As autoras do presente estudo abordam uma situação relatada com alguma freqüência entre os consumidores de substâncias psicoativas: a ocorrência de relação sexual não planejada, porém facilitada pelo consumo de drogas. Muitas perguntas se colocam quando tal questão é posta: a embriaguez que motivou o ato sexual foi intencional ou acidental? O ato sexual era de fato inesperado, não planejado ou não desejado? Mesmo não sendo, foi consensual naquele momento? É possível estabelecer a capacidade dos indivíduos lidarem com essa situação? Como é possível determinar se a abordagem do outro foi coerciva? Qual o grau de culpa que aparece no dia seguinte?
Para abordar essa questão as autoras selecionaram randomicamente (ao acaso), 13.549 estudantes, entre 16 e 19 anos, de quatro estados canadenses. Apenas 13% destes não foram localizados pelo estudo. O questionário era auto-aplicativo, com 94 questões itens e três questões abertas. Não era necessária identificação. Quatro questões centrais foram abordadas: [1] presença de relação sexual, [2] tipo de planejamento desta relação, [3] número de parceiros, [4] uso de camisinha.
O estudo mostrou que a grande maioria dos estudantes utilizava álcool mensalmente ou com freqüência superior. O tabaco era consumido diariamente por cerca de um quinto destes. Por fim, a maconha era utilizada mensalmente (ou além disso) por 15% dos alunos. O consumo de álcool e maconha era maior entre os homens e o consumo de tabaco igual para ambos sexos.
Cerca de 40% dos estudantes tiveram ao menos uma relação sexual durante os últimos 12 meses. A chance aumentava com o avançar da idade e variou dependendo do estado canadense investigado. A chance de uma relação sexual aumentou proporcionalmente à intensidade do consumo de álcool, nicotina e maconha, sendo essa pelo menos duas vezes maior entre esses usuários.
Entre os que tiveram relação sexual, 65% referiu que essa não foi planejada. A relação não planejada estava associada ao consumo de drogas em pouco mais da metade dos casos. O álcool foi a substância mais relacionada à presença de sexo não planejado. Além disso, boa parte (37%) dos estudantes relatou possuir múltiplos parceiros e a maioria (57%) não utilizava camisinha todas as vezes.
Comparando os estudantes que utilizavam drogas durante a relação sexual, aqueles que já tinham a relação como certa tinham menos parceiros sexuais do que aqueles que tinham relações incidentais. O uso de drogas não apareceu como fator de risco para o intercurso sexual sem camisinha. Os adolescentes elegeram oito razões para o uso irregular da camisinha nas suas relações sexuais (figura 3).
A grande maioria aponta a falta da camisinha no momento do ato sexual como o principal motivo da irregularidade. A interferência da camisinha no prazer sexual e o consumo de drogas pelo próprio respondente foi o motivo apontado por cerca de um quarto dos estudantes.
O presente estudo não conseguiu demonstrar que o consumo de drogas leva por si só ao sexo sem planejamento, tampouco, a outros comportamentos de risco, tais como múltiplos parceiros ou uso irregular da camisinha. O achado mais importante do estudo foi que o uso irregular da camisinha e a presença de múltiplos parceiros são mais freqüentes entre aqueles que usam álcool e/ou drogas e praticam sexo sem planejamento. As autoras sugerem que o assunto faça parte tanto das abordagens voltadas para a educação sexual, quanto das ações preventivas voltadas para o uso de substâncias psicoativas. O uso irregular da camisinha parece atingir os adolescentes como um todo e as abordagens disponíveis no momento parecem ser eficazes para informar, porém incapazes de motiva-los para o uso da mesma. O uso da camisinha pelo adolescente ainda permanece como um tabu.








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