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12/24/2016

A síndrome de Peter Pan e o complexo de Wendy


Além da popular história do Peter Pan, na vida real podem existir homens que continuam agindo como meninos, apesar da idade, e mulheres que atuam como mães, ao invés de esposas. Homens Peter Pan e mulheres Wendy? É possível? – Dan Kiley, psicólogo norte-americano, estudou a Síndrome de Peter Pan, conhecida como um trauma que bloqueia a maturidade emocional da criança.

Jaime Lira pesquisou sobre o Complexo de Wendy, analisando como as pessoas focam no cuidado, proteção e controle dos demais. Apesar da maior parte dos portadores da Síndrome de Peter Pan serem homens, e do Complexo de Wendy serem mulheres, ambos os sexos podem ser afetados, ainda que em menor proporção.
Síndrome de Peter Pan

A síndrome de Peter Pan se caracteriza por um conjunto de comportamentos apresentados por um homem, que não sabe ou não pode renunciar ser filho para se tornar pai, ou seja, são homens que não querem deixar de ser crianças. Sentem-se e vivem como crianças e esperam ser entendidos pelos demais.

A síndrome de Peter Pan se caracteriza, portanto, pela imaturidade em certos aspectos (psicológicos, sociais, problemas sexuais), além de apresentar comportamentos narcisistas, de dependência, irresponsabilidade, rebeldia, etc. Acima de tudo, são homens que temem a solidão, o abandono e o fracasso. Costumam ter mais de 30 anos e irradiam bem estar no primeiro momento em que os conhecemos. A irresponsabilidade é uma de suas características principais, que exercem colocando a culpa nos demais e faltando a compromissos. No âmbito dos relacionamentos amorosos, não se esforçam para fazer parte de um casal maduro e estável.

São homens-meninos que resistem a crescer e amadurecer, por isso são incapazes de cuidar, proteger ou levar adiante um relacionamento amoroso. Por isso, a maioria deles só têm relações superficiais, sem permanecer por muito tempo numa relação estável, já que costumam fugir do compromisso.

Complexo de Wendy

O complexo de Wendy pode ser reconhecido em mulheres que manifestam uma preocupação excessiva pelo bem estar do outro, acompanhada de sentimentos de medo à rejeição e insegurança contínua. Essas mulheres apresentam uma série de condutas significativas, como por exemplo: sentir-se imprescindível, tentar fazer o par feliz de maneira persistente, evitar que o outro se chateie, se desculpar por tudo que faz, etc. As mulheres que manifestam este complexo procuram ser aceitas pelos demais, através de condutas de agrado dirigidas aos outros, pois acreditam que assim ganharão respeito.

São mulheres prisioneiras do medo à rejeição e do abandono, com forte tendência ao auto-sacrifício. O complexo de Wendy tem, portanto, características de super-proteção sobre o outro. Atitudes como “Faço eu mesma”, “Não se preocupe”, “Não sei o que você faria sem mim”, caracterizam as mulheres Wendy atuais. Elas exercem na relação amorosa uma figura maternal, ao invés da figura de esposa, favorecendo assim, a imaturidade masculina, ou a conhecida síndrome de Peter Pan.

12/23/2016

Transtorno de personalidade dissocial



Sinônimos: Personalidade sociopática

Pessoas com transtorno de personalidade antissocial frequentemente possuem histórico de abuso de substâncias, especialmente álcool.

Já está comprovado que indivíduos diagnosticados como psicopatas têm maiores chances de reincidir em crimes e, portanto, deveriam ser melhor vigiados.

Pessoas com transtorno psicopático, durante o período da infância, podem ter sofrido com negligência e autoritarismo por parte de seus cuidadores, sentem-se profundamente isolados e tendem à introversão.

Maltratar animais é um importante indicativo de psicopatia.

Já foi comprovado que a serotonina tem um papel importante no controle da agressividade, impulsividade e comportamento antissocial tanto em humanos quanto em outros animais.

Apesar de manipuladores, psicopatas têm mais dificuldade em identificar expressões faciais e verbais que pessoas sem esse transtorno.

Em 1904, Emil Kraepelin analisou cientificamente pela primeira vez, tipos de personalidades semelhantes ao do transtorno de personalidade antissocial e que serviram de embasamento para a criação desse diagnóstico.

Apesar de cometerem mais crimes, serem mais violentos e terem maior índice de reincidência, psicopatas ainda recebem liberdade condicional com 2,5 mais frequência que outros presos.

O transtorno de personalidade antissocial (TPA), comumente referido como sociopatia, é um transtorno de personalidade descrito no DSM-IV-TR, caracterizado pelo comportamento impulsivo do indivíduo afetado, desprezo por normas sociais e indiferença ou desrespeito pelos direitos e pelos sentimentos dos outros.

Frequentemente o indivíduo demonstra também baixa consciência ou sentido de moral associado a um histórico de problemas legais e comportamentos agressivos ou impulsivos. Na classificação internacional de doenças (CID), é chamado de transtorno de personalidade dissocial (F60.2).

Costuma-se distinguir o conceito de distúrbio da personalidade antissocial do conceito de psicopatia. Muitos pesquisadores argumentam que a psicopatia é um distúrbio que se sobrepõe ao TPA mas é distinto deste.

Na população em geral, as taxas dos transtornos de personalidade podem variar de 0,5% a 3%, subindo para 45-66% entre presidiários.

O distúrbio é caracterizado, principalmente, pela ausência de empatia com outros seres humanos (quando não pertencentes à família), resultando em falta de interesse com o bem-estar do outro e sérios prejuízos aos que convivem com eles.

O distúrbio costuma ir se estruturando desde a infância. Por isso, na maioria das vezes, alguns dos seus sintomas podem ser observados nesta fase e/ou na adolescência, por meio de comportamentos agressivos que, durante estes períodos, são denominados de transtornos de conduta.

Não demonstram empatia, são interesseiros, egoístas e manipuladores. Conforme se tornam adultos, o transtorno tende a se cronificar e causar cada vez mais prejuízos na vida do próprio indivíduo e especialmente de quem convive com ele.

Na psicanálise tal comportamento é característico das estruturas ligadas às modalidades de perversão, que diferem das neuroses e das psicoses. Indivíduos com este diagnóstico são usualmente chamados de sociopatas, segundo definição do próprio CID 10:

Transtorno de personalidade caracterizado por um desprezo das obrigações sociais e falta de empatia para com os outros. Há um desvio considerável entre o comportamento e as normas sociais estabelecidas.

O comportamento não é facilmente modificado pelas experiências adversas, inclusive pelas punições. Existe uma baixa tolerância à frustração e um baixo limiar de descarga da agressividade, inclusive da violência. Existe uma tendência a culpar os outros ou a fornecer racionalizações plausíveis para explicar um comportamento que leva o sujeito a entrar em conflito com a sociedade.

Egocentrismo patológico: incapacidade para lealdade ou manutenção de sentimentos de amor ou afeição, sedução apurada, vida sexual impessoal ou pobremente integrada, prática comum de calúnias, omissões ou distorções de fatos e constante incapacidade de seguir algum plano de vida também fazem parte de suas características.

As características dos sociopatas englobam, principalmente, o desprezo pelas obrigações sociais, leis e a falta de consideração com os sentimentos dos outros. Eles possuem um egocentrismo exageradamente patológico, emoções superficiais, teatrais e falsas, pobre ou nenhum controle da impulsividade, baixa tolerância para frustração e derrotas, baixo limiar para descarga de agressão física, irresponsabilidade, falta de empatia com outros seres humanos e animais, ausência de sentimentos de remorso e de culpa em relação ao seu comportamento.

São pessoas sedutoras, cínicas e manipuladoras. Geralmente são incapazes de manter uma relação conjugal leal ou duradoura. É comum o histórico de diversos relacionamentos de curta duração.

Quando percebem que suas atitudes estão sob avaliação, reprovação ou questionamento, são capazes de adotar mudanças radicais em seu estilo de vida para afastar as suspeitas sobre si, como por exemplo, casar-se repentinamente, frequentar igrejas ou presentear conhecidos.

Eles mentem exageradamente, sem constrangimento ou vergonha. Na narrativa dos fatos, utilizam contextos fundamentados em acontecimentos verdadeiros, porém manipulados de acordo com seus interesses, e assim se tornam extremamente convincentes.

Roubam, abusam, trapaceiam, manipulam dolosamente seus familiares, parentes e amigos. Causam inúmeros transtornos a quem está ao seu redor e podem colocar em risco a vida de outras pessoas sem sentir pena de quem foi manipulado. Seduzem seus parceiros a fim de convencê-los a fazer algo em seu lugar, evitando prejuízo a si mesmos.

Podem maltratar animais sem piedade, mesmo que não obrigatoriamente. Esse conjunto de características faz com que os sociopatas dificilmente consigam aprender com a punição e modifiquem suas atitudes.

São capazes de fingir com maestria comportamentos tidos como exemplo de ética social e capazes de fingir crenças ou hábitos para se infiltrarem em grupos sociais ou religiosos a fim de ocultar sua verdadeira personalidade. Pessoas sociopatas não sentem remorso pelo o que fazem. Jamais sentem culpa.

Quando detectam que outras pessoas começam a notar seus desvios de personalidade são extremamente hábeis em fingir comportamentos exemplares, alterando e adaptando seus desvios de conduta para que não sejam descobertos.

Ao notarem que sua personalidade foi descoberta é comum que saiam de cena, mudem de residência e procurem estabelecer novos vínculos sociais com pessoas que desconheçam seu comportamento patológico, mantendo pouco ou nenhum vínculo com seu passado.

Diagnósticos

No caso de timidez patológica os diagnósticos usados na psiquiatria contemporânea podem ser, entre outros, de transtorno de personalidade esquiva, fobia social ou transtornos de ansiedade.

Critérios diagnósticos pelo DSM-IV-TR

A. Um padrão perversivo de desrespeito e violação aos direitos dos outros, que ocorre desde a adolescência, como indicado por pelo menos TRÊS dos seguintes nove critérios:

Fracasso em conformar-se às normas sociais com relação a comportamentos éticos e legais, indicado pela execução repetida de atos que constituem motivo de reprovação social ou detenção (crimes);

Impulsividade predominante ou incapacidade em seguir planos traçados para o futuro;

Irritabilidade e agressividade, indicadas por histórico constante de lutas corporais ou agressões verbais violentas;

Desrespeito irresponsável pela segurança própria ou alheia;

Irresponsabilidade consistente, indicada por um repetido fracasso em manter um comportamento laboral consistente ou honrar obrigações financeiras;

Ausência de remorso, indicada por indiferença ou racionalização por ter manipulado, ferido, maltratado ou roubado outra pessoa;

Tendência para enganar, indicada por mentir compulsivamente, distorcer fatos ou ludibriar os outros para obter credibilidade, vantagens pessoais ou prazer;

Em alguns casos, incapacidade de conviver com animais domésticos ou ter apreço pelos sentimentos dos mesmos em geral;

Dissociabilidade familiar, marcada pelo desrespeito ou desapreço.

B. Existem evidências de Transtorno de Conduta com início antes dos 15 anos de idade.

C. A ocorrência do comportamento antissocial não se dá exclusivamente durante o curso de Esquizofrenia ou Episódio Maníaco.

Teste de psicopatia de Hare (PCL-R)

Para diagnosticar uma pessoa com psicopatia, Robert Hare desenvolveu um famoso teste psicológico, válido somente quando aplicado por um psicólogo ou psiquiatra. Seus critérios diagnósticos abrangem os recursos afetivos, interpessoais e comportamentais. Cada item é avaliado em uma nota de zero (ausente ou leve), um (moderada) ou dois (grave). A soma total determina o grau de psicopatia de uma pessoa.

Fator 1

Narcisismo agressivo

Sedutora / Charme superficial

Grandioso senso de auto-estima / egocêntrico

Mentira patológica

Esperteza / Manipulação

Falta de remorso ou culpa

Superficialidade emocional

Insensibilidade / Falta de empatia

Falha em aceitar a responsabilidade por ações próprias

Agressão a animais

Fator 2

Estilo de vida socialmente desviantes

Necessidade por estimulação / tendência ao tédio e depressão

Estilo de vida parasitário tentando ser sustentado e mantido por seus manipulados.

Falta de metas de longo prazo possíveis ou realistas (incapacidade de enxergar as consequências das ações no futuro)

Impulsividade

Irresponsabilidade e desonestidade frequente

Fator 3

Estilo de comportamentos irresponsáveis

Controle comportamental pobre*

Versatilidade criminal*

Delinquência juvenil*

Problemas comportamentais precoces*

Revogação da liberdade condicional*

Traços não correlacionadas com ambos fatores

Várias relações conjugais de curta duração

Promiscuidade

Uma nota elevada no Fator 2 está associado com reação agressiva, ansiedade, elevado risco de suicídio, criminalidade e violência por impulsividade. Uma nota elevada no Fator 1 por outro lado indica uma melhor habilidade em conviver socialmente, baixa ansiedade, baixa empatia, baixa tolerância a frustrações e baixa ideação suicida, além de estar associado a sucesso e bem-estar.

Indivíduos com Fator 1 positivo já foi considerado como adaptativo em um ambiente altamente competitivo, por obter resultados tanto para o indivíduo quanto paras as corporações, porém muitas vezes eles causam danos a longo prazo, tanto para seus colegas de trabalho quanto para a organização como um todo, devido ao seu comportamento manipulativo, enganoso, abusivo e, muitas vezes fraudulento. Além disso, essas pessoas geralmente causam extremo sofrimento a seus parceiros amorosos, a seus filhos, familiares e animais domésticos.

Causas

Fatores ambientais e psicológicos como condições econômicas precárias, família desestruturada e histórico de violência podem superar fatores genéticos na formação dos psicopatas atuais. Existe grande número de psicopatas entre as populações carcerárias.

Estes indivíduos vivenciaram, geralmente, situações de desamparo, desprezo e desafeto por suas famílias. Vivências repletas de maus tratos, humilhações, abusos e mais uma série de fatores que, somados, podem levar o indivíduo a uma dessensibilização, emocionalmente superficial e a repetir a violência sofrida em suas relações sociais.

Vários estudos mostram a associação entre lesões pré-frontais e comportamentos impulsivos, agressividade e inadequação social. Um indivíduo saudável apresentando comportamentos dentro dos padrões normais após sofrer um acidente em que o córtex é atingido, pode passar a apresentar comportamentos antissociais, ou seja, uma sociopatia adquirida. Estes dados confirmam o fato de que possa existir um componente cerebral envolvido no comportamento dos psicopatas.

A diminuição da massa cinzenta na área pré-frontal, analisada por neuroimagem, demonstra que uma diminuição do volume do hipocampo posterior e um aumento da matéria branca do corpo caloso contribuem para o aparecimento de comportamentos mais agressivos.

Comorbilidades

Portadores de transtornos de personalidade são mais susceptíveis a apresentarem outros transtornos psiquiátricos. Estima-se que 80% das pessoas com transtornos de personalidade sofram de outros problemas de saúde psicológica, como hiperatividade, síndrome do pânico, depressão maior, transtornos de ansiedade e abuso de drogas.

Existe também uma correlação entre o transtorno de personalidade antissocial com outros transtornos de personalidade de desvios sociais, como transtorno de personalidade histriônica, o transtorno de personalidade narcisista e o transtorno de personalidade limítrofe.

Tratamento

As formas mais comuns de medicamentos utilizados em pacientes de transtornos de personalidade são os neurolépticos, antidepressivos, lítio, benzodiazepínicos, anticonvulsivantes e psicoestimulantes.

Porém tratamentos medicamentosos revelaram ser ineficazes no tratamento de psicopatia, apesar de poucos estudos terem sido realizados adequadamente. Mesmo com poucos testes, sais de lítio são usados frequentemente no tratamento de pacientes psicopatas, pois podem levar a uma redução nos comportamentos impulsivos, explosivos e na instabilidade emocional. Seus principais efeitos colaterais são sedação, tremores e problemas motores.

Há indicativos de que a terapia cognitivo-comportamental possa ser um método eficaz no tratamento de transtornos de personalidade antissocial. A American Psychiatric Association considera a terapia analítico-comportamental como o tratamento de regulacão afetiva mais eficaz e empiricamente suportado para transtornos de personalidade.

Psicoterapias com pacientes com personalidade violenta em liberdade condicional reduziram os índices de reincidência para 20 e 33% comparado com 40 a 52% dos grupos controles. Os autores concluem que a personalidade dos pacientes não mudou, porém eles aprenderam a controlar melhor seus impulsos e pensarem mais nas consequências de seus atos.



Ciúme Patológico

Ciúme Patológico é um desejo obsessivo de controle total sobre os sentimentos e comportamentos do outro(a).

Em questões de ciúme, a linha divisória entre imaginação, fantasia, crença e certeza frequentemente se torna vaga e imprecisa. No ciúme as dúvidas podem se transformar em ideias supervalorizadas ou francamente delirantes. Depois das ideias de ciúme, a pessoa é compelida à verificação compulsória de suas dúvidas. O(a) ciumento(a) verifica se a pessoa está onde e com quem disse que estaria, abre correspondências, ouve telefonemas, examina bolsos, bolsas, carteiras, recibos, roupas íntimas, segue o companheiro(a), contrata detetives particulares, etc. Toda essa tentativa de aliviar sentimentos, além de reconhecidamente ridícula até pelo próprio ciumento, não ameniza o mal estar da dúvida.

Entre absurdos e ridículos, há o caso de uma paciente portadora de Ciúme Patológico que marcava o pênis do marido assinando-o no início do dia com uma caneta e verificava a marca desse sinal no final do dia (Wright, 1994). Mais absurda ainda é a história de outro paciente, com ciúme obsessivo, que chegava a examinar as fezes da namorada, procurando possíveis restos de bilhetes engolidos (Torres, 1999).

Os ciumentos estão em constante busca de evidências e confissões que confirmem suas suspeitas mas, ainda que confirmadas pelo(a) companheiro(a), essas inquisições permanentes parecem trazer mais dúvidas ainda, ao invés de tranquilidade. Depois da capitulação, a confissão do companheiro(a) nunca é suficientemente detalhada ou fidedigna e tudo volta à torturante inquisição anterior.

Os portadores de Ciúme Patológico comumente realizam visitas ou telefonemas de surpresa em casa ou no trabalho para confirmar suas suspeitas. Os companheiros(as) desses pacientes vivem ocultando e dissimulando elogios e presentes recebidos ou omitindo fatos e informações na tentativa de minimizar os graves problemas de ciúme, mas geralmente agravam ainda mais.

O que aparece no Ciúme Patológico é um grande desejo de controle total sobre os sentimentos e comportamentos do companheiro(a). Há ainda preocupações excessivas sobre relacionamentos anteriores, as quais podem ocorrer como pensamentos repetitivos, imagens intrusivas e ruminações sem fim sobre fatos passados e seus detalhes.

O Ciúme Patológico é um problema importante para a psiquiatria, envolvendo riscos e sofrimentos. Na psicopatologia o ciúme pode se relacionar a diversos transtornos emocionais. Mais comumente está relacionado aos Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo. Ha autores que diferenciam o Ciúme Patológico do Ciúme Delirante.

De fato, o Ciúme Delirante está relacionado ao Transtorno Delirante Persistente e pode ser conhecido por Amor Obsessivo. Esse tipo de Transtorno Delirante Persistente, apesar de bem conhecido é raro, com incidência estimada em menos de 0,1% (Bogerts, 2005) e predomina em mulheres. Outro quadro onde a presença de Ciúme Patológico é constante é o alcoolismo crônico, bem como nas dependências químicas (Jiménez-Arriero, 2007).

O ciúme é uma emoção humana extremamente comum, senão universal, podendo ser difícil a distinção entre ciúme normal e patológico (Kast, 1991). Na verdade, pouco se sabe sobre experiências e comportamentos associados ao ciúme na população geral, mas em um estudo populacional, todos os entrevistados (100%) responderam positivamente a uma pergunta indicativa de ciúme, embora menos de 10% reconheceu que este sentimento acarretava problemas no relacionamento (Mullen, 1994).

O ciúme pode ser um conjunto de emoções desencadeadas por sentimentos de alguma ameaça à estabilidade ou qualidade de um relacionamento íntimo valorizado. As definições de ciúme são muitas, tendo em comum três elementos:

1) ser uma reação frente a uma ameaça percebida;

2) haver um rival real ou imaginário e;

3) a reação visa eliminar os riscos da perda do objeto amado.

A maneira como o ciúme é visto tem variações importantes nas diferentes culturas e épocas. Assim, no século XIV relacionava-se à paixão, devoção e zelo, à necessidade de preservar algo importante, sem conotações pejorativas de possessividade e desconfiança.

Nas sociedades monogâmicas o ciúme se associa à honra e moral, sendo até um instrumento de proteção da família, talvez um imperativo biológico ou uma adaptação à necessidade de ciência da paternidade. Até bem pouco tempo atrás, dava-se grande ênfase à fidelidade feminina, enquanto a infidelidade masculina era mais bem aceita. Mesmo em tempos modernos, atribui-se um papel positivo a alguma manifestação ciúme, considerando-o um sinal de amor e cuidado.

O conceito de Ciúme Patológico compreende vários sentimentos perturbadores, desproporcionais e absurdos, os quais determinam comportamentos inaceitáveis ou bizarros. Esses sentimentos envolveriam um medo desproporcional de perder o parceiro(a) para um(a) rival, desconfiança excessiva e infundada, gerando significativo prejuízo no relacionamento interpessoal.

Alguns autores não consideram fundamental para o diagnóstico a crença superestimada da infidelidade, sendo mais importante o medo da perda do outro, ou do espaço afetivo ocupado na vida deste, para outros a base do Ciúme Patológico estaria em seu aspecto absurdo, na sua irracionalidade, e não em seu caráter excessivo (Mooney, 1965).

Em psiquiatria o Ciúme Patológico aparece como sintoma de diversos quadros, desde nos Transtornos de Personalidade até em doenças francas. Enquanto o ciúme normal seria transitório, específico e baseado em fatos reais, o Ciúme Patológico aparece como uma preocupação infundada, absurda e emancipada do contexto. Enquanto no ciúme não-patológico o maior desejo é preservar o relacionamento, no Ciúme Patológico haveria o desejo inconsciente da ameaça de um rival (Kast, 1991).

Por ser uma emoção heterogêneas variando da normalidade à patologia, o ciúme oferece dificuldades em distingui-lo como normal ou mórbido. Marazzini (2003) aplicou um questionário a 400 estudantes universitários de ambos os sexos e, igualmente, para 14 pacientes portadores de Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), cuja principal obsessão era ciúme. Duzentos e quarenta e cinco, aproximadamente 61% dos questionários, foram devolvidos. As análises estatísticas revelaram que os pacientes com TOC tinham pontuações totais bem mais elevados do que as pessoas saudáveis.

Além disso, foi possível identificar um grupo intermédio de pessoas, o que corresponde a 10% do total, que estavam preocupados reflexões de ciúme em torno do(a) parceiro(a). A conclusão do estudo mostrou que 10% de uma população de estudantes universitários, embora psiquiatricamente fossem considerados normais, tem acentuadas reflexões de ciúme em torno do(a) parceiro(a). Essa pesquisa permitiu distinguir claramente o grupo de ciúme acentuado, os pacientes com TOC e as pessoas saudáveis, sem esse tipo de preocupação.

No Ciúme Patológico várias emoções são experimentadas, tais como a ansiedade, depressão, raiva, vergonha, insegurança, humilhação, perplexidade, culpa, aumento do desejo sexual e desejo de vingança. Haveria, clara correlação entre autoestima rebaixada, consequentemente a sensação de insegurança e, finalmente o ciúme. O portador de Ciúme Patológico é um vulcão emocional sempre prestes à erupção e apresenta um modo distorcido de vivenciar o amor, para ele um sentimento depreciativo e doentio.

Esses pacientes, com Ciúme Patológico, seriam extremamente sensíveis, vulneráveis e muito desconfiados, com autoestima muito rebaixada e tendo como defesa um comportamento impulsivo, egoísta e agressivo. O potencial para atitudes violentas é destacado no Ciúme Patológico, despertando importante interesse na psiquiatria forense.

As estatísticas policiais sobre as vítimas do Ciúme Patológico normalmente estão distorcidas, tendo em vista o fato das mulheres raramente darem queixa das agressões que sofrem por esse motivo. O Ciúme Patológico pode até motivar homicídios e muitas dessas pessoas sequer chegam aos serviços médicos. Para Palermo (1997), a maioria dos homicídios seguidos de suicídio são crimes de paixão, ou seja, relacionados a ideias delirantes de Ciúme Patológico. São, geralmente, crimes cometidos por homens com algum problema psicoemocional, desde transtornos de personalidade, alcoolismo, drogas, depressão, obsessão, até a franca esquizofrenia.

Ciúme e Doença mental

Na prática clínica, diante da pessoa com preocupações de ciúme é importante avaliar a proporção, adequação, racionalidade e eventual caráter delirante dessas preocupações, assim como o grau de sofrimento que acarretam. O grau sofrimento costuma ser diretamente proporcional ao caráter patológico. Não raro, atualmente, as preocupações com fidelidade não chegam a ser absurdas e muitas vezes são bastante compreensíveis.

A seguir, deve-se buscar um entendimento psicopatológico do sintoma, diferenciar se o fenômeno se trata de uma ideia obsessiva, prevalente ou delirante. Nesse sentido, é fundamental avaliar o grau de crítica do indivíduo em relação a essas preocupações. Como se sabe, uma pessoa pode estar delirante, ainda que o cônjuge de fato o(a) esteja traindo. Isso ocorre quando a crença na infidelidade for baseada em fatos ou atitudes que em nada a justifiquem, e se for inabalável e irremovível pela crítica racional.

O terceiro aspecto seria a busca do diagnóstico responsável pelo sintoma, o qual, como dissemos, pode se tratar de uma obsessão, ideia prevalente ou delírio. Nunca é demais ressaltar que, da mesma forma que a ocorrência de delírios não implica nenhum diagnóstico específico, obsessões e compulsões não são sintomas característicos e exclusivos do Transtorno Obsessivo-Compulsivo.

As obsessões podem acompanhar outros quadros psiquiátricos como, principalmente as depressões, demências e esquizofrenias. Sintomas depressivos podem ainda ser comórbidos e secundários ao Transtorno Obsessivo-Compulsivo, o que ocorre com muita frequência, dificultando o diagnóstico diferencial.

Além da análise dos sintomas, investigando a natureza da preocupação de ciúme e a força dessa crença, é fundamental avaliar também se o sofrimento gerado, tanto para o indivíduo quanto para o(a) companheiro(a), o grau de comprometimento do trabalho, da vida conjugal, do laser e da vida social, é necessário avaliar ainda o risco de atos violentos e a qualidade global do relacionamento.

Deve-se ainda considerar os fatores de predisposição emocional, como por exemplo, os sentimentos de inferioridade e insegurança, os transtornos psicológicos atuais ou anteriores, as experiências passadas de separação ou traição, traumas de relacionamento dos pais. Os fatores precipitantes também merecem atenção, como é o caso do estresse atual, das perdas, mudanças e comportamentos provocativos do cônjuge. É sempre necessária uma avaliação cuidadosa e global em cada caso em particular.

A relação do Ciúme Patológico com Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo parece clara (Zacher, 2004). O Ciúme Patológico pode tornar a vida insuportável para todos envolvidos. A afinidade do Ciúme Patológico para com os Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo deu origem à ideia de que poderia responder ao tratamento com substâncias utilizadas também no tratamento de Transtornos Obsessivo-Compulsivo.

De fato, é grande o número de pacientes com Ciúme Patológico que respondem bem ao tratamento com antidepressivos inibidores seletivos da serotonina (ISRS). O tratamento com esses antidepressivos melhora a preocupação exagerada do ciúme e alivia a angústia do ciúme patológico do paciente. Com base nessas constatações, a fluoxetina - como também outros ISRSs - deve ser sempre considerada como uma possível estratégia eficaz para o tratamento farmacológico do Ciúme Patológico (Zacher, 2004).

O Ciúme Patológico pode coexistir com qualquer diagnóstico psiquiátrico. Entre pacientes psiquiátricos internados os delírios de ciúme foram encontrados em 1,1 % deles. As prevalências diagnósticas foram as seguintes: psicoses orgânicas em 7%, transtornos delirantes paranoides em 6,7%, psicoses alcoólicas em 5,6% e esquizofrenias em 2,5% (Soyka, 1995).

Em pacientes ambulatoriais o Ciúme Patológico relaciona-se em grande parte a quadros depressivos, ansiosos e obsessivos. A maciça maioria dos portadores de Ciúme Patológico, entretanto, não está dentro dos hospitais e nem nos ambulatórios (Shepherd, 1961).

São bastante conhecidos os delírios de ciúme de alcoolistas, a ponto desse sintoma ser considerado, durante algum tempo e por alguns autores, característico do alcoolismo. Destacava-se a impotência sexual proveniente do alcoolismo como importante fator no desenvolvimento de ideias de infidelidade, relacionadas a sentimentos de inferioridade e rejeição.

Nas mulheres, fases de menor interesse sexual ou atratividade física, como ocorre na gravidez e menopausa, produziriam redução da autoestima, aumentando a insegurança e a ocorrência do Ciúme Patológico.

A prevalência do Ciúme Patológico no Alcoolismo gira em torno de 34% (Michael, 1995). A evolução comum do Ciúme Patológico como sintoma do alcoolismo, pode ser, inicialmente, apenas durante a intoxicação alcoólica e, posteriormente, também nos períodos de sobriedade.

Na Esquizofrenia, a prevalência do Ciúme Patológico com características delirantes em pacientes internados costuma ser de apenas 1 a 2,5%. Seria bem mais frequente em transtornos demenciais e em quadros depressivos do que na esquizofrenia (Soyka, 1995). No Transtorno Paranoide, os delírios de ciúme costumam aparecer em 16% deles (Shaji, 1991).

Pode-se ainda ter o delírio de ciúme bem sistematizado em sua forma pura, sem alucinações ou deterioração da personalidade, numa apresentação monossintomática. Este quadro atualmente denominado Transtorno Delirante de Ciúme, seria bem mais raro.

DSM.IV - Critérios Diagnósticos para Transtorno Delirante (F22.0 - 297.1), onde se inclui o Transtorno Delirante de Ciúme seriam:

A. Delírios não-bizarros que envolvem situações da vida real, tais como ser seguido, envenenado, infectado, amado a distância, traído por cônjuge ou parceiro romântico ou ter uma doença com duração mínima de 1 mês.

B. O critério A para Esquizofrenia não é satisfeito.

Nota: alucinações táteis e olfativas podem estar presentes no Transtorno Delirante, se relacionadas ao tema dos delírios.

C. Exceto pelo impacto do(s) delírio(s) ou de suas ramificações, o funcionamento sócio ocupacional não está acentuadamente prejudicado, e o comportamento não é visivelmente esquisito ou bizarro.

D. Se episódios de humor ocorreram durante os delírios, sua duração total foi breve relativamente à duração dos períodos delirantes.

E. A perturbação não se deve aos efeitos fisiológicos diretos de uma substância, como por exemplo, uma droga de abuso, um medicamento ou não se deve à uma condição médica geral (onde se exclui o ciúme do alcoolista).

Especificar tipo (os tipos seguintes são atribuídos com base no tema predominante do(s) delírio(s):

Tipo Erotomaníaco: delírios de que outra pessoa, geralmente de situação mais elevada, está apaixonada pelo indivíduo.

Tipo Grandioso: delírios de grande valor, poder, conhecimento, identidade ou de relação especial com uma divindade ou pessoa famosa.

Tipo Ciumento: delírios de que o parceiro sexual do indivíduo é infiel.

Tipo Persecutório: delírios de que o indivíduo ou alguém chegado a ele está sendo, de algum modo, maldosamente tratado (grifo meu).

Tipo Somático: delírios de que a pessoa tem algum defeito físico ou condição médica geral.

Tipo Misto: delírios característicos de mais de um dos tipos acima, sem predomínio de nenhum deles.

Tipo Inespecífico.

Há vários anos suspeita-se que o Transtorno Obsessivo-Compulsivo poderia se manifestar como Ciúme Patológico. Nesse caso os pensamentos atrelados ao Ciúme Patológico seriam indistinguíveis dos pensamentos obsessivos. Os pensamentos de ciúme seriam ruminações e as buscas por evidências da infidelidade, rituais compulsivos de verificação.

Muitos pacientes teriam crítica e constrangimento por esses pensamentos e se esforçariam para afastá-los. Albina torres et al citam a famosa frase de Barthes em Fragmentos de um discurso amoroso: "Como homem ciumento eu sofro quatro vezes: por ser ciumento, por me culpar por ser assim, por temer que meu ciúme prejudique o outro, por me deixar levar por uma banalidade; eu sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum"(Torres, 1999).

De algum tempo para cá, vários autores têm sugerido a relação entre Ciúme Patológico e Transtornos Obsessivo-Compulsivos (Shepherd, 1961). Desta forma, pensamentos de ciúme podem ser vivenciados como excessivos, irracionais ou intrusivos e podem levar a comportamentos compulsivos, tais como os de verificação compulsiva. Ao se considerar os tipos Ciúme Patológico, podemos observar que, enquanto no Ciúme Delirante o paciente está solidamente convencido da traição, no Ciúme Obsessivo ele sentirá dúvidas e ruminações sobre provas inconclusivas, em que certeza e incerteza, raiva e remorso alternam-se a cada momento.

É importante ressaltar que em estudos sobre TOC, o tema do Ciúme Patológico é pouco abordado, possivelmente por não ser um sintoma muito típico, e em trabalhos que estudam o Ciúme Patológico em geral, sua apresentação como uma manifestação sintomatológica do TOC também é pouco enfatizada, talvez por não estar entre os sintomas mais frequentes.

Sob vários aspectos constata-se que os pensamentos de ciúme partilham várias características com os pensamentos das obsessões: são frequentemente intrusivos, indesejados, desagradáveis e por vezes considerados irracionais, em geral acompanhados de atos de verificação ou busca de reasseguramento. Os indivíduos que avaliam suas atitudes como inadequadas ou injustificadas teriam mais sentimento de culpa e depressão, enquanto os demais apresentariam mais raiva e comportamentos violentos.

Os pensamentos ou ruminações obsessivas de ciúme diferem das suspeitas de ciúme na medida em que são facilmente reconhecidos pelo paciente como ego distônicos, ou seja, irracionais e associados à resistência e culpa, enquanto as preocupações mórbidas são sintônicas, consistentes com o estilo de vida e centradas em problemas realísticos do indivíduo, raramente resistidas e só algumas vezes associadas à culpa.

Assim, nos pacientes obsessivos as preocupações de ciúme tipicamente envolvem maior preservação da crítica, mais vergonha, culpa e sintomas depressivos, menor agressividade expressa e muitas ruminações e rituais de verificação sobre acontecimentos passados. De fato, há casos em que predominam comportamentos relacionados à depressão, tais como: retraimento, dependência e maior demanda por demonstrações afetivas, por vezes alternados com raiva, ameaças e agressões.

O ciúme considerado normal dá-se num contexto interpessoal, entre o sujeito e o objeto, enquanto o ciúme no Transtorno Obsessivo-Compulsivo seria intrapessoal, só dentro do sujeito. O ciúme normal envolveria sempre duas pessoas, e os pacientes melhorariam quando sem relacionamentos amorosos (Parker e Barret, 1997).

No Ciúme Patológico o amor do outro é sempre questionado e o medo da perda é continuado, enquanto no amor normal (ou ideal) o medo não é prevalente e o amor não é questionado. No Transtorno Obsessivo-Compulsivo há sempre dúvida patológica com verificações repetidas, mesmo fenômeno que se observa no Ciúme Patológico. O medo da perda é também um sintoma proeminente no TOC, tanto quanto no Ciúme Patológico. Neste, a perda do ser amado não diz respeito à perda pela morte, como ocorre num relacionamento normal, mas o temor maior, o sofrimento mais assustador é a perda para outro(a).

Segundo o DSM.IV, as Obsessões, seriam definidas por:

(1) pensamentos, impulsos ou imagens recorrentes e persistentes que, em algum momento durante a perturbação, são experimentados como intrusivos e inadequados e causam acentuada ansiedade ou sofrimento.

(2) os pensamentos, impulsos ou imagens não são meras preocupações excessivas com problemas da vida real.

(3) a pessoa tenta ignorar ou suprimir tais pensamentos, impulsos ou imagens, ou neutralizá-los com algum outro pensamento ou ação.

(4) a pessoa reconhece que os pensamentos, impulsos ou imagens obsessivas são produto de sua própria mente (não impostos a partir de fora, como na inserção de pensamentos).

A ausência do termo ciúme nesses critérios seria o maior responsável pela relutância de muitos autores em diagnosticar o TOC em casos cuja apresentação é centrada em preocupações de infidelidade. Apesar de haver temas de ideias obsessivas mais frequentes no TOC, as possibilidades de conteúdos obsessivos e rituais compulsivos são infindáveis. Não há também nenhuma regra proibindo as ideias obsessivas de envolverem o tema ciúme com a mesma força que envolve a contaminação, sujeira, doença, etc.

Devido a essa resistência em se considerar o Ciúme Patológico como um Transtorno Obsessivo-Compulsivo normal com a diferença única no tema da ideia obsessiva, existem termos variantes do TOC, tais como Ciúme Obsessivo, Ciúme Obsessivo-Suspeitoso, forma Obsessivo-Compulsiva de Ciúme Patológico ou Ciúme com Características Obsessivas, evitando-se falar diretamente em Transtorno Obsessivo-Compulsivo. Talvez pelo tema ciúme ter forte natureza paranoide, a aproximação mais natural do transtorno seria com ideias delirantes e quadros tradicionalmente psicóticos.

Ballone GJ, Moura EC - Ciúme Patológico - in. PsiqWeb, Internet, disponível em www.psiqweb.med.br , revisto em 2008.

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6/26/2016

Esquizofrenia

A história sugere que a esquizofrenia atinge a humanidade há milênios, relegando doentes ao isolamento social. Apesar de vastas e profundas pesquisas, o transtorno - caracterizado por comportamento anormal e isolamento emocional - continua sendo um grande mistério.
Cerca de 24 milhões de pessoas no mundo tem esquizofrenia. Aproximadamente 10% das pessoas que têm o transtorno se suicidam. Esquizofrênicos normalmente apresentam sintomas como ilusões, alucinações, obsessão, delírios, além de alterações sociais e emocionais. O mal atinge 56.000 novos casos a cada ano no Brasil.
Embora esteja presente em toda a história da humanidade, o transtorno não havia sido classificado de modo preciso até o fim do século 19. No início do século 20, o psiquiatra alemão Eugen Bleuler criou o nome "esquizofrenia" a partir das palavras gregas "divisão" e "mente" para descrever a doença.
Ele escolheu esse termo baseado na ideia de dupla personalidade, um equívoco comum, principalmente em função de os esquizofrênicos apresentarem uma desconexão com a realidade. Bleuler também se referia à doença usando o termo no plural, considerando que o quadro poderia se apresentar de maneiras diferentes.
Embora normalmente sejam confundidas, a esquizofrenia é diferente do transtorno de dupla personalidade, agora conhecido como transtorno dissociativo de identidade. Normalmente, é difícil distinguir a esquizofrenia de quadros como depressão ou transtorno bipolar.
A esquizofrenia normalmente se desenvolve em homens a partir do fim da adolescência, próximo dos 20 anos, e nas mulheres por volta dos 25 a 30 anos. Sintomas de esquizofrenia podem se desenvolver gradualmente ou rapidamente.
Os sintomas normalmente são classificados como positivos ou negativos, no entanto, a razão desses nomes não tem relação com o fato de os sintomas serem bons ou ruins. Na verdade, sintomas positivos se referem às formas distorcidas ou exageradas de atividade normal, como por exemplo:
·         Ilusões
·         Alucinações
·         Discurso desorganizado
·         Atividades motoras sem propósito ou falta de atividade (conhecida como comportamento catatônico)
Por outro lado, os sintomas negativos se referem aos que apresentam ausência de comportamentos normais, como por exemplo:
·         Não conseguir expressar ou sentir emoções
·         Não sentir prazer na vida
·         Apresentar uma atitude de apatia geral
Alguns classificam os sintomas negativos como sendo cognitivos ou relacionados à atenção e à memória. Os sintomas cognitivos são:
·         Falta de atenção
·         Falta de habilidades de memória
·         Incapacidade de planejar ou organizar
Outros sintomas são problemas no trabalho, de relacionamentos e de higiene pessoal. Para que alguém seja diagnosticado como esquizofrênico, de acordo com os padrões oficiais do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV), um certo número de sintomas precisa ser identificado e o quadro deve se estender, no mínimo, por seis meses.
A esquizofrenia pode se apresentar de diversas formas que se subdividem em diferentes categorias.
·         Paranoia - caracteriza-se por ilusões e alucinações. Frequentemente, pessoas esquizofrênicas acreditam ser vítimas das demais.
·         Desorganização - consiste em um pensamento desorganizado, em comportamento que parece incoerente aos demais e falha na expressão de emoções.
·         Catatonia - pessoas com esquizofrenia catatônica podem ficar andando sem rumo ou falar excessivamente e sem razão, ou ainda, podem ficar paradas e caladas.
·         Indiferença - este tipo de esquizofrenia é uma categoria genérica para os que possuem uma mistura de sintomas que não se encaixam bem nas demais categorias.
·         Residual - se alguém tem histórico de esquizofrenia e passa por um período com sintomas negativos, sem apresentar os sintomas positivos, pode-se caracterizar esquizofrenia residual.
Alguns quadros são bem semelhantes à esquizofrenia. O transtorno esquizofreniforme, por exemplo, pode incluir sintomas positivos e negativos de esquizofrenia, mas dura apenas de um a seis meses.
Um outro quadro semelhante é o transtorno esquizoafetivo. Pessoas com transtorno esquizoafetivo sofrem tanto com sintomas de esquizofrenia como com transtornos do humor (como depressão).
Muitos sintomas de esquizofrenia podem ter efeitos drásticos sobre a vida do paciente em termos de atividades diárias, trabalho, vida social e relacionamentos. Ilusões se referem a crenças falsas e alucinações dizem respeito a falsas sensações.
Algumas ilusões típicas incluem crenças paranoicas sobre ser vítima dos outros ou acreditar ser uma famosa figura histórica (como Napoleão Bonaparte ou Jesus Cristo). Alucinações acontecem por meio de visões, de cheiros, de sons, de sentimentos ou até mesmo de gostos. Normalmente, os esquizofrênicos acreditam ouvir vozes. Essas vozes comentariam o comportamento da pessoa ou dariam ordens à pessoa.
A reintegração de um esquizofrênico na sociedade tende a ser difícil, considerando-se que o transtorno normalmente se desenvolve quando a pessoa já tem profissão e é autossuficiente. A maioria não se casa, não forma família, nem se dá bem no trabalho. Infelizmente, 5% dos esquizofrênicos acabam virando moradores de rua.
Estes fatores podem contribuir para a alta porcentagem de esquizofrênicos que cometem suicídio (10%). No entanto, a estatística considera apenas casos de suicídio consumado. A estatística exata dos esquizofrênicos que tentam o suicídio é desconhecida, mas acredita-se que fique entre 18 e 55%.
Os especialistas divergem quanto à questão de a esquizofrenia deixar a pessoa violenta. Estatísticas mostram que a doença não causa comportamento violento e que a maioria dos doentes não são violentos.
Geralmente, os que têm histórico de violência antes do início do quadro tendem a continuar violentos, enquanto os não-violentos dificilmente se apresentam esse comportamento.
No entanto, estudos demonstram que alguns esquizofrênicos ficam mais propensos à violência do que a população em geral, se abusarem de drogas e álcool. E quando ficam violentos, isso geralmente acontece com amigos ou com a família dentro de casa. Notavelmente, as vítimas mais prováveis da violência são eles próprios, haja vista o alto índice de suicídio.
Para amigos e familiares de esquizofrênicos, lidar com as ilusões e com as alucinações é difícil. Recomenda-se não tentar competir nem brincar com a falsa noção do esquizofrênico. Em vez disso, deve-se discordar educadamente, falando que as pessoas possuem suas próprias opiniões.
Frequentemente, a esquizofrenia é tão súbita que é difícil entender suas causas. Apesar da profundidade dos estudos e das pesquisas sobre o transtorno, a causa ainda é pouco conhecida.
Cientistas não sabem o que causa a esquizofrenia, mas é provável que ela se desenvolva a partir de fatores genéticos e circunstanciais. Parentes de pessoas com esquizofrenia têm mais propensão de desenvolver a doença.
Por exemplo, você tem 10% de chance de desenvolver o transtorno se tiver um parente de primeiro grau (como pais ou irmão) com esquizofrenia (comparada à chance de 1% da população em geral).
Além disso, um gêmeo idêntico de um esquizofrênico possui de 40% a 65% de chances de desenvolver o transtorno. Embora as estatísticas indiquem que a genética certamente tem a ver com a doença, ela não explica tudo.
Apenas analisar a genética não ajuda os cientistas a determinar quem irá desenvolver o transtorno. É possível que diversos genes diferentes influenciem o aparecimento da esquizofrenia, mas outros fatores também contribuem para o transtorno.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) relata que 90% dos esquizofrênicos com tratamento inadequado vivem em países em desenvolvimento. Apesar disso, um estudo feito nos anos 60 feito pela OMS descobriu que o índice de recuperação de esquizofrenia nesses países era, na verdade, maior do que em outras áreas industrializadas do mundo.
Além disso, um estudo posterior tentou corrigir eventuais erros na amostragem do estudo inicial, mas a descoberta foi reconfirmada. Enquanto apenas um terço dos esquizofrênicos nos países industrializados se recuperam completamente, quase dois terços se recuperam nos países em desenvolvimento.
Muitas teorias tentam explicar essa disparidade. Uma delas diz que as pessoas nessas sociedades são, talvez, mais tolerantes e abertas aos esquizofrênicos. Outra teoria alega que um esquizofrênico se beneficia com um emprego produtivo adequado a suas capacidades individuais (tal conquista é mais difícil em sociedades competitivas e industrializadas).
Talvez, a natureza do trabalho nos países em desenvolvimento mais pobres, tais como agricultura de subsistência, seja um facilitador para o esquizofrênico conseguir um emprego.
Algumas pesquisas revelam possíveis causas para sintomas específicos de esquizofrenia. Por exemplo, as alucinações que muitos esquizofrênicos vivenciam podem ter relação com a desconexão do indivíduo com a realidade. Se suas ideias são separadas de suas verdadeiras sensações ou emoções, eles podem não ser capazes de prever o próprio comportamento.
Nesse caso, se não conseguem reconhecer a própria voz interna, eles podem chegar à conclusão de que ela não veio de si próprio. Isso também pode explicar a razão pela qual muitos acreditam que uma outra pessoa os esteja controlando.
Os cientistas têm buscado respostas através de estudos da composição química do cérebro de esquizofrênicos. Os medicamentos que tratam a esquizofrenia geram uma grande quantidade de dúvidas e respondem parcialmente às dúvidas de como as funções cerebrais atuam no transtorno.