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9/09/2011

Josino, exemplo de superação: "Eu venci o álcool"





Nos anos 90, Josino tomava um litro de cachaça em duas horas Foto: Carlos Santos/DN/D.A Press
A experiência vivida por Josino Ribeiro merece ser contada. Ele começou a beber aos 17 anos, por influência de um amigo. "O primeiro porre foi de vinho", lembra. Fã de Raul Seixas, a juventude foi vivida como a de muitos jovens: praticava esportes, namorava, bebia com os amigos, trabalhava fazendo uns bicos aqui, outros acolá.

Com o passar do tempo, ele foi se envolvendo com várias mulheres. As seis com quem a relação foi mais duradoura originaram, cada uma, um filho. O mais velho nasceu em 1979, quatro anos após ele ingressar como funcionário da UFRN.

Hoje Josino tem uma relação mais próxima com o filho de 20 anos, que se recupera do crack, e a mais nova, de 7 anos, fruto de uma relação de sua última aventura fora do casamento atual, em uma casa de drinques. "Mas pretendo chegar para os outros e pedir perdão por ter sido omisso todo esse tempo, por não ter dado carinho, conforto", planeja.

O auge do vício nas bebidas ocorreu nos anos 90. "Fiquei devendo em vários bares. Cheguei a andar do relógio do Alecrim até Ponta Negra por falta de dinheiro para o vale-transporte porque havia gasto com bebida. Batia na minha mulher, expulsei ela de casa, quebrava louça, os nossos móveis, fui preso duas vezes por causa de brigas, sofri acidente de moto.

Meus pais e meus tios me rejeitavam nas festas da família porque eu estava fedendo, com a roupa suja, endividado", conta. Após o ano 2000, Josino já estava tão apto ao vício que chegava a tomar, sozinho, um litro de aguardente de cana em cerca de duas horas. "Às vezes a vista escurecia", lembra.

Josino chegou a enfrentar problemas com a Polícia Federal por causa do furto das peças nos computadores da UFRN e pelo envolvimento com uma prostituta que era traficante de drogas no Km6. Dos dois processos que enfrentou, um resultou em uma palestra a que teve que assistir, e outro foi arquivado "porque o juiz teve pena", conforme relatou. "Na época da demissão, cheguei pra minha mulher, contei o que aconteceu e pedi dez reais. No dia em que eu sai da UFRN tomei um litro de cana para comemorar".

No auge da dependência, a única pessoa que ficou ao seu lado foi a sua mulher, com quem, aliás, viveu o momento mais constrangedor de sua vida. "Certa vez ela foi me buscar num bar e, como nem eu nem ela tínhamos dinheiro para a conta, pedi para ela pra sair primeiro, e depois eu fui. É vergonhoso isso, sair de mansinho sem ninguém perceber, e eu fiz minha mulher fazer esse papel. Ela perdeu a confiança em mim, e não deixava eu ficar nem ao menos com as chaves de casa, quando precisava visitar a família no interior".

Volta por cima

Coincidentemente a reviravolta aconteceu após Josino ter sido demitido por justa causa da universidade. Foram sete meses no fundo do poço. "Bebi de março a setembro, quando decidi entrar nos Alcoólicos Anônimos (AA). Moro na Cidade da Esperança e passei a freqüentar o grupo Esperança.

Depois vim ser plantonista no escritório sede, e consegui arrumar um emprego, primeiro na Ceasa, e agora numa escola. Ganho um salário mínimo, bem menos do que os R$ 3.900 que a UFRN me pagava, mas ainda assim me sinto mais feliz hoje, porque naquela época o dinheiro era comprometido com empréstimos, desconto por faltas ao trabalho, pagamento de pensões alimentícias".

Desde 8 de setembro de 2005, quando parou definitivamente de beber, Josino Ribeiro vivenciou a morte dos pais (a mãe em 2007 e o pai em 2009) e a tentação em voltar a beber, hoje rara. "Não me sinto curado, mas tratado. Deixei até mesmo de ir ao campus universitário, que não traz boas lembranças.

Vou voltar agora pra ajudar o grupo do AA da UFRN, e também busco me aposentar, juntando o tempo de serviço da UFRN e o anterior, quando fui autônomo. Aos poucos reconstruí minha vida". Remetendo ao seu ídolo, Josino contou que planeja o futuro lembrando de uma música de Raul: "Não diga que a canção está perdida tente outra vez", disse. F

Diário de Natal
Cidades
Edição de domingo, 31 de julho de 2011

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