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2/04/2013

Neurose obsessiva


O ego dos neuróticos obsessivos apresenta-se dividido em uma parte lógica (que sabe o que é verdade e o que é falso) e outra mágica (que repudia partes da realidade); o mecanismo defensivo do isolamento possibilita a manutenção dessa divisão; além deste mecanismo, o obsessivo se serve também do deslocamento e da anulação.
Uma característica fundamental na neurose obsessiva é sua ligação com o sentimento de culpa; os neuróticos obsessivos tentam usar objetos para resolver ou aliviar seus conflitos internos.
O neurótico obsessivo tem medo de suas emoções e tem medo das coisas que as sugerem, fugindo do macrocosmo das coisas para o microcosmo das palavras. O pensamento e a fala tornam-se substitutos das emoções, ligados à realidade, recuperam as qualidades originais, e perdem o seu valor para o uso prático.
O neurótico obsessivo tende a crer na onipotência de seus pensamentos, e teme essa onipotência, isso faz com que ele dependa daquilo que pensa. O pensamento do obsessivo é um pensamento abstrato, isolado do mundo real das coisas concretas, sendo a dúvida o conflito instintivo deslocado para a esfera intelectual. Os obsessivos se preparam incessantemente para o futuro e nunca experimentam o presente.
A sintomatologia das neuroses obsessivas é cheia de superstições mágicas; as ideias, sentimentos ou condutas são vividos como forçadas, como se impondo ao sujeito, por mais que ele lute contra elas e as ache absurdas; apresentam pensamento obsessivo (que podem aumentar de tal forma na mente do indivíduo, que este pode ficar preso por uma cadeia infindável de pensamentos, que podem paralisar ações práticas, fazendo com que a dúvida seja a regra geral do comportamento obsessivo), a atividade compulsiva, os rituais obsessivos (rituais envolvendo a verificação; rituais envolvendo a limpeza; pensamentos obsessivos sem compulsões; lentidões obsessivas e rituais mistos).
A neurose obsessiva se instala no indivíduo mais tardiamente do que a histérica, afetando a personalidade total do indivíduo em extensão muito maior do que na histeria. No tratamento há mais dificuldade devido ao fato desse indivíduo ter dificuldade de associar livremente, internalizar o conflito e apresentar um ego dividido, estes fatores geram resistência.
Na neurose obsessiva o indivíduo é assolado por pensamentos recorrentes e incontroláveis. São dúvidas, tentações, ordens e proibições que trazem concomitantemente sofrimento e satisfação ao ego. Esses pensamentos surgem como uma defesa contra qualquer afeto ligado a uma experiência sexual traumática vivida na infância. Assim, enquanto o histérico se mostra, o neurótico obsessivo se esconde atrás da moralidade; freia em nome do amor, a sua agressividade pelo objeto. Na verdade, tais pensamentos têm a função de promover um equilíbrio entre o desejo e a proibição, salvando o sujeito da passagem ao ato. A partir disso, pode-se pensar que aí está presente um mandamento fundamental da neurose obsessiva, que é o tabu de tocar, como uma maneira de separar uma coisa de qualquer contato, um jeito de isolar a representação de um afeto. Enfim, o neurótico obsessivo é um sujeito que vive aprisionado por suas ideias torturantes onde a realização do desejo não só é constantemente negada, mas também vigiada.
Nos casos de neurose obsessiva, os sintomas são de tendências contraditórias – ou de natureza negativa, como proibições, penitências, ou satisfações substitutivas, em disfarce simbólico; nesses pacientes, a ambivalência se mostra como um fator fundamental, ou seja, a uma ação determinada, se segue um segundo ato que anula essa primeira ação. Freud demonstra, ao descrever teoricamente a obsessão em “Notas sobre um caso de neurose obsessiva”, que o neurótico cria ele mesmo, nesses casos, impedimentos para a realização de seus juramentos, por medo da sanção que ele mesmo se colocou – o paciente cria situações complicadas, difíceis de resolver, gerando um tormento para si. O sintoma, em casos de neurose obsessiva, representa então o compromisso feito pelo sujeito de duas ideias contraditórias. Esse sintoma obsessivo se dá no pensamento desses pacientes, com o que Freud denomina inicialmente de ‘ideias obsessivas’ e depois de ‘pensar obsessivo’; nesses casos se estabeleceria então uma base de pensamento patológico, sendo muito comum os obsessivos ficarem presos por uma cadeia interminável de pensamentos.
O interessante é que os pacientes não conhecem, eles mesmos, o contexto verbal de sua obsessão; esta é protegida por deformações de conteúdo das possíveis tentativas conscientes para sua solução. Há também uma onipotência ligada à condição obsessiva, que se refere o fato de que esses pacientes acreditam que um ato seu tem o poder de causar mal e até matar outra pessoa, por isso a rápida medida defensiva que adotam, para evitar que isso ocorra; consideram, por exemplo, que um ato seu tem o poder de matar alguém, e que com outro ato anulador ele pode impedir isso, ou seja, superestimam o efeito de seus pensamentos hostis em relação ao mundo externo.
O que provocaria a formação desses sintomas, no caso de uma neurose obsessiva, é a angústia em que o eu está colocado, diante do superego; e nesse caso, é essa hostilidade advinda do superego que representa o perigo de que o eu tem de se proteger. Os rituais, cerimoniais, realizados pelo eu de forma a evitar a angústia advinda do superego no caso da neurose obsessiva, são frequentes no período de latência e apenas um pequeno percentual dos sujeitos mantêm isso no decorrer de seu desenvolvimento, de forma a desenvolver a obsessão; para cada pessoa, então, de forma diferente das demais, há um limiar de insuportável, um limiar além do qual seu aparelho psíquico fracassa na tentativa de manter sob controle o que tem de ser resolvido.