Desde os primórdios dos tempos o homem sempre teve uma necessidade intrínseca de crer e adorar algum tipo de divindade com poderes muito maiores que os dele e capaz de não só protege-lo, como também interferir ou mesmo definir em suas vidas, saúde e principalmente na manutenção de alguma forma de existência após a morte.
A religião sempre causou uma opressão psicológica no homem, na medida em que aquilo que não podia ser entendido era atribuído a fenômenos sobrenaturais e quase sempre de natureza espiritualizada ou divina.
Hoje se percebe que as causas de muitas manifestações tiveram sua origem não nos “espíritos”, mas na pressão psicológica com leis rígidas, onde o homem confrontado com as exigências da divindade criou um estado de terror, consequência de uma culpa latente oriunda possibilidade de infligir alguma lei, do “Deus”, exigente, que deveriam resultar em castigo, sofrimento e qualquer outro tipo de punição divina, como doença, pragas e extermínio em massa. Assim não alternativa a não ser a obediência irracional, único meio de manter aplacada sua a ira divina.
Jesus encontrou esse sistema no seu tempo, veja a situação de uma mulher oprimida pela religião que se propõe a reconstruir a relação humanidade-divindade, mas diviniza a hierarquia e desumaniza o homem na qual se propõe elevar:
“Jesus estava ensinando numa das sinagogas no sábado. E estava ali uma mulher que tinha um espírito de enfermidade havia já dezoito anos; e andava encurvada, e não podia de modo algum se endireitar. Vendo-a Jesus, chamou-a, e disse-lhe: Mulher, estás livre da tua enfermidade; e impôs-lhe as mãos e imediatamente ela se endireitou, e glorificava a Deus.”
Esse texto mostra a cura efetuada por Jesus, fala de um espírito de enfermidade, a crença em espíritos que influenciam a vida do ser humano, embora não seja possível provar já que não há o que contestar, visto que este tipo de comportamento baseia-se no conceito da fé.
No entanto o fato de andar encurvada, não significa que foi uma “ação imediata” desse espírito, ela estava nesse estado há dezoito anos. Uma leitura mais analítica desse texto poderá revelar alguns fatores psicológicos, na vida dessa mulher:
Estava na sinagoga, pertencia à religião judaica da qual é a gênese do cristianismo, que culpava a mulher pela desgraça de adão e consequentemente da humanidade.
A lei é reconhecida como boa e perfeita mesmo assim culminava em opressão. Como algo que veio para o bem ser transformado em algo tão maligno?
A religião como produtora de sentido da vida transformou uma mulher, chamada por Jesus de filha de Abraão, prisioneira durante dezoito anos num cárcere psicológico será que a pressão da mente não encurvou o seu corpo?
Os interpretes colocavam o dia de sábado como “sagrado”, onde não poderiam exercer nenhum trabalho, mas Jesus cura a mulher justamente nesse dia e essa foi a queixa do chefe da sinagoga. Porque será que eles valorizavam mais o dia do que as pessoas, mais a liturgia do que o ser humano?
Jesus os censurou dizendo que ao matar uma ovelha para se alimentar também estavam trabalhando, na realidade eles não relativizavam o conceito do que é “trabalho”. Isso mostra um ritualismo, com inversão de valores?
Dentro desse arcabouço, vemos que a situação da mulher foi um processo que culminou na opressão psicológica, e não numa “ação imediata”, uma possessão. Como ela, muitas pessoas estão dentro do templo, sob “opressão psicológica”.
Gera-se uma neurose causada pela culpa de conceitos deturpados que, ao atingir o ápice, faz com que a personalidade seja totalmente aniquilada dando espaço para o “outro opressor”. Mesmo alegando ser o templo de Deus, outro “deus”, habita no seu templo, um deus que despersonaliza, anula o individuo fazendo o viver num estado neurótico.
Isso me faz refletir: "A religião é a maior produtora de encontrar o “sentido” da vida mas, paradoxalmente, é também a maior produtora de neuróticos."
A teologia ortodoxa, na sistematização teológica define que a "Verdade" pertence a uma confissão de Fé. A verdade está em Cristo (Jó 14.6) logo, não há necessidade de "Dogmas", pois Cristo não foi dogmático, ao contrário, estabeleceu uma práxis de vida.
A adoração em espirito e em verdade (Jó 4.24), não tem a ver com confissão de fé, mas com a mudança de conceitos sobre a existência, a mulher achava que “ser” Samaritana e “ser” Judeu, era fatalismo do destino. (Jó 4.9).
Jesus mostrou que Judeus e samaritanos, não “são” estão “sendo”. Na vida, nada é “fixo”, e Ele como judeu valoriza o Samaritano que não é, mas sendo. O verbo “ser” é estático, o gerúndio “sendo” é mutável.
A adoração em Espírito tem a ver com coragem de enfrentar os traumas e desafios da vida esse era o conteúdo do diálogo de Jesus com a mulher samaritana. Quando Jesus fala da água que tinha para oferecer, a mulher pede: “dá-me dessa água, para que não mais tenha sede, e não venha aqui tirá-la”. (Jó 4.15).
A pessoa que é cristã, mas é dogmática, firmada em doutrinas, quer resolver tudo de forma fácil, quer saciar o desejo da existência com métodos mágicos, ou, com penitências que mereçam o favor divino.
Jesus quer oferecer capacidade para a pessoa enfrentar a vida com todos os traumas e desamparo que ela oferece. Jesus vai ao cerne do diálogo: “Vai, chama o teu marido, e vem cá”. (Jó 4.16).
A mulher responde que não tinha marido (Jó 4.17), mas não fala que já tivera cinco, escondia os fracassos de relacionamento, mas estava bem informada sobre teologia histórica e dos conflitos étnicos da sua nação (Jó 4.9), e da tradição judaica (Jó 4.12).
Ela não sabia lidar com as frustrações dos seus relacionamentos. Jesus confronta sua situação e fala dos fracassos do desamparo existencial que ela vivia, pois: “tivera cinco maridos e o que tinha agora não era d’ela”. (Jó 4.18,19).
A mulher vivia com o sentimento de que não possuía nada, nada lhe pertencia, era insegura, complexada, uma imagem negativa de si mesma, ventilava na religião toda a sua sede existencial, todo o seu desejo de pertencer a alguém e de ter alguém para chamar de “seu”.
Na vida ninguém é de ninguém, mas para se viver é preciso ter o sentimento de que pertence a alguém, e de que tem alguém para se pertencido.
A adoração em espírito não é o levantar as mãos no templo, nem estar no templo certo, tão pouco ter a doutrina correta, mas, tem a ver com encarar a verdade, a sua verdade, a verdade que temos medo, confrontar as nossas dores, rever a nossa maneira de viver.
Jesus pede para a mulher chamar o seu marido: “Vai, chama o teu marido, e vem cá”. (Jó 4.16); a mulher responde que não tinha marido (Jó 4.17). A mulher foge do assunto doloroso e volta-se para a discussão teológica: “Vejo que tu és profeta” (Jó 4.19). O religioso extremo é neurótico, constrói uma “vida paralela”, foge da realidade da vida, para uma vida imaginária, por não suportar a realidade.
Que conexão tinha os relacionamentos frustrados d’ela, com o fato de reconhecer que Jesus era profeta? Para não enfrentar assuntos que lhe causavam dores e sofrimentos, ela usa a religião como fuga, sai da dimensão física (vida) para a metafísica (fé).
A mulher introduz um novo tema que não tinha relação com o que Jesus havia falado anteriormente. Jesus estava falando de “relacionamentos” a mulher foge para fala de “local de adoração” dos patriarcas (Jó 4.20).
Jesus chama a mulher para encarar a vida, enfrentar seus relacionamentos frustrados. Jesus queria lhe ensinar a se valorizar, como alguém digna de ser respeitada, apesar do preconceito por ter nascido em Samaria, e pela rejeição por não viver o padrão imposto pela sociedade.
Jesus fala que não existem dogmas, locais certos (Jó 4.21-23), depois conclui: “Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade”. (Jó 4.24)
Qual é a “verdade” na adoração em Espírito? A verdade de que em Cristo, não deve existir formulas mágicas para resolver os problemas da vida: “dá-me dessa água, para que não mais tenha sede, e não venha aqui tirá-la”. (Jó 4.15).
Problemas de relacionamentos não se resolvem com campanhas de sete dias, correntes, Jejum de Daniel etc... Não se deve usar doutrinas para encobrir os traumas, nem o nome de Jesus para fugir da maravilhosa vida que Ele veio oferecer.
Acredito que Jesus tinha muitas dimensões tanto Teológicas quanto psicológicas ao usar o termo “Satanás”, no texto bíblico, Ele usou a palavra “satanás” naquele contexto de Lucas, na minha interpretação, como a “culpa recalcada”, que foi à causadora do mal naquela mulher. A culpa entrou em sua psique e a “encurvou”! O que a medicina moderna chama de doenças psicossomáticas.
Alguém duvida que a culpa possa encurvar uma pessoa?... Ainda mais uma mulher na tradição judaica que já nascia culpada do “pecado de Eva”!
Jesus usou nomes como “castas", “demônios”, "satanás” em concordância com a crença da época, satanás era o agente, uma “pessoa com personalidade”, em antítese ao pai, na qual Jesus orava usando um pronome pessoal.
Não tenho dúvidas de que esses termos eram usados para falar do maior de todos os “diabos”, a “Culpa”, essa é a irmã gêmea de Satanás que foi gerada pela busca desenfreada da perfeição para "Agradar uma divindade", seja qual for à religião!
Uma mulher estava na sinagoga, contextualizando com os nossos dias, podemos dizer que era um dos lugares que estão relacionados com a religião (igreja). A religião muitas vezes aumenta a sensibilidade da consciência através das regras, (doutrina da fé) sobrecarregam o superego (consciência) e essa sobrecarga aumenta o desejo de transgressão e quando a pessoa transgride, não consegue viver no nível exigido, é dominada por um estado de culpa tão adoecido que pode chegar a parar em centros de internações psiquiátricas.
Quem duvida disso é só ir aos hospitais psiquiátricos e verão que a maioria dos pacientes são evangélicos, e quanto mais radical é a igreja mais doentes mentais ela produz.
Jesus já tinha mapeado o DNA da maior de todas as potestades da religião:
“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós” (Mateus 23.15)
Um filho do inferno tem poder de fazer seu discípulo duas vezes pior do que ele, justamente aqueles que têm “Doutrinas certas” e querem levar outros ao “céu”, na realidade os conduzem ao “inferno”; esse é o único “mestre” que consegue contrariar a fala de Jesus: “O discípulo não é superior a seu mestre, mas todo o que for perfeito será como o seu mestre”. (Mateus 6.40)
Para Jesus o discípulo que o seguisse não ia superá-lo, mas poderia se tornar igual ao mestre, mas os discípulos dos religiosos quebrariam essa lógica, na sua dimensão eles sempre vão além, conseguem transcender: “Faziam dos seus discípulos duas vezes piores que eles”!
O apóstolo Paulo mostrou que uma das formas de poderes demoníacos era justamente o que mais existe nas religiões:
“Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz. E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo”. (Colossenses 2: 14-15)
Ele não fala de um demônio com personalidade, mas sim de “principados” e “potestades”, que sobrecarregam a psique com a culpa por não atingirem nunca a “perfeição idealizada”.
Essa é um demônio antigo, revelado na religião, a maior criadora de “espíritos malignos”, como queiram chamar os ortodoxos, ou uma grande potestade e o maior diabo que é a Culpa!
A culpa é importante como preservadora da vida, ela se faz necessária, mas a falsa culpa despertada nas tradições religiosas, essa sim causa um mal irremediável ao ser humano.
Vejamos o exemplo daquela mulher aprisionada por “Satanás”:
“E veio ali uma mulher possessa de um espírito de enfermidade, havia já dezoito anos; andava ela encurvada, sem de modo algum poder endireitar-se". “Vendo-a Jesus, chamou-a e disse-lhe: Mulher, estás livre da tua enfermidade”. (Lucas 13.10-11)
A cura se deu no momento em que ao ouvir um homem falando com ela, e ainda no templo, sua estima foi ao alto, e ao subir a estima o seu corpo subiu juntamente com ela. A valorização da pessoa através do amor fez uma simbiose entre psique-corpo, e, veja o que aconteceu: “e, impondo-lhe as mãos, ela imediatamente se endireitou e dava glória a Deus”. (Lucas 13.13)
Em Impondo as mãos “sobre ela”, percebemos o efeito psicológico causado naquela mulher ao sentir a aceitação de Jesus? E a ação de impor as mãos sobre uma mulher que no mínimo estava debaixo de maldição para a sua sociedade? Afinal, carregava o estigma de ser a responsável pela entrada do pecado na humanidade!
A cura aconteceu na sua psique, o “Espírito” que aprisionava, não é uma questão se o “espírito” era ou não era uma entidade com personalidade, mas com certeza pode-se afirmar que esse espírito atuava num “sentimento de desvalorização”, ou o fatal “complexo de inferioridade”, e essa diluição do ser levava a mulher a encurvar-se.
Quantos hoje estão aprisionados por Satanás a mais tempo do que essa mulher, através da religião onde há tanta culpa que os faz encurvarem?
A explicação do totemismo para a origem da culpa, na humanidade de que a morte do Pai da horda reflete no inconsciente racial e cria o contínuo sentimento de culpa, adota a hipótese de que os israelitas mataram Moisés e que essa morte é a repetição da morte do pai primitivo, “Esta morte fez o grande crime real para os israelitas, se bem que, permanecendo profundamente sepultado no inconsciente racial, aumentou o sentimento de culpa, que continuou a perseguir os filhos de Israel”
A teoria da origem da culpa na psicanálise como sendo “a desobediência do filho e a sua afeição pelo pai, até a conspiração para a sua morte”, tem a sua conclusão de que a infelicidade do homem veio pela culpa da morte do pai. Dando continuidade a esse raciocínio, Freud concluiu que a doutrina do pecado original se tornou chave na igreja primitiva, devido simbolizar o nível inconsciente, o assassinato do pai da horda primitiva. A salvação do pecado original só pode ser alcançada através de uma morte expiatória, por isso ele conclui:
“A doutrina principal é a reconciliação com Deus Pai, a expiação do crime contra ele; mas o outro lado da relação se manifesta no Filho que tomou sobre si a culpa, tornando-se Deus ao lado do Pai, o cristianismo torna-se uma religião do filho. Não pôde escapar ao fato de destruir o Pai de suas funções”.
Na teologia Cristã quem mais perdeu foi o “filho”, pois surge o sentimento de forma negativa o “medo”, no entanto o relato da história é que o Pai, busca a comunhão perdida com o filho, (homem) e culmina com a redenção através do seu Único Filho, (unigênito), que veio restabelecer a paz que havia sido rompida com o ato de desobediência do primeiro homem. “Vindo à plenitude do tempo Deus enviou o seu único filho, nascido de mulher, nascido sob a lei”.
A teologia cristã é a única que apresenta a ressurreição como ápice final na conclusão do processo redentivo do homem. É interessante que no totemismo freudiano, a culpa dificilmente será redimida pela humanidade, pois o que poderá ela fazer para eliminar esse complexo? O simbolismo da psicanálise de que o filho matou o pai, fala da culpa que agora ele terá de conviver, no entanto não há solução em como se livrar da culpa.
A teologia cristã admite certa “morte”, do homem através da separação do seu criador (pai), foi essa a advertência feita ao homem (filho): “E o senhor Deus lhe deu essa ordem: de toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás”.
Embora haja paralelo no relato bíblico da criação de que a “morte” do pai pelo filho, causado pelo desejo do filho em ter algo que o pai tinha, “Ser igual a Deus, (pai) obtendo através de comer o fruto da arvore da ciência do bem e do mal”. Há um fator em que o cristianismo difere: a advertência feita pelo pai como um fator que preservaria a vida do homem (filho), e não no egoísmo do Pai em ter para si algo que despertou cobiça e revolta no filho.
A cobiça é comum nas duas narrações, tanto do relato totêmico quanto da criação, no entanto as motivações do pai, é que diferem, pois enquanto o pai, na psicanálise se mostra egoísta, o da criação se mostra altruísta. Enquanto a “morte” é o ponto comum entre os dois, como único meio para que o homem (filho) obtenha o seu objeto de desejo, as intenções diferem. Qual seria então a proposta para que o homem se livre dessa culpa?
O homem continua tão neurótico quanto nos tempos que foi elaborada essa teoria, o cristianismo parte do pressuposto que o homem é um ser espiritual, como criatura tem a Imago Dei (Imagem de Deus), e somente com uma religação entre ela e o criador, dará a liberdade do Ser, como livre da neurose, isso porque “Há um vazio profundo, um buraco imenso dentro do seu ser, suscitando questões como gratuidade e espiritualidade, futuro da vida e do sistema terra. Esse buraco existencial é do tamanho de Deus, por isso só Deus é capaz de preenchê-lo”.
O teísmo crê que o homem desde a sua origem é superior a natureza, mas também tem na regra, a origem do desvinculo com ela. Pressupõe no teísmo a semelhança do evolucionismo, num determinado momento o homem vivia em harmonia sendo uma unidade com a natureza. O conflito surge em ambas às teorias através da norma ou regra, essa é a gênese da transcendência no teísmo: “O conhecimento do bem e do mal”.
A antropologia Darwinista tem na regra a evolução, a criacionista, não na regra, mas a quebra dessa, a regressão. Na primeira o homem é elevado a um estado superior, na segunda o inverso, ele sai de um estado “superior”, que seria a “ausência de conflitos”, para a “imperfeição”, que é atitude de criar, decidir por si mesmo, o certo e o errado. Na primeira a regra eleva, na segunda somente submetendo-se a ela o homem é elevado, manteria a ausência de conflitos!
A antropologia teísta ou evolucionista são unânimes, em afirmar que houve um momento de transcendência:
“Todo comportamento humano se origina no uso de símbolos. Foi o símbolo que transformou os nossos ancestrais antropoides em homem e fê-los humanos. Todas as culturas se espalharam e perpetuaram através de símbolos”
O comportamento humano, a faculdade de criar símbolos trouxe a desarmonia, entre o homem e a natureza, houve um tempo em que às instancias da vida tinham duas dimensões: O Id (Eu quero) com o Ego (Eu posso), não existia Superego (Eu devo)! A vida era afirmação dos desejos sem oposição da realidade, o símbolo deu significado, trouxe a cultura, homem e natureza deixaram de ser unidade.
A cultura eleva o homem acima dos animais, e transporta-o a dimensão dos conflitos geradores de neurose pela quebra das regras. Mas se a cultura é a gênese dos conflitos, entre as três instâncias da vida: Eu Quero X Eu Posso X Eu Devo? De onde surgiu esse ponto de interrogação (?), seria ele filho da cultura, nomeado pela psicanálise de “superego”!
Antes do superego a vontade de potência (Nietsche) era afirmativa “eu Devo”! Mas a afirmação cede lugar à interrogação “Eu Devo?” Alguma coisa aconteceu, a afirmação precisa da negação para ter sentido, a moral eleva o homem acima dos demais, mas toda ação produz reação, a elevação gerou conflitos, ganhou transcendência, mas também a capacidade de se tornar neuropático!
A origem da cultura para a antropologia Darwinista é o equivalente à lei da “arvore do conhecimento”, eleva o homem a uma nova dimensão. O estágio que antecede a norma mantém o homem num estado de igualdade com a natureza colocando-o na dimensão dos animais, essa dimensão que antecede as normas e a incapacidade de simbolizar tornava o homem igual aos demais seres. O surgimento desses símbolos eleva-o acima dos outros seres.
No teísmo, a norma não eleva, ela adverte em manter a harmonia. O homem sempre é considerado superior à natureza, a questão é: “Como ser superior aos animais sem a presença dos conflitos”? Não é o conflito com a natureza que diferencia o homem dos demais habitantes do planeta? Na antropologia teísta, a narrativa do Gênesis infere que a “evolução” dar-se-ia justamente em “não ir além da norma”, de forma que a “norma” existe para ser mantida.
Nas duas teorias, a norma é fator sine qua non para a “evolução”, ou “degradação”! O teísmo traz implícito que o homem desde a sua origem é superior, e que a quebra da norma lhe colocou em conflito com a natureza causando a sua finitude (morte). O homem estaria em evolução com a ausência do conhecimento, ou seja, estaria evoluindo preservando-se de conflitos, pois o conhecimento deu origem à morte. No teísmo, a norma não deve ser quebrada, sua “transgressão” leva à “regressão”, pois nasce o conflito, a consciência, a subjetividade! No evolucionismo, a norma leva à “evolução”.
Os antropólogos elevam o homem a uma categoria suprema ao constatar que de todos os seres vivos é o único que tem noção de tempo, vive o hoje com o olhar no ontem e projeta-se para o amanhã. No entanto, reconhecem que esse mesmo homem é um dos mais frágeis na cadeia evolucionista, necessita de anos para ter um pouco de autonomia, e como os demais seres que já existiram antes dele, pode ter o final do seu ciclo no planeta.
O pressuposto do teísmo inverte essa concepção ao afirmar que a teoria da superioridade do homem, criado a imago dei dá sentido à existência no tocante à finitude da vida. Em contrapartida, faz com que o homem abuse do “poder” que lhe foi outorgado, pois a transcendência deu-lhe a ilusão de que pode viver não só além da natureza, mas a submeter aos seus desejos!
A Antropologia Darwinista e a Teísta tem um ponto em comum: “Houve um momento que o homem se distanciou da natureza”! A discordância vem na seguinte indagação: “Foi uma Queda (teísmo) ou um Salto (evolucionismo)?”.
Na evolução: “O homem progride”, vai para a dimensão da separação, ter consciência da finitude é evolução, dar-se-ia origem aos ritos.
O teísmo vai à contramão, ele regride, essa separação positiva na evolução é vista como negativa, a autonomia na antropologia Darwinista é vista como progressão, já no teísmo é regressão, no evolucionismo o homem é autônomo, a regra vem de dentro, no teísmo o homem é Teo-nomos vem “de fora”, abre mão da lei em si (dentro) para a lei além de si (fora)!
Na autonomia evolucionista ao terminar o ciclo da vida, o homem volta ao ventre da mãe natureza, no teísmo o homem cria símbolos, projeta seus anseios sabe que irá para o ventre da mãe, mas crê que voltará para os braços do pai! Religião é símbolo é desejo que palavras não podem expressar!
A filosofia teísta nem sempre concordou com a “queda”, Hegel interpreta a quebra da regra, (lei) como “Queda para cima”, nesse caso, o “fogo” roubado dos deuses trouxe luz aos homens (prometeu), o “abrir os olhos” trouxe o “conhecimento do bem e do mal” (judaísmo-cristão), a criação de regra-símbolo, deu a capacidade de o homem transcender (Darwinismo).
A “auto percepção”, implica conflito entre o “homem x deus (es)” (teísmo) ou a “criança x pai” (psicanálise), homem x natureza (Darwinismo). O Theos adverte o antropos que a quebra da norma marcaria o inicio do conflito, “abrir os olhos” enfrentar a “de-grada-ação” (Teísmo) ou a “evoluir-ação” (Darwinismo).
No teísmo houve prejuízo, trocar o não saber pelo saber, no primeiro há ausência de conflitos, mas haveria crescimento sem esses? No segundo (Darwinismo) a vontade de potência (Nietsche) nem sempre teria potência para executar sua vontade, o movimento do corpo na expansão iria encontrar na regra (lei) o seu reverso a contração!
A finitude e o desejo de prolongar a vida, nisso concordam as duas antropologias, mas a evolucionista aceita a biológica, na lógica da bio. O homem vai passar como passou os que passaram antes dele, contudo ninguém nega a necessidade da religião que nos símbolos empresta sentido à existência, ao menos faz o homem crer que é especial, afinal ele é diferente, ou pelo menos é o único que crê assim acerca de si mesmo.
A década de 70 foi marcada por uma ruptura epistemológica da teologia. Nasce a TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO, gerada nas entranhas de uma reflexão “arbitraria” do ponto de vista ortodoxo-católico, alguns chegam a dizer que foi uma “resposta”, a ORTODOXIA, essa teve nos seus principais propagadores LEONARDO BOFF, RUBEM ALVES, MIGUEZ BONINO, JOSE COMBLIN, JUAN LUIZ SEGUNDO, CLODOVIS BOFF, FREI BETO, entre outros.
Da impressão que houve uma conspiração do pensamento contra toda ORTODOXIA, essa ruptura aconteceu também na ORTODOXIA-EVANGÉLICA, com o PACTO DE LAUSANE, uma resposta a ORTODOXIA PROTESTANTE (Evangélica).
JOHN STOOT, teólogo britânico, e o Equatoriano RENÉ PADILHA, inauguraram uma virada hermenêutica BATIZADA pelo nome de MISSÃO INTEGRAL. As duas vertentes mais expressivas do cristianismo, se “REBELARAM”, tinham em comum a quebra com o pensamento tradicional.
A nova “TEOLOGIA CONTEXTUAL” foi à mudança paradigmática no pensamento teológico; 1976 foi o que podemos chamar de “A SAIDA DA GAIOLA TRADICIONAL DO PENSAMENTO TEOLÓGICO”, tanto católico como protestante!
A história do pensamento mostra um movimento cíclico, e a fundamentação dessa teologia não foi EX-NIHILO, pois séculos antes, FRIEDERICH SCHLEIERMACHER (1768-1834) antecedeu a tese primária dessa ruptura quando concluiu:
“Toda reflexão teológica era influenciada, e até determinada, pelo contexto na qual evoluíra, impossibilitando de haver uma “pura”, supra cultural e a - histórica; era impossível penetrar até um resíduo da fé cristã que já não fosse num certo sentido interpretação”.
Desde a ocidentalização do cristianismo em Constantino, a reflexão teológica fazia um movimento da elite “alto”, para os laicos “baixo”, a ESPOSA era a ESCRITURA, o SÊMEN era a DIALÉTICA com a TRADIÇÃO, e a FILOSOFIA o ÓVULO, que fecundava no encontro com o seu interlocutor, o HOMEM ELITIZADO.
Sair da gaiola foi à inversão dessa epistemologia, agora seria a partir de baixo “LAICO” aquele que está às margens, a escritura permanecia como ESPOSA, o SÊMEN continuava sendo a DIALÉTICA, a FILOSOFIA e a TRADIÇÃO, sempre férteis, mas a CIÊNCIA entra no relacionamento “EXTRACONJUGAL” e GEROU uma filha chamada SOCIOLOGIA.
Essa com vigor começa a disputar o lugar de sua genitora, e o seu interlocutor não seria mais a elite “DOUTA”, mas, sim o pobre, “BAIXO”, o indouto culturalmente marginalizado.
As epistemologias TRADICIONAL (ortodoxa) e CONTEXTUAL (terceiro mundo) é exposta da seguinte maneira por Sérgio Torres:
“TRADICIONAL: A verdade é conhecida de conformidade com a mente a um determinado objeto, esse conceito se confirma ao mundo existente e o legitima. OCIDENTAL: A verdade não é conhecida de conformidade da mente ao objeto (dialética), é oposto, o mundo é um projeto não concluído e em construção, um processo em transformação”.
O CLERO tinha a BIBLIA e a TRADIÇÃO como objeto da reflexão, o mesmo ocorre com a ala chamada PROTESTANTE, que tem como interlocutor a BIBLIA, não descarta a TRADIÇÃO, mas a VERDADE não é mais PRÉ-FIXA, ponto em comum na ortodoxia católica e na evangélica:
“Lançar fora o filho bastardo batizado por nome LOGOS (lógica) “INSEMINAÇÃO ARTIFICIAL” tendo por pai o Deus grego”.
A nova epistemologia não descarta a “TEORIA NA REFLEXÃO”, mas sua ênfase recai na “PRÁXIS” essa é a julgadora que determina a “VERDADE” na teologia; a “Reflexão crítica sobre a práxis cristã à luz da palavra de Deus.” (Gutierrez).
A ASCESE geradora da salvação META-FÍSICA perdeu a META, pois na física, o céu não tem local fixo, o DOGMATISMO, sinônimo de INCAPACIDADE DE DIÁLOGAR COM O DIFERENTE, fechou-se para a ciência, essa foi CONTEXTUALIZANDO a sua COSMO-VISÃO de acordo com o CIENTIFICISMO que deixava duas opções:
“Dialogar com as ciências, principalmente as humanas, ou ficar fossilizadas, descontextualizadas e irrelevantes para a sociedade”.
Surge a neo-ortodoxia, a bíblia deixa de SER para conter a palavra de Deus, a subjetividade, determina, já não é mais a vertical a nascente da leitura, mas a horizontal, a teologia deixa de ser o solucionador da CRISE, e passa a ser a teologia da CRISE, até o mito foi intimado a se explicar, caso se explique, deixe de ser mito, se não, cale-se, deixe a razão falar!
A HISTÓRIA faria a CRITICA, teria a liberdade para RELATIVIZAR TODO O ABSOLUTO, que venha contra a VIDA, afinal o epítome da fé cristã é a RESSUREIÇÃO DO CORPO e não a IMORTALIDADE DA ALMA, por isso, tanto a TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO (católica), quanto a MISSÃO INTEGRAL (protestante), tem a seguinte epistemologia em comum:
“A VERDADE não é mais metafísica, mas sim é uma construção histórico-cultural & contextual”, o CORPO é o objeto da reflexão, não mais a “ALMA IMORTAL”, a teologia deixou de ter uma VERDADE ABSOLUTA, para ter uma VERDADE HISTÓRICA, afinal o verbo se tornou CARNE, toda reflexão começa nas dores do CORPO e não nos anseios da ALMA”.
O CORPO tornou-se o principal interlocutor, e o diálogo não é mais a VERDADE PRÉ-EXISTENTE, firmada no IDEAL do SER que “É”; o mundo não precisa ser INTERPRETADO para que o SUJEITO se ajuste a ELE, agora, ele precisa ser TRANSFORMADO, a relação entre SUJEITO e OBJETO não é mais de PASSIVIDADE, contemplação “olhar para”, não é admirar a beleza do COSMOS, mas sim de ATIVIDADE, “entrar em, participar, mudar”, transformar a desordem do caos em cosmos!
A reflexão não é sobre o LOGOS que se fez DISCURO COERENTE, mas sobre o LOGOS que entrou num corpo e através dele não sistematizou a vida, o ONI-POTENTE torna-se IN-POTÊNTE e grita: ELOI ELOI LAMA SABACTANI, o Deus que está em todos os lugares, encontra um lugar em que está “SÓ”, o corpo de “CARNE”. O eterno experimenta o fim, a vida se encontra com a morte, e faz uma aliança de sentido!
Nenhuma construção poderia tentar esgotar o falar de Deus, pois o que se fala D’Ele hoje, não pode ser absoluto, a mesma fala que absolutiza o poder do “DEUS QUE FAZ”, encontra o PARADOXO, quando “O DEUS QUE FEZ” , não “FAZ”!
O MOMENTO HISTÓRICO é outro, a vida é movimento, o tempo passa a ser o RELATIVIZADOR DAS CERTEZAS, assim como nas outras dimensões do saber, afinal de contas se a teologia tem alguma posição não é de RAINHA DAS CIÊNCIAS, mas de SERVA dos homens que pensam, e OPRESSORA DOS IGNORANTES!
Não é relativizar o PODER DE DEUS, mas sim, não absolutizar o SABER DE DEUS, essa ruptura dá uma nova vida a chamada TEOLOGIA DA MISSÃO INTEGRAL, onde a antropologia, não dicotomiza, mas torna-se HOLÍSTICA, não se fragmenta em TESE e ANTITESE, mas interage numa SIM-BIO-SE com a filosofia HEGELIANA de que toda TESE, tem sua ANTITESE, que forma uma SINTESE, e que novamente volta formar uma TESE e tudo sempre volta ao ponto de onde partiu!
Mas surge a pergunta: “Fracassou a teologia da libertação e a missão integral”? No meu ponto de vista não! O que houve foi uma expectativa muito acima da realidade na época em que emergiu. No entanto a semente foi plantada, e já podemos colher frutos hoje, cada um que foi impactado mudou a sua reflexão, sua vida e atingem outros.
Meus tributos a esses que são os precursores da reflexão que não aceitaram viver enclausurados nas suas certezas, fizeram da dúvida instrumento pedagógico para o desenvolvimento da reflexão!







