VERONICA ALMEIDA
O consumo excessivo de bebida alcoólica pode desencadear ou colaborar para danos aos olhos, alguns deles irreversíveis, como o glaucoma, que progressivamente leva à perda de visão. Uma pesquisa inédita no Brasil, realizada por médicos residentes da Fundação Altino Ventura, no Recife, com pacientes na faixa etária de 38 a 60 anos, mostrou que o álcool pode ser mesmo um fator de risco para problemas oculares.
No trabalho foram examinadas 90 pessoas, a maioria do sexo masculino. No grupo dos alcoolistas, 8% tinham catarata, 10% apresentavam alteração de sensibilidade ao contraste (dificuldade para enxergar claro e escuro) e 15%, glaucoma. Entre os abstêmios, só um paciente tinha problemas na visão.
“Confirmamos o que muitas pesquisas internacionais indicavam”, diz a médica Ana Carolina Celino, autora do trabalho que contou com a colaboração de mais três oftalmologistas e orientação da médica Liana Ventura, coordenadora do Curso de Especialização da Fundação Altino Ventura. Ana Carolina diz que ainda não foi esclarecido como se dá o mecanismo prejudicial do álcool à visão. Supõe-se que a ação tóxica da droga colabore para as doenças, como também a carência nutricional produzida por ela.
No caso do glaucoma e da perda de sensibilidade ao contraste, ocorre destruição dos nervos do olho. Na catarata, o cristalino (espécie de lente) fica opaco. De uma maneira geral, além de prejudicar o fígado, causando cirrose hepática, o consumo exagerado de bebida alcoólica tem ação maléfica no sistema nervoso.
Entre os pacientes alcoolistas, 90% consumiam aguardente em média há vinte anos. O consumo médio por pessoa foi de um litro diário, isto é, alguns bebiam meio e outros até dois litros de cachaça por dia.
Segundo a médica Ana Carolina, muitos já apresentavam danos graves à visão. Todos eles estão sendo acompanhados na Fundação Altino Ventura. A catarata é tratada com cirurgia e o glaucoma com medicação permanente. Não há tratamento para a perda de sensibilidade ao contraste. Com abstinência ao álcool consegue-se parar a exposição ao fator de risco e impedir o avanço da doença.
INÉDITO - No total, a pesquisa examinou 40 pacientes adeptos do álcool e outros 50 abstêmios. O trabalho foi apresentado no 3º Encontro Científico da Fundação Altino Ventura, realizado no final de semana passado. Segundo Ana, os estudos internacionais não compararam grupos de alcoolistas e não-alcoolistas. Geralmente tentavam identificar entre portadores de problemas oculares os consumidores de bebida alcoólica.
A médica diz que pretende dar continuidade aos estudos, para um conhecimento mais abrangente da realidade local. “O alcoolismo é considerado doença pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e estima-se que 10% da população brasileira seja portadora do problema”, lembra, mostrando a importância de pesquisas nesse campo.







