Antigo testamento
Livros pROFéticos
PROFETAS MAIORES
Baruque
O livro de Baruque chegou até nós por meio da versão grega da Septuaginta, onde se encontra entre Jeremias e as Lamentações.
São Jerônimo absteve-se de traduzi-lo para o latim porque, a seu ver, "os hebreus nem liam, nem possuíam" este livro; por isso, o que foi inserido na Vulgata é a tradução latina da Vetus Latina.
Na Vulgata, Baruque se situa geralmente entre as Lamentações e Ezequiel - juntamente com a Carta de Jeremias que, na Vulgata, vem logo em seguida e constitui o seu capítulo sexto.
A primeira leitura, a obra se apresenta como tendo sido redigida por Baruque, "secretário" de Jeremias, durante o exílio na Babilônia, para proveito da comunidade que ficara em Jerusalém.
Mas as numerosas discrepâncias entre as informações dos escritos contemporâneos relativos à tomada de Jerusalém e ao Exílio e os dados de Baruque tornam impossível a atribuição desta obra ao "secretário" de Jeremias (cf. notas em Br 1, 1.2.8.10.12 e 14).
O livro inclui-se, portanto, na literatura pseudonímica; a pseudonímia implica um autor diferente, bem como outra situação e outros destinatários que os enunciados no texto.
Daí decorre a principal dificuldade para ler Baruque. Ele segue o modelo das narrativas referentes à tomada de Jerusalém por Nabucodonosor em 587 e aos anos de exílio, sem deixar de introduzir certo número de alterações, cuja função é adaptar o modelo à situação histórica do seu tempo.
Tais diferenças são os sinais característicos do processo de atualização. Para situar Baruque no espaço e no tempo, e para compreender sua função, mister é tentar descobrir, por trás do que diz o texto, o que ele, na realidade, designa.
As quatro partes do livro. Mas a leitura esbarra ainda com outra dificuldade: o caráter compósito da obra.
De fato, ela é constituída de quatro partes heterogêneas, que não podem ser nem do mesmo autor, nem da mesma época: uma introdução histórica, uma oração penitencial, uma meditação sobre a Sabedoria, e finalmente uma exortação a Jerusalém.
Esses trechos diferem tanto pela língua original que supõem, como pelo gênero literário e a doutrina: daí provêm os problemas da unidade da coletânea em sua composição atual e o da sua função global.
a) A introdução histórica (1,1-14). Descreve-nos as circunstâncias em que o livro de Baruque teria sido composto, e com que finalidade. Teria esta introdução sido redigida diretamente em grego, por um escritor familiarizado com a Septuaginta, ou remontaria a um original semítico? Ambas as hipóteses foram defendidas, mas a segunda parece mais verossímil.
b) A oração penitencial (1,15-3,8). Duas partes se podem distinguir (1,15 nota): de início, uma confissão (1,15-2,10), a seguir uma súplica (2,11-3,8). O texto grego desta oração, mosaico de citações bíblicas, é, com toda a verossimilhança, tradução de uma prece inicialmente redigida em hebraico. Ela pertence a um gênero literário bem-definido, o da confissão nacional.
O início da oração (1,15-2,19) depende da de Daniel, inserindo-lhe, porém, algumas modificações. Em especial, Baruque omite as passagens de Daniel relativas a Jerusalém e ao santuário desolado (Dn 9, 16.17b.18b.19); mas Baruque acrescenta desenvolvimentos sobre a situação do povo no Exílio (Br 2,3-5.13.14b).
Essas modificações sugerem que a oração penitencial de Baruque provém de uma comunidade judaica da diáspora, para a qual a situação do Templo já não se apresentava de modo tão dramático quanto a evocada por Daniel.
Do ponto de vista cronológico, várias hipóteses foram apresentadas para explicar este parentesco estreito entre as confissões nacionais de Daniel e as de Baruque; caso se conclua por um empréstimo tomado diretamente de Daniel por Baruque, a oração conservada no segundo é posterior ao primeiro; mas não é impossível tampouco que essas duas confissões sejam traslados de uma oração mais antiga (a respeito de um arcaísmo doutrinal, cf. 2,17, nota) que teriam sido inseridos posteriormente e de forma independente nos dois livros.
Função litúrgica, data e ambiente de origem das duas primeiras partes de Baruque
O jejum e as lamentações, os sacrifícios oferecidos no santuário, a confissão nacional, tudo isso indica que o quadro litúrgico das duas primeiras partes de Baruque é o de uma liturgia penitencial celebrada com vistas a reconciliar o povo com seu Deus, depois de alguma catástrofe nacional.
Vários períodos particularmente conturbados podem ser levados em consideração: 169 e os anos subsequentes, sob Antíoco Epífanes, a tomada de Jerusalém por Pompeu em 63 a.C.; finalmente a efetuada por Tito em 70 d.C.
Mas o saque do Templo por Antíoco IV em 169 e a restauração do culto por Judas em 164, portanto, cinco anos mais tarde (cf. 1, 2.8) são o que parece explicar melhor as discrepâncias significativas da tipologia usada neste escrito.
A intercessão em prol de Nabucodonosor e do seu filho Baltasar (1,11) nos faria remontar a Antíoco IV e a seu filho, o futuro Antíoco Eupátor.
Quanto ao ambiente de origem dessas duas primeiras partes, não há dúvida de que seja uma comunidade judaica da diáspora, talvez de Antioquia, profundamente apegada às tradições religiosas da Judeia - ao contrário dos partidários da helenização integral, como o sumo sacerdote Menelau (cf. 2Mc 4,23ss.) -, mas politicamente hostil a uma resistência armada contra os selêucidas (1,11-12; 2, 21.24).
c) A meditação sobre a Sabedoria (3,9-4,4). À oração penitencial segue-se uma meditação sobre a Sabedoria (3,9 notas). O texto retoma a interrogação sobre a causa das desgraças do povo no Exílio, mas a resposta é formulada nos termos característicos dos escritos sapienciais.
A meditação sobre a Sabedoria se situa numa virada da história das doutrinas sapienciais judaicas. A ideia de uma Sabedoria dispensada universalmente (Pr 8, 17.31), definida como temor de Deus (Pr 1,7; 9,10; 15,33; Sl 111,10; Jo 28,28), é precisada: ora é identificada com a Lei, cujo depositário único é o povo eleito (Sr 24,8-12; Br 4,1); ora é apresentada como participante da obra criadora de Deus (Pr 8,22-31; Sr 24,9; e talvez Br 3,32-35, cf. nota ao v. 32), depois, habitando entre os homens.
Por causa das afinidades doutrinais que esta meditação sobre a Sabedoria apresenta com o Sirácida, é cabível datá-la do século II a.C.; mas é difícil defini-lo com maior precisão.
Também aqui as opiniões acerca da língua em que este trecho foi composto se dividem. Todavia, parece mais verossímil um original grego.
A questão do seu relacionamento com as demais partes do livro está longe de ter recebido uma resposta satisfatória: houve quem propusesse reconhecer nele uma homilia pronunciada por ocasião de um dia de penitência.
d) Exortação e consolação de Jerusalém (4,5-5,9). A última parte do livro pertence a outro gênero literário (cf. 4,5 notas); trata-se de um poema de estímulo e reconforto, cujo estilo é muito parecido com o do Segundo Isaías. O problema da língua original, semítica ou grega, é tão controvertido para esta parte quanto para a precedente.
O undécimo salmo de Salomão, redigido pouco depois da tomada de Jerusalém por Pompeu em 63 a.C., é muito parecido com esta seção de Baruque; a comparação dos dois escritos permite concluir pela anterioridade de Br 4-5.
Ao contrário da introdução histórica e da oração penitencial que se situam no início do Exílio e preconizam uma política de conciliação com as nações, aqui o texto lhes é francamente hostil e supõe a iminência da volta dos dispersados.
Pertence, por conseguinte, a uma época e um ambiente sensivelmente diferentes dos das duas primeiras partes. Anterior a 63, pode ser datado da segunda metade do século II, e atribuído a uma comunidade da diáspora que se tinha apartado dos selêucidas, estimulada a isso pelas conquistas políticas e militares dos hasmoneus.
O livro em seu conjunto. Baruque é um escrito da diáspora judaica, que convida os hierosolimitanos a celebrar uma liturgia penitencial. As duas primeiras partes, mais antigas, devem ser contemporâneas ou pouco posteriores aos acontecimentos de 164 e parecem provir de uma comunidade da dispersão, politicamente situada a meia distância entre os partidários de Menelau e os partidários dos macabeus.
A quarta parte, acrescentada posteriormente, provém, sem dúvida, de um ambiente conquistado à causa da independência judaica.
Quanto à elucubração sobre a Sabedoria, é difícil definir sua proveniência: por razões de estilo, atinentes em particular à unidade de locutor, inclinar-nos-íamos de preferência a ligá-la à exortação a Jerusalém. Com toda a verossimilhança, o livro recebeu a forma definitiva no decorrer da segunda metade do século II.









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