheres, resultantes das lutas e movimentos feministas das décadas
de
1960 a 1980,
desencadeando uma
tendência também em relação à igualdade
no
consumo de
drogas, verificada
pela mudança no estilo de vida que a mulher adquiriu juntamente com seus novos
papéis
e responsabilidades.
Além das características específicas nas mulheres, existem outros fatores, chamados de predisponentes, que são ambientais, culturais, por influência da mídia, bem como os fatores psicológicos individuais (SILVA et al., 2010).
Os fatores demográficos (idade, estado civil, etnia
e ocupação), em consonância com outros aspectos como predisposição genética,
fatores psicológicos
e socioculturais, exercem influência no
comportamento das mulheres e contribuem para determinar o início e
o comportamento na evolução do
beber problemático (WILSNACK et al., 1994 apud EDWARDS et al., 2005).
O alcoolismo entre meninas de 12 a 17 anos dobrou de 2001 para
2005: passou de 3,5% para 6%.
A proporção de alcoolistas alcançou a razão de uma
mulher para cada três homens (CEBRID, 2001, 2005). Percebe-se, então, que o universo feminino está cada vez
mais
sensível ao uso de álcool, em virtude das
mudanças ocorridas no seu modus vivendi e que, apesar da preocupação do Ministério da Saúde e dos
esforços de diversos profissionais, existem muitos entraves
ou
barreiras pessoais para que a mulher alcoolista receba atendimento e tratamento diferenciados.
Muitas são as dificuldades encontradas para que a mulher alcoolista procure ajuda, começando
pelo local de tratamento, pelo acolhimento, pelo profissional
que
a recebe e pela proposta de tratamento
oferecida. Além disso, os tabus sociais, a
estigmatização e a culpa são alguns dos
fatores que dificultam a
procura de
tratamento (FIGLIE, 2006). De acordo com Zilberman, 2% das mulheres com
problemas
relacionados ao álcool
procuram tratamento, contra 8% dos homens (ABEAD, 2009).
O panorama atual
com
o aumento de consumo, abuso e dependência do álcool pelas mulheres,
bem como suas possíveis consequências
constituem um
problema que merece
atenção e implica
a necessidade de se obter mais conhecimento acerca deste universo feminino. Nesse sentido, o objetivo deste artigo foi o de conhecer o perfil
das mulheres alcoolistas, as circunstâncias do início do uso do
álcool e as condições reguladoras da
busca por tratamento.
Resultados e discussão
Os achados revelaram que as
mulheres tinham idades entre 40 a 49 anos (33,33%); predomínio de
pele branca (66,66%),
baixa escolaridade,
ensino fundamental incompleto (66,67%), religião católica (73,33%), solteiras (40%), constituídas de família
variante (80%), com filhos (80%), com
parceiros (53,33%), com vínculo empregatício (40%), renda familiar de 1 a 3 salários mínimos (86,67%), com habitação
própria (53,33%).
A autopercepção da saúde antes do tratamento foi considerada regular por 46,67% das mulheres; após o tratamento, boa. Declararam não ter doença clínica 66,67% dos casos;
60% utilizavam os serviços de saúde do PSF; 73,33% faziam as três principais refeições diárias; 100% não praticavam nenhum tipo de atividade física; e 73,33% eram tabagistas.
Início do uso
do álcool
O primeiro contato com o álcool pode acontecer em idades variáveis tanto na infância ou
adolescência quanto na vida adulta e em diversas
circunstâncias. O presente
estudo revelou que
as mulheres iniciaram
o uso de álcool, ou tiveram sua
primeira experiência com o mesmo, em duas fases da
vida: na infância e/ou adolescência e na vida adulta,
corroborando com um estudo sobre a
prevalência
de consumo de bebidas alcoólicas x
faixa etária, em uma região metropolitana do Brasil, que apontou:
A média de idade com
que
começaram a beber
foi
de 18,8 anos (desvio padrão =
4,96), sendo que um quarto desses indivíduos o fez antes dos 16 anos e metade
até os 18 anos. A idade mínima
referida para o início de uso de álcool foi de quatro anos e a
máxima de 50 anos (ALMEIDA; COUTINHO, 1993, p. 25). Siqueira et al. (2005) em um estudo retrospectivo envolvendo 400 pacientes verificaram que “a
idade média de início de ingestão alcoólica foi de 15 anos [...]”.
Além de verificar-se
um aumento progressivo da
utilização de álcool pelas
mulheres,
estes estudos corroboram os achados da presente pesquisa, na qual, das 15 mulheres entrevistadas,
33,33%
tiveram o início do uso nas fases infantil e adolescência.
Os primeiros
goles que eu tomei, eu lembro que eu tomei a primeira vez, foi, eu
tinha uns sete anos de idade *...+ Aí, eu, daí eu fui “tomano”, aos pouquinho.
Aí, depois dos 23 anos “memo”,
que eu... que aumentou mais (Débora, 41 anos).
[...] primeiro porre que eu tomei foi com oito anos [...] Aí, tive uma infância
normal, assim, sem a bebida. Quando eu comecei dos 12 aos 13 anos, aí eu comecei a comprar bebida [...] e
tomar no quarto, dentro de casa (Juliana, 33 anos).
Ah! Eu bebo, eu acho que desde a época que eu comecei a fumar. Tinha uns 16 anos, por aí. Tinha uns 16 anos. Na adolescência (Suzete, 61 anos).
Entretanto, estudo sobre
o perfil evolutivo de 1931 a 2000 sobre doença mental, mulheres e
transformação social, de Gastal et al. (2006 p.
252), contradiz os achados do nosso estudo em relação ao
início precoce do beber.
Os autores afirmam que
“o
perfil apresentado pelas
alcoolistas
é de
uma
mulher que inicia a ingestão alcoólica mais tarde [...]”. Também em estudo longitudinal retrospectivo, Simão et
al. (2002) encontraram
mulheres que iniciaram a ingestão mais tarde que os homens.
A literatura de quase duas décadas (1991) considerava que, nas mulheres, havia uma relação
entre o beber e acontecimentos situacionais
específicos como problemas conjugais ou
interpessoais, perdas,
violências e outros que ameaçavam a condição feminina.
O beber alcoólico nas mulheres com frequência começa com fatores
situacionais
específicos, alguma ameaça aguda à sua adequação feminina, tais como problemas
conjugais
ou de relacionamento interpessoais,
um aborto
espontâneo, ou os filhos deixando o lar (HENNECKE et al. in GITLOW; PEYSER, 1991, p. 230).
Hochgraf e Brasiliano (2004), igualmente, endossam Hennecke et al. (1991, in Gitlow e Peyser, 1991) com relação ao início do beber a partir da ocorrência de eventos vitais significativos como morte ou separação de alguma pessoa especial, o que coincide com o relato das mulheres deste estudo.
[...] foi quando meu marido morreu. Eu não
bebia antes disso. Já tem uns 20 anos
que
ele morreu (Maria, 52 anos).
[...] foi depois da separação do pai dos meus filhos. Foi, ah!... Eu... faz tempo que eu separei do pai dos meus “fio” “memo”.
Faz 24 anos (Daniela, 51 anos).
As falas de Maria e Daniela demonstraram que houve uma associação do início do ato de beber
com
o evento da perda, pois, segundo alguns autores, vários fatores demográficos (PLANT,
1997, in EDWARDS
et al., 2005) interagem com
outros aspectos de
riscos como a predisposição genética (KENDLER et al.,
1995;
PRESCOTT et al., 1997,
in EDWARDS et al.,
2005), os
fatores
psicológicos e socioculturais
que se destacam e contribuem
para
o início e a evolução do
beber problemático (WILSNACK et al., 1994, in EDWARDS et al., 2005).
Esses fatores
ou fatos da
vida
diária
sugerem uma interação
com
o desenvolvimento de
problemas com a bebida. Sabe-se, também, que as
pessoas fazem uso de bebidas alcoólicas para
vários fins: celebrar eventos como casamentos, nascimentos, ritos de passagem, bodas, festas, reuniões, em
atividades sociais como festas, aniversários, reuniões de amigos ou ainda, para aliviar as tensões emocionais
e as
perdas: perda do emprego, morte, envelhecimento, partida
dos
filhos, medos etc.
O álcool, a princípio, proporciona uma sensação de
euforia e bem-estar e até mesmo de poder que, momentaneamente, representa solução para todos os problemas.
Numa tentativa de aliviar
a ansiedade, a redução das tensões ou ainda de descobrir que, nos encontros sociais,
as pessoas desempenham papéis que em outras circunstâncias não teriam coragem de
fazê-lo, o álcool passa a ser usado como suporte de alívio,
cada vez mais frequente e mais precocemente,
passando a fazer parte da vida
das pessoas.
Múltiplos fatores estão associados ao uso de bebida alcoólica. Estudo sobre o trabalho atual e
perspectivas da genética destaca que fatores biológicos, psicológicos
ou sociais contribuem para a suscetibilidade ao alcoolismo (BAU, 2002).
Mabuchi et al.
(2007) revelam que pesquisa realizada em São Paulo com 100 trabalhadores do serviço de coleta de lixo aponta a influência de amigos como maior motivação para
o início do uso do
álcool (46%), seguindo-se outros motivos como descontração,
miserabilidade, separação matrimonial, lazer e desemprego. Gisele também apresenta a motivação de amigos como desencadeadora de seu
início na ingestão de bebida alcoólica.
Ah! eu comecei a beber com
16 anos, através de amizade, de amizade (Gisele, 26 anos).
As outras entrevistadas apresentam vários tipos de motivações que desencadearam o início do uso de bebida
alcoólica:
Meu pai veio morar comigo. Ele tem 5% só de vista e ele falava: Filha, você podia
era comprar uma pinguinha
pra mim. E eu ia. Eu abria pra ele e comecei a
sentir cheiro bom. Aí eu tomava um golinho (Samanta, 43 anos).
Solteira “memo”, nunca bebi. Comecei a “bebê” depois que eu casei. Portanto, eu
aprendi a
“bebê” depois que eu casei (Madalena, 44 anos).
Eu fui morar com ele *primeiro marido+. Aí, eu fui “passano”.
Aí, eu comecei a
“bebê”. “Toma” uns goles... eu
apanhava dele.
Fiquei 12 anos apanhando...
(Edna, 38 anos).
As motivações que contribuem para o início do beber alcoólico, associado a
eventos da vida, são
múltiplas, destacando-se,
entre outras: família, amigos, pressão do grupo social, violência doméstica,
conflitos pessoais,
fuga de problemas, prazer, busca
de
alternativa de vida.
Para Pedroso et al. (2006), existem várias teorias que buscam
explicar o comportamento de beber. Com base na aprendizagem social, nas influências
sociais da cultura, na família e nos parceiros e que esses agentes sociais influenciaram até mesmo a
existência de predisposição dos fatores individuais:
“um comportamento como o consumo de álcool não pode ser completamente entendido com base somente nos genes ou no meio, mas sim como um produto da interação entre diversos fatores genéticos e ambientais” (EDWARDS et al., 2005, p. 34).
Murad (1998, p. 155) complementa
as considerações acima:
Estudos feitos com filhos adotivos mostram que, independentemente das influências ambientais, os filhos biológicos
de alcoólatras – mesmo quando seus pais adotivos são abstêmios – apresentam maior probabilidade de se tornarem também alcoólatras do que os filhos dos não alcoólatras. Os seus filhos têm quatro vezes maiores probabilidades
de
se tornarem alcoólatras do que a média da
população.
De um modo genérico, os vários estudos realizados em famílias, gêmeos, adoção e moleculares
permitem concluir
pela importância dos fatores hereditários
como causa de dependências químicas. O autor reforça
ainda que “embora
o componente genético na vulnerabilidade
seja
significativo, a grande complexidade que o caracteriza
tem
dificultado a identificação de genes específicos” (BAU, 2002,
p. 188).
Entretanto, acredita-se que crescer em um ambiente familiar que possui uma ou várias pessoas
que
apresentam problemas
relacionados
com a bebida seja
sempre um desafio. A
família pode ser permissiva
quanto ao uso de bebidas alcoólicas,
o que potencializa
o risco para
o início do uso. Tomemos os
exemplos das mulheres, falando de suas famílias:
Meu pai ia tomar de tarde. Meu pai, na época, bebia pinga. Então, ele chegava, a
gente morava na roça. Ele chegava
do
serviço, sempre na hora, antes um
pouquinho da janta. Ele tomava, deixava um restinho pra nós (Mariana, 32 anos).
Minha família inteira bebia. Meu pai era alcoólatra [...] O meu pai bebia muito. Os irmão, tudo... (Margarida, 52 anos).
Dados de estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), a pedido do Conselho Estadual Antidrogas daquele Estado, revelaram que 83% das mulheres e 73% dos homens relataram já existir em
sua família pelo menos um consumidor de algum tipo de droga, sendo o pai (47%) o mais citado pelos entrevistados (REVISTA
CIÊNCIA HOJE, 2005).
Estes dados são ratificados pelas
falas das entrevistadas:
Meu pai, minha mãe. Todos “bebia”. Ensinou “nóis” a “bebê”... Todo mundo na
minha
casa
bebia... Já morreu dois
“irmão” meu que bebia. Ensinou. “Nóis” aprendeu, né? *...+ “Meu pai dava
pinga pra gente desde pequena”. Naquela época, ele bebia, a gente “porvava”. Bebia. Só bebia. Foi criado “nas” bebida
*risada+. Ele bebia e deixava um restinho pra gente “porvá”. (Gu, 59 anos).
A minha “vó” bebia *risos+. A
mãe do meu pai. Meu pai “tamém”
bebia. A minha
“vó”
bebia, vivia “bebeno” umas
pinguinhas escondido...
E, meu pai
bebia
sempre. Todos os dias (Juliana, 33 anos).
Gu e Juliana também foram crianças e adolescentes que conviveram com algum membro familiar que apresentava
problemas
com
a bebida alcoólica.
Lembram Edwards et al. (2005 p. 32) que, “além das
influências genéticas, parece provável
que
os filhos “herdam” dos pais
padrões de beber excessivo, assimilando esse comportamento, bem como os valores ou as crenças a ele relacionados”.
O certo é que essas mulheres entrevistadas
relataram envolvimento familiar com o uso de bebida
alcoólica e que há grande importância
dos fatores familiares no desenvolvimento do uso de álcool por parte de seus membros.
Busca pelo tratamento
Em nossa sociedade, seja homem ou mulher, a pessoa alcoolista é vista como o bêbado,
o irresponsável, incompetente, vergonha da família. O
preconceito que atinge a
mulher que faz
uso de bebida alcoólica é
enorme. Vários sentimentos tomam conta da mulher mais facilmente do que do
homem, como vergonha, culpa, medo,
baixa estima e, por isso, muitas delas tentam evitar
a todo custo
que
alguém descubra o seu problema.
A visão da sociedade frente ao alcoolismo feminino é bastante agressiva; a
mulher é considerada mais imoral, com comportamento inadequado, sofre com
a estigmatização e acaba por procurar tratamento com menos frequência do que
os homens, o que
lhes acarreta mais comprometimentos ao
longo do uso (NÓBREGA; OLIVEIRA, 2005, p. 820).
Esses rótulos ganham maiores vultos para a mulher, principalmente quando vindos de membros
de
seu convívio afetivo. Aparentemente a
doença
alcoólica parece ser individual, porém ela, ao mesmo
tempo em que atinge o dependente, acaba afetando
as relações sociais que o envolvem. Estas relações,
sejam familiares ou afetivas, laborais
ou de amizades, acabaram por influenciar as mulheres deste estudo
para a busca do tratamento.
As mulheres deste estudo
foram encaminhadas para tratamento ou procuraram pelo serviço
espontaneamente, seja pelo desejo de parar, para reduzir o uso abusivo ou por problemas associados.
Eu não tinha jeito d’eu ficar
com a bebida e com a minha filha. Ou “ocê” larga ou “ocê” perde. Eu só tinha dois caminhos:
ou era a bebida ou era a minha “fia”.
Mais, o amor que eu tenho nela, valia eu parar
de beber.
Mais eu achei que eu ia parar pouco tempo...
Pensava: certo que fico um tempo sem “bebê”, esse povo
esquece de mim, né? Depois eu bebo, de novo. Mais aí, o próprio corpo vai te “acustumano”
a ficar sem aquilo. Aí “ocê” começa a ver que aquilo não “faiz” parte da tua vida mais (Edna, 38 anos).
Edna encontra na filha a motivação para buscar tratamento,
mesmo não compreendendo a sua
doença,
pois
acreditava poder beber
novamente.
Bom, fazia uns quatro meses que eu tinha parado de beber por minha conta mesmo. Aí, eu comecei a sentir deprimida”. *...+ Eu fui mais também, foi para parar de fumar. Elas falaram: parar de fumar não é aqui. Aqui é só para parar de beber. Eu
falei: Eu também quero fazer
isso daí, porque eu ando com depressão, né? Aí, foi
aonde eu comecei o
tratamento (Suzete, 60 anos).
A busca de ajuda no
ASM por parte de
Suzete foi por
motivos
secundários,
não
sendo
o alcoolismo sua principal preocupação ou queixa, mas sim o tabaco e a depressão. A depressão
é considerada comum entre as pessoas com problemas relacionados ao álcool
e é
um dos elementos
desencadeadores e decisivos
na busca de tratamentos (EDWARDS et al., 2005).
Muitos são os eventos e/ou elementos desencadeadores que encorajam, estimulam e reforçam a busca pelo tratamento,
mesmo quando estes não estão relacionados,
diretamente, ao problema com a
bebida ou quando o alcoolismo não é visto como principal problema. As mulheres tendem a procurar os
serviços de saúde generalistas e não os
serviços especializados,
pelo menos na primeira
vez (EDWARDS et al.,
2005).
Este
é o caso de Samanta:
[...] através da minha médica, né? [UBS] Que ela... ficou brava comigo e falou que o meu caso já estava virando uma doença mesmo e que eu tinha que procurar
a saúde mental.
Aí, eu fui... e aí, a moça falou: Olha, aqui quem "tá" aqui ou é
dependente de álcool ou de
droga. Eu falei: Eu sou álcool (Samanta, 43 anos).
Para Samanta,
o aconselhamento profissional foi
determinante nesse processo. Porém, essa decisão pode ter ocorrido em virtude da crítica recebida ou do medo da doença – “já estava virando
doença mesmo” –, até então não percebido pela paciente.
Eu, eu não sei. Porque eu tava na casa da minha irmã. Aí, eu fiquei ruim e “elas”
me levou lá na Policlínica.
De lá, eles mandaram
eu
pra lá [ASM]... Não sei até hoje... assim, eu fiquei ruim, lá. A minha pressão subiu demais... (Maria, 52 anos).
Na narrativa de Maria, percebe-se que a motivação em buscar tratamento também não partiu dela própria, pois não houve percepção dos efeitos do álcool no organismo. A procura pelo tratamento é, muitas vezes, induzida por outros atores sociais, em função da
ocorrência de eventos que chamam a
atenção dos agentes da
rede de cuidados:
Na quinta-feira eu recebi uma carta do Conselho Tutelar pra mim comparecer lá, que eu tinha espancado o
meu filho, né? (Juliana, 33 anos).
No relato de Juliana, os prejuízos foram percebidos após passar por um momento de dor,
sofrimento e medo de perder o seu filho. Neste caso, o fator determinante – “filho” – exerceu influência
na decisão pelo tratamento, contrapondo estudo desenvolvido por
Nóbrega e
Almeida (2005,
p. 820), no
qual “os familiares,
pais, filhos e amigos
das narradoras, não
exerceram influência na decisão das mesmas procurarem por
tratamento [...]”.
Todos os fatores ou transtornos decorrentes
do uso problemático do álcool podem contribuir
para, em algum momento ao longo da vida do alcoolista, ser
motivação suficiente para a busca de tratamento. Um grande número de mulheres, após os anos
de
1980, virou chefe de família, sendo responsáveis pela família e com dupla jornada de trabalho (TROTTA; SIMÕES; BARBOSA, 2006). As responsabilidades pela manutenção e provisão familiar
dependem da
capacidade laboral e estabelecimento de um vínculo de trabalho.
Eu tava “bebeno” muito, né? Tava “bebeno”
muito. Nessa época eu morava aí,
eu e
meu filho e daí eu levantei um dia cedo pra mim ir “trabalhá” e não consegui “ficá” em pé (Daniela, 51 anos).
O trabalho trouxe a remuneração e a sobrevivência de Daniela. A preocupação pelo uso abusivo de álcool só apareceu quando ela se
apercebeu de sua fraqueza e do
comprometimento no trabalho, dando-lhe motivação para buscar
ajuda e tratamento.
Para a maior parte dessas mulheres, as motivações para procurar tratamento num processo de mudança específico se apresentaram de várias formas, devendo ser valorizadas pelo profissional
que
as atenderem ou por qualquer
pessoa do seu convívio social e
familiar.
Considerações finais
Os resultados
mostram que as mulheres ainda continuam enfrentando obstáculos dentro de uma
cultura discriminatória, oriunda de uma construção sociocultural tradicional, acentuada pelas transformações sociais e alterações enfrentadas
a partir do século XX.
A significação da doença do alcoolismo é dada pela “perda do controle sobre a
bebida” em quase
todas as falas, o que, para
as mulheres, representa o início da deterioração física e a consciência
de sua impotência diante do beber.
O sofrimento das mulheres pesquisadas
foi sendo desenvolvido num continuum, de acordo com o
grau de dependência.
São aspectos que devem ser considerados por estarem diretamente ligados a
tomadas de decisões importantes quanto parar com o sofrimento mediante busca pelo tratamento ou de manter-se no uso nocivo.
O uso nocivo de álcool continuará exigindo maiores reflexões, pois essa pesquisa indica que, diante dos múltiplos fatores que envolvem o fenômeno alcoolismo, maiores esforços deverão existir, tanto dos gestores, quanto dos
profissionais,
na tentativa de compreender e ajudar
o alcoolista e que, especificamente,
os programas de atendimento, acompanhamento e tratamentos
e qualquer trabalho
voltado para a prevenção, educação e tratamento requer de seus profissionais a quebra de paradigmas
estigmatizantes e
preconceituosos
para contribuição de maior
acesso aos serviços e,
diminuição
da exclusão social, com enfoque no processo multifacetal
de mudança
de vida do usuário de álcool.
Considerando que parte das mulheres pesquisadas iniciou a ingestão de álcool durante a infância
e a
adolescência e que a
maioria não concluiu o ensino fundamental, torna-se necessário efetivar ações que visem a melhorar o conhecimento sobre o complexo fenômeno do álcool e outras drogas às crianças e adolescentes na fase escolar, como medida preventiva, retardando
ou
evitando que sejam os próximos
usuários dos
serviços de tratamento.
Além dessas perspectivas, novos olhares
sobre a mulher
alcoolista poderão servir para o despertar da importância da criação
de espaços específicos para a atenção e enfrentamento da
problemática,
favorecendo
a busca e o comprometimento com
o tratamento e a recuperação da alcoolista.
A reflexão sobre as condições vulnerabilizantes da
mulher com problemas relacionados ao uso de
álcool está inserida na situação detectada pelo acesso de uma população minoritária nos serviços de saúde para
tratamento de problemas
decorrentes.
A partir disso, este estudo confirmou que o consumo de álcool
está fortemente associado à complexidade e particularidades individuais das mulheres em seus
diversos contextos distintos.







