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9/06/2011

Comunidade judaica recebe JACS Brasil para assistir judeus dependentes químicos e suas famílias




Marcus Moraes

Drogas e alcoolismo entre judeus ainda são, definitivamente, um tabu para a comunidade judaica, que não se sente nada à vontade para abordar tais temas abertamente. Mas não se pode mais ser ingênuo a ponto de negá-los. Eles existem, e são bem maiores do que imaginamos! Pior: trata-se de um problema que vem crescendo assustadoramente e sem receber a devida atenção por parte dos educadores, líderes religiosos e comunitários.

A partir de agora, os adictos a drogas e álcool - bem como suas famílias - vão poder ser assistidos pelo JACS Brasil. O JACS é uma entidade fundada nos Estados Unidos cuja sigla significa "Judeus Alcoólicos, Comprometidos com Drogas e Seus Parentes".

A organização não-governamental (ONG) judaica vai concentrar seus esforços nos aspectos espirituais para grupos de ajuda mútua no auxílio ao tratamento de dependentes químicos judeus. Além disso, o JACS Brasil pretende desenvolver um trabalho preventivo lado-a-lado com líderes comunitários e instituições de ensino, de saúde e de assistência social da comunidade.

O JACS Brasil tem como presidente de honra o psiquiatra e rabino norte-americano Prof. Dr. Abraham Twerski, fundador do JACS norte-americano. Considerado uma das maiores autoridades em abuso de entorpecentes dos EUA, Twerski é também o fundador e diretor médico do Centro de Reabilitação Gateway, localizado na Pennsylvania, considerado um dos melhores centros de tratamento anti-drogas e alcoolismo dos EUA. Com mais de 20 livros publicados, promove palestras em todo o mundo sobre dependência química. Twerski também assina uma coluna na revista Morashá.

Em dezembro de 2000, Twerski veio ao Brasil patrocinado pelo Projeto Morashá para uma série de palestras sobre o problema do alcoolismo. As palestras proferidas e os workshops oferecidos para profissionais foram um sucesso de público, tanto na comunidade judaica como na sociedade maior.

Uma mensagem em vídeo do rabino foi exibida ao público presente na inauguração do JACS brasileiro, que ocorreu na Hebraica, em São Paulo, recentemente. Twerski falou sobre a importância do JACS para toda a comunidade judaica e alertou para o conto de fadas de que judeus não bebem e não se drogam.

"Não somos um programa de 12 passos. Não somos uma ordem religiosa. Não somos um tratamento alternativo, mas sim um caminho alternativo para se encontrar o tratamento correto", enfatizam Marcos e sua esposa Leia, que também é idealizadora e uma das principais colaboradoras do JACS Brasil. "Temos certeza de que a melhor forma de se evitar a adicção é a prevenção. Várias doenças foram exterminadas somente com prevenção, ainda que não tenham sido encontradas suas vacinas. Com a adicção, pretendemos o mesmo", completam.

Todo o trabalho é realizado dentro dos preceitos judaicos. As atividades do JACS Brasil permitem que judeus de todas as origens e correntes ideológicas possam interagir entre si ao mesmo tempo em que se reconectam às tradições e à espiritualidade judaicas.

Além disso, os participantes são estimulados a encontrar no judaísmo valores que ajudem na sua reabilitação. Alguns feriados judaicos, por exemplo, são comemorados pelo grupo. O rabino Shie Pasternak, ortodoxo, foi eleito conselheiro espiritual do JACS Brasil. "Nós aceitamos todas as correntes judaicas", garante Susskind. "Porém, até agora, nenhum rabino conservador ou reformista se propôs a se juntar a nós", acrescenta.

Fundado em 1979 nos EUA, o JACS está também presente em Israel, Canadá, França, Austrália e México. O novo JACS Brasil é a única entidade judaica brasileira inteiramente dedicada à prevenção e reabilitação de adictos a drogas e álcool. "Esse nunca chegou a ser um problema significativo entre judeus.

Estávamos acostumados a lidar com um dos mais baixos percentuais, se comparados a outras minorias. Entretanto, os números vêm se tornando assustadoramente crescentes", afirma Leia Susskind, que é psicóloga.

Como se nota, a expressão em ídiche "Shiker is goyish" (Bebedeira é coisa de goy) perdeu bastante do seu sentido. "Nós, judeus, somos vulneráveis! Só para exemplificar: enquanto a adicção - conhecida por vício - ao álcool registrou um aumento de 0,9% na sociedade americana como um todo, na comunidade judaica daquele país estes números chegaram a 400%. Ainda temos um percentual bem mais baixo, mas este crescimento exponencial preocupa muito", disse Susskind no meio do seu discurso.

E prosseguiu: "Vocês acham que estou sendo alarmista? Na Polônia, em 1939, muitos judeus diziam: minha vida vai ser muito dura, mas isto vai passar. Afinal, somos 6 milhões. O que eles vão fazer, vão matar todos nós? Acabar conosco? Infelizmente, pela memória de meus avós, dos meus sete tios e sei lá quantos primos, os alarmistas estavam certos! Vamos reconhecer juntos o perigo", frisou.

"O problema existe"

Ao longo dos quase 40 minutos de discurso, o presidente do JACS Brasil fez referências anônimas a alguns membros da entidade e suas famílias, assim como suas lutas pessoais contra as drogas, álcool, jogo etc. "Nós sabemos que a adicção é uma doença física, mental e espiritual, mas que pode ser tratada com sucesso". Além disso, teceu inúmeros elogios àqueles que vêm colaborando voluntariamente com a estruturação da ONG desde 1999.

Para Gustavo Erlichman, responsável pelo site do grupo: "O JACS Brasil é uma prova viva de que a nossa comunidade, quando quer se unir em torno de uma causa, consegue, e com muito êxito", afirma. E completa: "Por sermos uma comunidade pequena e - por que não dizer? - fechada, os adictos judeus não buscavam ajuda (seja por vergonha ou por outros motivos) e, quando o faziam, iam a outros lugares, que acabavam os afastando da religião e da comunidade.”

“Agora, com o JACS Brasil, estas pessoas podem ter plena confiança na ajuda que vão receber na própria comunidade judaica, de pessoas extremamente capacitadas, profissionais no assunto, que se comprometem com o sigilo da identidade das pessoas”.

De acordo com o Dr. Benzion Twerski, alguns pais judeus sofrem da "Síndrome do Shiduch". "Eles simplesmente escondem o fato de que o filho é um dependente químico para evitar atrapalhar oportunidades de casamento para os irmãos ou mesmo de serem discriminados". Para o Dr. Twerski "os adictos judeus norte-americanos estão entre os que levam mais tempo para procurar ajuda, o que diminui as chances de recuperação". Susskind garante que a situação brasileira é idêntica.

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